Nas parábolas, a voz fecunda das mulheres

Foto: Rosie Sun | Unsplash

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14 Setembro 2022

  

Passou como provérbio do filho pródigo, mas seria melhor lembrá-la como a parábola do pai misericordioso. Por toda uma série de motivações teológicas e por uma simples constatação narrativa: no relato de Lucas o pai está tanto presente quanto a mãe está ausente.

 

Omissão misteriosa, a que Maria Grazia Calandrone agora parece querer remediar voltando sua reescrita da parábola inteiramente para o feminino: uma família em lockdown, a casa demasiado pequena, uma das duas filhas colocada em um alojamento temporário, a outra que um pouco aproveita o quarto todo para si e um pouco se pergunta se, afinal, a verdadeira privilegiada não seria aquela que foi embora.

 

Uscire (Sair) um dos dezesseis textos que compõem a parola e i racconti (A palavra e os contos, em tradução livre, Libreria Editrice Vaticana, pág. 242, 17€, disponível a partir de 13 de setembro), antologia-projeto idealizado por Ritanna Armeni, Rita Pinci e Carola Susani. O volume retoma - enriquecendo-o com os desenhos originais de Cinzia.

 

Parola e i Racconti

Foto: Divulgação

 

O comentário é do jornalista italiano Alessandro Zaccuri, publicado por Avvenire, 11-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Leone, aqui autora de uma reinterpretação poética da parábola do fermento - a iniciativa proposta nos últimos meses por 'Donne Chiesa Mondo', o suplemento mensal do Osservatore Romano dedicado justamente à reflexão sobre a contribuição feminina na Igreja e na sociedade. Nessa perspectiva, a ideia de confiar a reinterpretação das parábolas evangélicas a um grupo de narradoras contemporâneas não se esgota na dimensão literária, mas capta com precisão o elemento característico da própria parábola. Que é contado, certamente, e é consequentemente palavra eficaz, capaz de afetar a realidade que a inspira. Mesmo quando as mulheres não figuram como protagonistas, as parábolas são sempre sustentadas por uma concretude material que remete à solicitude, ao cuidado, à percepção afetuosa e materna das relações interpessoais. Não é por acaso, em sua famosa representação da parábola do filho pródigo, que Rembrandt garante que uma das mãos do pai seja de aspecto feminino, como que para argumentar que a mãe, embora invisível, ainda é testemunha e atriz da história.

 

Dezesseis escritoras, portanto, da ítalo-somali Ubah Cristina Ali Farah, que em A Boneca alude à condição de exílio referindo-se à parábola das crianças na praça ("Tocamos flauta e vocês não dançaram, cantamos um lamento e vocês não se entristeceram"), até Mariapia Veladiano, que com seu Mulheres, leve e profunda apologia doméstica sobre o grão de trigo, sela um caminho em que não faltam surpresas e confirmações. Em Et cetera, por exemplo, Antonella Cilento reafirma o sentido da parábola do rico insensato tecendo uma elegia sobre o desapego dos bens materiais, enquanto em Eu sou o joio de Viola Ardone encurta abruptamente a distância com o passado por meio de uma suposta analogia entre ervas daninhas e discurso de ódio.

 

Em alguns casos - como o Enalogo de Camilla Baresani, que se inspira na imagem do vinho novo em odres velhos - a mensagem do Evangelho é quase forçada a abrir caminho num contexto de indiferença e distração, mas da mesma forma pode acontecer que uma expressão evangélica como "a casa na rocha" ressurge naturalmente nos lábios de um personagem, neste caso o 'primo O' protagonista do conto de Igiaba Scego. Dispositivo narrativo perfeito em sua forma direta, a parábola nasce da observação da vida cotidiana e não tem medo de ser reconduzida à atualidade.

 

Eis, então, que, entre os resultados mais felizes de A Palavra e os Contos, destaca-se A plantação de Ravi, de Evelina Santangelo, que transforma o semeador evangélico em um agricultor empenhado em enfrentar a prepotência das multinacionais. Mas também A ocasião de Carola Susani (em cujos livros sempre se reconhece um substrato bíblico consciente) opera uma bem-sucedida inversão de perspectivas, atribuindo o papel de bom samaritano ao personagem mais imprevisível e até mesmo desagradável.

 

A remodelação da parábola pode ocorrer no fio da metáfora (esta é a escolha de Ritanna Armeni em Matilde e o drama, história baseada no ícone da moeda perdida), mas também transformar-se num apólogo do poder da escrita (acontece no O luxo do imprevisto de Tea Ranno, que parte do paradoxo dos trabalhadores da décima hora). O que permanece intacto é a vontade de medir-se com um núcleo de verdade que não se reduz a simplificações, seja a comparação entre virgens sábias e virgens insensatas explorada por Emanuela Canepa em Pequenas Luzes em Parma ou a tensão que sustenta a parábola do banquete de casamento e que Elena Stancanelli deixa explodir em O tigre.

 

Não diversamente, em E venho te procurar Nadia Terranova medita sobre o significado da perda ao retornar aos rastros da ovelha perdida e em A insistência Alessandra Sarchi toma literalmente a parábola do amigo importuno, encenando o que pareceria um conflito, embora mínimo, é, em vez disso, um hino à tenacidade e à iniciativa das mulheres.

 

Diferentes soluções, animadas pelo mesmo reconhecimento de quanto seja inesgotável e fecunda a voz das parábolas. Também por isso o valor de um livro como A Palavra e os Contos não se esgota com sua publicação e continua a repercutir em uma série de encontros e debates. Entre os primeiros encontros programados, a conversa sobre o filho pródigo intitulada 'Perder-se para se encontrar', que na sexta-feira, 16 de setembro, verá Maria Grazia Calandrone e Dom Luigi Epicoco se confrontarem no âmbito da exposição 'Muitas religiões sob o mesmo céu' (Bérgamo, Igreja dos Santos Bartolomeu e Estevão, 20h45). Um segundo evento está programado para sábado, 24 de setembro, em Bolonha (piazza Maggiore, 15h30), dentro do Festival Franciscano: para dialogar sobre 'Confiança, substantivo feminino' estarão Mariapia Veladiano, Milena Gabanelli e Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a comunicação da Santa Sé.

 

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