A liturgia da igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral. Artigo de Eliseu Wisniewski

Foto: Lydiah Darah | Flickr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

26 Setembro 2022

 

"Oferecer uma síntese completa, clara e precisa do saber litúrgico atual, naquilo que é comum e básico nas celebrações da Igreja é o escopo da obra: A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral (Vozes, 2022), escrita pelo doutor em teologia litúrgica Julián López Martín", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos), da Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR.

 

Eis o artigo.

 

Oferecer uma síntese completa, clara e precisa do saber litúrgico atual, naquilo que é comum e básico nas celebrações da Igreja é o escopo da obra: A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral, escrita pelo doutor em teologia litúrgica Julián López Martín. O referido autor foi professor de Liturgia e Sacramentos na Pontifícia Universidade de Salamanca e em outros centros superiores. Delegado diocesano de Liturgia, colaborador da Secretaria Nacional e presidente da Associação Espanhola de Professores de Liturgia. Bispo de Ciudad Rodrigo (1994-2002) e, desde março de 2002, Bispo de León. Membro da CE de Ensino e Catequese (1996-1999) e da Liturgia da CE desde 1993, sendo presidente dela de 2002 a 2001. Em julho de 2010, o papa emérito Bento XVI o nomeou membro da Congregação para o Culto Divino.

 

A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral (Vozes, 2022, 576 p.)

 

Esta obra que teve a sua primeira edição em 1994, na ColeçãoSapientia FideiSérie de Manuais de Teologia da Biblioteca de Autores Cristianos BAC, foi estruturada em cinco partes e traz uma síntese do conhecimento litúrgico atual com base na visão teológica e pastoral dos ensinamentos do Concílio Vaticano II e da contribuição da segunda parte do Catecismo da Igreja Católica. O trabalho também responde à Instrução sobre a formação litúrgica nos Seminários da Congregação para a Educação Católica (03/06/1979), sobre a abordagem, propósitos e conteúdos do ensino da liturgia.

 

Martín traz um capítulo preliminar, dedicado à situação da ciência litúrgica e aos objetivos da formação litúrgica (p. 49-66). Mais especificamente este capítulo preliminar se ocupa, em primeiro lugar, com o objeto da ciência litúrgica (p. 50-51), com sua história (p. 51-57), sua metodologia: conteúdos/métodos (p. 57-61) e com o lugar que ela ocupa entre as outras disciplinas teológicas (p. 61-62). No final trata também da formação litúrgica: noção, características, objetivos (p. 62-66).

 

A primeira parte, “O mistério na história” (p. 67-146), é composta de quatro capítulos que trata de situar o estudo da liturgia na perspectiva da economia da salvação, ou seja, a compreensão da liturgia é mais completa e coerente quando a situamos na perspectiva que lhe é conatural, ou seja, dentro da economia salvífica projetada e revelada pelo Pai, cumprida pelo Filho e Senhor nosso Jesus Cristo, e levada a cabo pelo Espírito Santo na etapa da igreja, que transcorre desde Pentecostes até o retorno glorioso de Cristo. Mas o centro desta economia é ocupada pelo Mistério pascal de Jesus Cristo, que por sua vez constitui o núcleo de toda celebração litúrgica. Neste mistério se realizou a salvação que a Igreja anuncia e atualiza na eucaristia e nos sacramentos e sacramentais que ela celebra ao longo do ano litúrgico, cujo centro é o Tríduo pascal de Jesus Cristo, morto, sepultado e ressuscitado (p. 69-83).

 

Avançando na reflexão e no estudo sobre a natureza da liturgia, dentro da perspectiva da economia da salvação, o autor ressalta que o uso de uma linguagem bíblica e positiva permitiu recuperar uma visão da celebração do mistério cristão que fora perdendo a partir da Idade Média, em favor de uma teologia intelectualizada e distante da celebração litúrgica. Nesta recuperação entrou em crise um conceito genérico de culto, que não parecia coincidir com a noção que se descobria no Novo Testamento e patrística. Neste sentido, o Concílio Vaticano II, inspirando-se numa antiga oração litúrgica, afirmou que em Cristo nos foi comunicada a plenitude do culto divino (p. 84-101).

 

Em seguida, Martín observa que a liturgia não nasceu organizada e completa, mas foi se formando e configurando lentamente, recebendo sua mutabilidade e sua diferenciação na história e na geografia, ainda que permaneça fiel não só ao eu conteúdo profundo, mas também a algumas estruturas rituais determinadas pela tradição. As variações e as mudanças são a demonstração e a vitalidade interna da liturgia e de sua capacidade de encarnar-se em cada momento histórico e até mesmo em cada espaço sociocultural. Frente a isso, são expostas as grandes linhas da evolução histórica da liturgia e o espírito que presidiu cada etapa fundamental merecendo destaque os fatos mais relevantes e a característica que distingue cada etapa (p. 102-128).

 

Assim, ao tratar da época do grande desenvolvimento local da liturgia: século IV ao VI, Martín assinala como fato mais significativo a consolidação das liturgias particulares, formando entre si famílias litúrgicas tanto no Oriente quanto no Ocidente. Do oriente: liturgia siro-antioquena e jacobita, liturgia moronita, liturgia assírio-caldeia ou nestoriana, liturgia siro-malabar, liturgia bizantina, liturgia armênia, liturgia copta, liturgia etíope (p. 130-139). Do Ocidente: a liturgia africana, liturgia romana clássica, liturgia ambrosiana, liturgia hispano-moçárabe, liturgia galicana, liturgia celta (p. 139-146).

 

A segunda parte, “A celebração o mistério” (p. 147-267), dedicada à liturgia enquanto ação é composta de nove capítulos. Estuda-se, por isso, a “encenação da liturgia” (p. 150), que torna ato significativo, ritual e festivo num lugar e num tempo concretos, isso porque segundo Martín a celebração é uma categoria fundamental para definir a liturgia como ação representativa e atualizadora do mistério de Cristo e da história da salvação (p. 149-160).

 

Em seguida destacam-se os componentes da celebração litúrgica:

 

  • a) tendo-se em conta que o primeiro componente da celebração é o acontecimento que ocasiona a ação litúrgica, evocada pela Palavra de Deus (p. 162), expõe-se a importância da leitura-proclamação da Palavra divina como fundamento do diálogo entre Deus e seu povo e um dos modos da presença de Cristo na liturgia (p. 162-173);
  • b) algumas noções de teologia da assembleia, características desta assembleia e o conceito de participação litúrgica (p. 174-188);
  • c) ao primeiro modo de resposta à Palavra de Deus, o canto e junto dele a música, que não só acompanha, mas que tem, ela sozinha, uma função na celebração (p. 188-201);
  • d) a oração litúrgica como o segundo modo de resposta à Palavra de Deus (p. 202-215);
  • e) a celebração como fenômeno de comunicação humana e de expressão simbólica (p. 216-229);
  • f) o simbolismo litúrgico, o rito e o gesto (p. 230-242);
  • g) o tempo da celebração em geral, do ponto de vista da antropologia, da fenomenologia religiosa e da teologia litúrgica (p. 243-253);
  • h) os lugares e com os objetos da celebração (p. 254-267).

 

Na terceira parte intitulada “Os sinais do mistério” (p. 269-327), tendo-se em conta que num estudo sistemático da liturgia não podem faltar o terma da eucaristia e dos sacramentos, em torno dos quais gira toda a vida litúrgica, Martín discorre sobre o aspecto celebrativo da eucaristia: começa-se pela eucaristia, fonte e ápice de toda a vida cristã, por causa e sua estreitíssima vinculação com o mistério pascal de Jesus Cristo (p. 271-290), sobre os sacramentos: destacando aspectos estritamente litúrgicos, ou seja, aos elementos dinâmicos da celebração dos sacramentos e gral e às linhas básicas dos respectivos rituais (p. 291-314), e os sacramentais: constitutivos relacionados com as pessoas, que estabelecem uma pessoa num ministério ou estado e vida; constitutivos relacionados as coisas, que determinam o destino ou o uso de lugares e coisas; bênçãos invocativas sobre pessoas, sobre lugares, instrumentos do homem, objetos de culto e outros; exorcismos e exéquias (p. 315-327).

 

Na quarta parte, “A santificação do tempo” (p. 329-469), dividido em duas seções, o autor trata do mistério salvífíco na existência dos seres humanos tanto nos tempos determinados que formam o ano litúrgico (Seção I) , como na celebração das horas do Ofício divino (Seção II). Concretamente, destacam-se a natureza, formação e teologia do ano litúrgico bem como a relação entre Palavra de Deus e o ano litúrgico, a eucaristia e o ano litúrgico (p. 331-343). Em seguida, a teologia e a celebração do dia do Senhor (p. 344-355), o Tríduo pascal e à cinquentena (p. 357-370), a quaresma (p. 371-379), o Advento, Natal e Epifania (p. 380-393), o Tempo Comum; as solenidades e festas do Senhor (p. 394-410), a memória da Santíssima Virgem Maria e dos santos (p. 411-427). Na segunda seção, o autor aborda: a história e a teologia do Ofício divino (p. 429-441), as horas do Ofício Divino (p. 442-455), os elementos da Liturgia das Horas (p. 456-469).

 

Na quinta parte, “A vivência do mistério” (p. 471-510), Martín dedica-se aos aspectos vivenciais da liturgia. O primeiro destes aspectos diz respeito às relações entre a liturgia e a e entre a liturgia, a evangelização e a catequese. Unido a este tema está o da liturgia como lugar teológico da e da Igreja (p. 473-484). No entanto, salienta Martín que da mesma maneira que a sagrada liturgia não esgota toda a ação da Igreja, tampouco abarca toda a vida espiritual (p. 486), por esse motivo destacam-se as relações entre a oração pessoal e a participação litúrgica e a situação dos chamados exercícios piedosos do povo cristão (p. 485-496). Estuda-se, ainda, a pastoral litúrgica, dando especial atenção à participação dos fiéis na liturgia (p. 498-507) e o diretório litúrgico, a serviço da finalidade pastoral da liturgia (p. 508-510).

 

Para completar o estudo, o autor oferece um vocabulário litúrgico com a explicação de palavras técnicas que aparecem ao longo do texto (p. 511-552), e, um elenco de obras pós-conciliares de liturgia publicadas originalmente no Brasil (p. 553-572).

 

Recentemente o Papa Francisco através da Carta Apostólica Desiderio Desideravi: sobre a formação litúrgica do Povo de Deus convidou a Igreja para redescobrir, custodiar e viver a verdade e a da celebração cristã. Para isso, o pontífice solicitou que abandonemos as controvérsias para ouvirmos juntos o que o Espírito diz à Igreja, para que guardando a comunhão, continuemos a nos maravilhar com a beleza da Liturgia. Pediu, por isso, que os bispos, sacerdotes e diáconos, formadores de seminários, professores de instituto e escolas de teologia, todos os catequistas, que ajudem o povo santo de Deus a recorrer ao que foi a fonte primária de espiritualidade cristã, redescobrindo a riqueza dos princípios gerais expostos nos primeiros números da Sacrosanctum Concilium, compreendendo o vínculo íntimo entre a primeira das Constituições conciliares e todas as demais. Daí a necessidade de uma séria e vital formação litúrgica, acolhendo a reforma litúrgica nascida da Sacrosanctum Concilium, que expressa a realidade da Liturgia em conexão intima com a visão da Igreja descrita admiravelmente na Lumen Gentium.

 

Neste sentido, A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral “permite formar uma imagem global e harmônica da liturgia, acessível a todos, e abordar uma obra sistemática que exponha as principais questões históricas, teológicas, antropológicas e pastorais da celebração do mistério cristão. Neste sentido, o presente volume pretende reunir, antes de tudo, a contribuição doutrinal do Concílio Vaticano II referente à natureza da liturgia e à sua importância na vida religiosa da Igreja e as grandes linhas da reforma litúrgica pós-conciliar (...) enriquecida pelo Catecismo da Igreja Católica” (p. 22-23).

 

O presente volume certamente oferece formação/informação sistemática e sintética sobre a liturgia e se dirige a todos aqueles que querem participar de modo sempre mais consciente e frutuoso da liturgia redescobrindo, a cada dia, a beleza da verdade da celebração cristã, em sintonia com as palavras de Papa Francisco na Desiderio Desideravi “a redescoberta da beleza da liturgia não é a busca por um esteticismo ritual, que se satisfaz somente no cuidado com a formalidade exterior de um rito ou que e apega a uma observância escrupulosa de rubricas. Obviamente, esta afirmação não pretende aprovar, de forma alguma, a atitude oposta, que confunde simplicidade com banalidade desleixada, ou essencialidade como superficialismo ignorante, ou, ainda, a concretude da ação ritual com um exasperado funcionalismo prático” (n. 22).

 

Referências:

 

MARTÍN, Julián López. A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral. Tradução realizada a partir do original em espanhol feita por Gentil Avelino Titton. Petrópolis: Vozes, 2022, 576 p. ISBN 9786557134207.

 

Leia mais