18 Mai 2026
Em meio às transformações aceleradas do século XXI, a democracia liberal encontra-se atravessada por uma crise que ultrapassa a instabilidade institucional e alcança as próprias formas de experiência política contemporânea. O enfraquecimento do espaço público, a disseminação de racionalidades tecnocráticas, a fragmentação da vida comum e a crescente incapacidade de sustentar práticas coletivas de deliberação revelam não apenas um desgaste dos sistemas democráticos, mas uma mutação profunda na maneira como os indivíduos se relacionam com a política. Nesse cenário, torna-se cada vez mais urgente retomar autores capazes de pensar a crise não apenas como colapso das instituições, mas como sintoma de um esvaziamento mais radical da ação, do julgamento e da responsabilidade compartilhada. É precisamente nesse horizonte que o pensamento de Hannah Arendt adquire renovada centralidade, oferecendo instrumentos decisivos para compreender os impasses contemporâneos da democracia e os riscos produzidos pela dissolução do mundo comum.
Mais do que elaborar uma teoria normativa da democracia, Arendt desenvolveu uma reflexão profundamente preocupada com as condições existenciais da vida política. Sua obra emerge da experiência histórica das catástrofes do século XX, especialmente o totalitarismo, os deslocamentos forçados, o colapso das tradições políticas europeias e a burocratização crescente das sociedades modernas, para interrogar aquilo que permite aos seres humanos aparecerem uns diante dos outros como sujeitos livres e plurais. Ao deslocar a política do campo exclusivo das instituições para o terreno da ação compartilhada, da palavra e do julgamento, Arendt recoloca em questão os próprios fundamentos da modernidade política ocidental. Sua crítica não se dirige apenas aos regimes autoritários, mas também às democracias liberais incapazes de preservar espaços efetivos de participação e pensamento crítico.
A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
Repensar a democracia liberal a partir de Hannah Arendt significa deslocar o debate político para além das categorias institucionais tradicionais do liberalismo moderno e recolocar no centro da experiência democrática aquilo que a filósofa compreendia como a própria condição da política: a pluralidade humana. Em um tempo marcado pela erosão do espaço público, pela intensificação das formas de autoritarismo difuso, pela ascensão de nacionalismos excludentes e pela transformação da política em espetáculo midiático e gestão técnica da vida, a reflexão arendtiana reaparece como uma das mais vigorosas tentativas de recuperar o sentido originário da ação política. É precisamente nesse horizonte que a conferência "Repensar a democracia liberal a partir de Arendt", ministrada pela Profa. Dra. Beatriz Porcel, docente e pesquisadora na Universidad Nacional de Rosario, na Argentina, insere-se no contexto do Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
A democracia liberal contemporânea, fundada historicamente sobre os princípios de representação, direitos individuais e soberania constitucional, enfrenta hoje um paradoxo profundo: ao mesmo tempo em que preserva formalmente suas instituições, parece perder progressivamente sua substância política. Para Arendt, a crise das democracias não pode ser compreendida apenas como uma crise jurídica ou administrativa, mas sobretudo como uma crise do mundo comum, isto é, da capacidade dos indivíduos de aparecerem uns diante dos outros como sujeitos políticos capazes de fala, julgamento e ação compartilhada. A redução da política à administração econômica, à tecnocracia governamental ou à mera gestão de interesses privados produz aquilo que Arendt identificava como desertificação do espaço público: um cenário em que os cidadãos deixam de agir politicamente e passam a comportar-se apenas como consumidores, espectadores ou massas atomizadas.

Nesse sentido, a crítica arendtiana da modernidade política não constitui uma rejeição simplista da democracia, mas uma tentativa radical de resgatar aquilo que o liberalismo frequentemente marginalizou: a experiência efetiva da participação política. Em obras como A condição humana e Sobre a revolução, Arendt sustenta que a liberdade não pode ser reduzida à proteção negativa contra a interferência do Estado, como frequentemente ocorre na tradição liberal clássica. A liberdade, em sua compreensão, realiza-se positivamente na ação compartilhada, no encontro entre diferentes, no exercício da palavra e na criação de um espaço público onde os indivíduos possam iniciar algo novo. A política não nasce do consenso absoluto, mas da convivência conflitiva entre singularidades plurais.
A crítica arendtiana à modernidade política aprofunda-se igualmente na análise da vitória histórica daquilo que ela denomina "a questão social" sobre o espaço propriamente político. Em sua interpretação, a modernidade deslocou progressivamente o centro da vida pública para as exigências da produção, do consumo e da administração das necessidades biológicas da população. A política, que entre os gregos estava vinculada ao exercício da liberdade e da deliberação entre cidadãos, converte-se então em gestão da sobrevivência coletiva. Esse deslocamento produz uma transformação decisiva: os indivíduos deixam de aparecer como agentes singulares capazes de inaugurar novos começos e passam a ser compreendidos prioritariamente como membros de uma massa social regulada por processos econômicos, estatísticos e burocráticos. Arendt identifica nesse movimento uma das raízes profundas da expansão contemporânea das formas biopolíticas de governo, nas quais a administração da vida substitui a experiência da ação política.
Além disso, Arendt percebe que a modernidade política produziu uma ruptura profunda entre pensamento e ação, favorecendo o surgimento de sociedades incapazes de elaborar criticamente suas próprias catástrofes. Sua preocupação central não se limita aos regimes explicitamente totalitários, mas alcança as estruturas ordinárias das democracias modernas, especialmente quando estas passam a funcionar segundo automatismos técnicos e lógicas impessoais. O predomínio da burocracia, entendida como "o governo de ninguém", constitui um dos sintomas mais agudos dessa crise, pois instaura formas de poder em que decisões políticas aparecem como meras exigências técnicas inevitáveis. Contra essa despolitização da existência, Arendt insiste na necessidade de recuperar o exercício do julgamento, entendido não como aplicação mecânica de normas universais, mas como faculdade de pensar a partir da pluralidade do mundo e da presença dos outros.
Apatia, conformidade burocrática e incapacidade de pensar
Essa perspectiva torna-se particularmente relevante diante das atuais democracias liberais atravessadas por fenômenos como polarização extrema, desinformação digital, colapso do debate público e crescimento de lideranças autoritárias legitimadas eleitoralmente. Arendt percebeu precocemente que regimes formalmente democráticos poderiam produzir subjetividades incapazes de julgamento crítico. O perigo não reside apenas no totalitarismo clássico, mas na normalização da apatia, da conformidade burocrática e da incapacidade de pensar. Sua famosa e muitas vezes mal compreendida formulação acerca da banalidade do mal emerge precisamente dessa constatação: a violência política moderna frequentemente não é executada por monstros excepcionais, mas por indivíduos incapazes de reflexão ética e julgamento autônomo.
Para Arendt, uma das características mais inquietantes das sociedades modernas consiste precisamente na produção de indivíduos progressivamente afastados da experiência do pensamento como atividade viva e crítica. Em sua compreensão, pensar não equivale à mera acumulação de informações nem ao domínio técnico de competências intelectuais; trata-se, antes, da capacidade de interromper fluxos automáticos de comportamento e estabelecer um diálogo silencioso consigo mesmo acerca do sentido das ações praticadas. Quando as sociedades passam a privilegiar exclusivamente desempenho, adaptação funcional e obediência às engrenagens institucionais, o pensamento perde sua dimensão ética e política, tornando-se subordinado à utilidade e à eficiência. É nesse contexto que a apatia deixa de ser uma simples atitude individual e assume a forma de uma disposição coletiva historicamente produzida.
Essa dinâmica encontra sua expressão mais acabada na conformidade burocrática, fenômeno que Arendt interpreta como uma mutação profunda da responsabilidade política moderna. A burocracia não opera apenas como estrutura organizacional do Estado, mas como racionalidade que fragmenta a ação humana em funções parciais, diluindo a responsabilidade individual no interior de procedimentos aparentemente neutros. Surge então uma forma de obediência sem convicção, sustentada não pela adesão apaixonada a ideologias, mas pela abdicação do juízo pessoal em favor de regras abstratas e cadeias administrativas. A incapacidade de pensar manifesta-se, assim, como incapacidade de julgar e de imaginar a perspectiva do outro, abrindo espaço para formas de violência política que se realizam precisamente sob a aparência de normalidade institucional.
Repensar a democracia liberal a partir de Arendt implica, portanto, interrogar os próprios fundamentos da representação política contemporânea. Para a filósofa, a crise das democracias modernas relaciona-se diretamente à separação crescente entre governantes e governados, bem como à transformação da cidadania em experiência passiva. Em oposição a isso, Arendt valorizava formas políticas baseadas na participação direta, nos conselhos revolucionários e na construção horizontal do poder. Seu conceito de poder distancia-se radicalmente da ideia de dominação: poder não é coerção nem monopólio estatal da violência, mas a capacidade coletiva que emerge quando os indivíduos agem em comum. Onde desaparece a ação compartilhada, desaparece também o poder político genuíno, restando apenas administração, força ou violência.
A atualidade dessa reflexão torna-se ainda mais evidente quando observamos o esvaziamento contemporâneo das instituições democráticas. Em muitas sociedades, o espaço público encontra-se capturado por dinâmicas algorítmicas, pela lógica da performance permanente e pela transformação da política em consumo afetivo de identidades ideológicas. A esfera pública, em vez de constituir um lugar de deliberação e pluralidade, converte-se frequentemente em ambiente de hostilidade contínua, incapaz de sustentar um mundo comum. Arendt compreendia que a política exige não apenas opinião, mas responsabilidade pelo mundo compartilhado. Sem essa dimensão de cuidado com o mundo — aquilo que ela chamava de amor mundi — a democracia torna-se vulnerável tanto ao cinismo quanto às tentações autoritárias.
A reflexão desenvolvida por Beatriz Porcel pretende dialogar com essa tensão decisiva entre democracia formal e experiência política efetiva. Em seus estudos sobre Arendt, Porcel destaca precisamente o conceito de crise como chave hermenêutica para compreender a modernidade política contemporânea. Em Arendt, a crise não deve ser vista apenas como colapso ou decadência, mas também como interrupção capaz de abrir novos horizontes de pensamento e ação. A crise rompe automatismos, expõe fragilidades estruturais e obriga os sujeitos políticos a confrontarem novamente questões fundamentais: o que significa agir em comum? O que sustenta um mundo compartilhado? Como preservar a pluralidade sem dissolver o espaço político em violência?
Assim, repensar a democracia liberal a partir de Arendt não significa defender um retorno nostálgico às formas políticas do passado, mas reconhecer que nenhuma democracia sobrevive apenas pela estabilidade de suas instituições. Democracias dependem da vitalidade do espaço público, da coragem de agir politicamente e da disposição dos indivíduos para assumirem responsabilidade pelo mundo comum. Em tempos marcados pela disseminação do medo, pela precarização da experiência coletiva e pelo avanço de racionalidades políticas autoritárias, Arendt continua oferecendo um vocabulário decisivo para compreender tanto os perigos quanto as possibilidades abertas ao século XXI.
Anote e participe!
Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI. Repensar a democracia liberal a partir de Arendt
📍 Profa. Dra. Beatriz Porcel – Universidad Nacional de Rosario – Argentina
⏰ 20/05 | 10h às 11h30min
🎥 Transmissão ao vivo
YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=alx3m4aQKDI
Facebook: https://www.facebook.com/InstitutoHumanitasUnisinos/events
📌 A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem se inscrever e, no dia do evento, assinar a presença por meio do formulário disponibilizado durante a transmissão.
📌 O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.
Inscrições e mais informações: https://www.ihu.unisinos.br/evento/hannah-arendt
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