''Bravo, Francisco, a velha doutrina deve ser abolida com graça e coragem''. Artigo de Ritanna Armeni

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12 Março 2014

Seguramente, há menos tradição na proposta de Kasper, mas muita doutrina. Talvez mais do que a contida em tanta tradição.

A opinião é da jornalista italiana Ritanna Armeni, ex-redatora-chefe da revista feminista Noi Donne, em artigo publicado no jornal Il Foglio, 04-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os opositores (ocultos, mas muito enraivecidos) do Papa Francisco, neste ano de pontificado, opuseram, a quem, crente ou laico, mostrava um certo entusiasmo com relação ao pontífice, a seguinte previsão: "Francisco é, aparentemente, um inovador, mas é tudo uma questão de imagem. Quando se chegar à substância dos problemas, ele permanecerá dentro da doutrina, será mais tradicionalista e conservador do que muitos. Ele – acrescentavam, com uma piscadela – é um jesuíta".

Acredito que esses opositores podem registrar uma decepção. Na primeira prova oficial do seu pontificado, o próximo Sínodo sobre a família, Francisco confirmou a si mesmo. A recente homilia em Santa Marta e, sobretudo, a longa e interessante conferência com a qual o cardeal Walter Kasper abriu os trabalhos do consistório sobre a família confirmam que a Igreja muda, se renova, busca outros caminhos para começar justamente a partir da mais espinhosa das questões, a que, nas últimas décadas, registrou a crise mais profunda.

Se alguém me perguntasse o que, em síntese, o cardeal Kasper disse e propôs sobre a família, eu diria, acima de tudo, que a Igreja assumiu toda a importância, a gravidade e a profundidade da crise da instituição familiar e decidiu buscar uma solução.

Começando pela controversa questão dos matrimônios que acabam e da relação dos cônjuges que se separam com os sacramentos. Só essa já é uma importante novidade. Até agora, na Igreja, se protestou muito, mas pouco mais do que isso.

Depois, há a solução que Kasper começa a traçar. E aqui a novidade é ainda mais substancial. Os matrimônios fracassam, mesmo aqueles contraídos pelos crentes. Também aquilo que Deus uniu pode receber um golpe mortal. Além disso, Adão e Eva não estavam unidos no paraíso terrestre e, depois do seu pecado, tudo desmoronou, a sua união, o paraíso, o amor fraterno e muito mais ainda? Foi preciso a presença, a proposta de amor e o sacrifício de Jesus para retomar o caminho.

Das palavras de Kasper, entende-se que a Igreja, diante da dissolução e da crise da família, quer recomeçar mais uma vez a partir de Jesus e do Evangelho, da misericórdia e do amor, da doutrina, portanto, mas não da tradição. O caminho se distancia do seguido.

Até agora, o matrimônio era indissolúvel e só podiam dissolvê-lo os tribunais eclesiásticos. Pensando bem, uma solução muito secularizada que imitava os processos e as práticas de divórcio laico. É proposta uma "pastoral", que se fundamenta na misericórdia e na penitência. A Igreja não deixa sozinho quem fracassou e pecou, nem o absolve tranquilamente, burocraticamente. E nem o condena sem possibilidades de apelo.

O perdão é sempre possível, diz Kasper; se é para o assassino, também é para o adúltero. Mas quem dispensa esse perdão? Obviamente, a Igreja, como prometido por Francisco, mas a Igreja que é próxima do arrependido, ao fiel, ao pecador, e pode guiar os seus atos, entender o seu ânimo e conduzi-lo pela mão em um caminho de penitência.

Entendo que quem vê a autoridade da Igreja como absoluta e gerida de cima tem um sobressalto. Acredito que muitos, ao contrário, serão consolados. A Igreja indica um percurso e dá confiança ao homem e à mulher, aos crentes e aos sacerdotes, para que estes construam juntos um caminho. E dá uma extraordinária prova de realismo.

Homens e mulheres que, como separados ou divorciados, são afastados da Igreja são ovelhas perdidas para sempre, e os seus filhos com eles. A comunidade assim reduzida será realmente mais pura, menos pecadora ou só mais pobre de humanidade?

Seguramente, há menos tradição na proposta de Kasper, mas muita doutrina. Talvez mais do que a contida em tanta tradição.