Drones como armas letais de guerra e o extermínio dos inocentes. Entrevista especial com Alcides Peron

“Como condição e consequência, os drones podem matar civis e muitas vezes é o que acaba acontecendo tanto na Ucrânia quanto em Gaza, na Rússia e em outros lugares”, afirma o pesquisador

Foto: Wikimedia Commons | Bahareh Asadi

Por: Luana de Oliveira | 26 Junho 2026

O uso de drones como armas de campo em batalha nas guerras tem sido constantemente reduzido a um jogo, onde ganha quem mata mais adversários. A política de morte, muitas vezes utilizada com a ajuda da IA, cria o cenário de uma crise humanitária generalizada, em que civis são os que mais morrem no meio de batalhas desiguais.

De acordo com o Unicef, somente em Gaza, onde Israel tem usado drones guiados pela inteligência artificial Lavender, foram mortas 265 crianças palestinas, mesmo após o cessar fogo divulgado em outubro de 2025.

Em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, o pesquisador Alcides Peron afirma que “o drone provoca muito mais destruição do que muitas vezes o ataque feito inicialmente que levou e obrigou as potências a utilizarem-no. Existe uma discrepância, pois muitas vezes não é um armamento proporcional, tendo uma carga destrutiva muito maior”.

A partir de suas pesquisas, Peron comenta que “matar se tornou uma rotina compartimentalizada na cabeça dos operadores de drones a tal ponto que matar não é um grande dilema para esses soldados”. Nesse percurso, mediante a banalização da morte, o escritor avalia que a batalha travada com o uso de drones “não é uma guerra, é qualquer coisa, onde aqueles que promovem o conflito não estão nenhum pouco em risco, mas aqueles que estão em risco, muitas vezes acabam sendo os que não se inscreveram para morrer”.

Alcides Peron (Foto: arquivo pessoal)

Alcides Peron é graduado em Relações Internacionais, em Ciências Econômicas pela Faculdade de Campinas (Facamp). Também é mestre e doutor em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi pesquisador visitante do Departamento de Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia da Lancaster University (Inglaterra), e pesquisador visitante do Departamento de Estudos Bélicos da King’s College London. Realizou pós-doutorado na Fapesp no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).

Confia a entrevista. 

IHU – Como funcionam os drones em meio às guerras e o que o uso de drones em contextos bélicos significa do ponto de vista de uma nova escalada militar e de violência entre as nações?

Alcides Peron – O uso de drones nos ambientes de conflito são múltiplos, não servem apenas para fazer bombardeio. Existe um tipo de drone que é intitulado como plataforma de vigilância ou plataforma de armas. Enquanto plataforma de vigilância, ele é um drone de recolhimento de dados, que também tem uma estratégia tremenda no campo de batalha. E, o que significa recolher esses dados? Significa dados de visualização, sinais de celulares que são coletados, são formas de captação remota de sistemas de celulares, de redes e uma série de outros dados. Essa tecnologia se fundamenta como uma forma de vigilância.

Num outro caso, o drone é chamado de plataforma de armas — que é quando entrega além desses sistemas de vigilância também sistemas de armas, como mísseis ou drones que se tornam uma arma suicida por assim dizer, ou um drone kamikaze como alguns dizem.

Mas, o que esses drones trazem de diferente para a guerra? O grande artifício por trás dos drones é o fato de você poder levar o conflito para determinadas zonas remotas ou, acima de tudo, poder levar o conflito para zonas de extremo risco e de extrema dificuldade sem que os seus combatentes sejam afetados de alguma forma pelo risco de morte. O que começa acontecer aqui nesse caso é justamente o modo que se viabiliza o conflito sem que haja nenhuma forma de resistência. Todos os conflitos têm resistências que são marcadas pelo cansaço do combatente, pela exaustão de recursos, que são marcadas por uma série de informações e tensões que fazem com que produzam aquilo que grandes autores como Carl von Clausewitz chamam de fricção de guerra.

Essas fricções acabam contribuindo para o término do conflito, tanto no campo de batalha, por meio do cansaço e da baixa moral dos combatentes quanto no próprio país, isto é, junto à população que, exausta pela guerra, deixa de apoiar a atuação do Estado no conflito. Como consequência, passam a surgir políticas, manifestações e práticas pacifistas, enquanto a oposição à guerra se fortalece e os recursos destinados à guerra começam a ser reduzidos.

A partir do momento que o Estado começa a empregar drones, os seus combatentes não estão morrendo no campo de batalha. Portanto, além de conseguir levar o conflito para uma determinada zona altamente complexa e de alto risco, as forças militares vão matar sem que haja os seus sendo colocados em risco. Esse é um dado e uma informação extremamente relevante porque a partir disso se consegue erigir um conflito sem que os seus morram no campo de batalha. Com isso, há a redução da fricção, tornando o conflito permanente. Ou seja, o fato pode produzir formas de prolongamento do conflito. Veja o caso da Ucrânia e da Rússia: o uso extensivo de drones faz com que o conflito seja levado a extremos, não tem um cessar-fogo porque não há riscos de morte dos operadores de drone. Então, porque você vai cessar-fogo sendo que o drone está cumprindo a missão dele e os seus não estão em risco? Isso tende a prolongar o conflito, sem falar também no fato de que os drones são extremamente baratos. São muito mais baratos do que uma aeronave de caça, sendo capazes de produzir efeitos extremamente danosos, tanto quanto uma aeronave de caça, mas sem colocar o corpo de ninguém em risco e com um custo extremamente baixo.

IHU – O uso de drones autônomos guiados por inteligência artificial em ataques de Israel contra Gaza altera a forma como se atribui responsabilidade por possíveis violações do direito internacional? Diante desse cenário, até que ponto os outros países continuarão fechando os olhos para a violência que acontece na Palestina, mesmo após o "cessar-fogo"?

Alcides Peron – No caso de Israel contra Gaza, vemos uma operação com sistemas de drones munidos e guiados por inteligência artificial. Mas, nesse caso, não estão necessariamente incorporados nos drones. São grandes cadeias de sistema que vão compor um conjunto, um leque bastante grande de sistemas de coletas de dados, processamento de dados que visam reduzir o tempo de decisão para realizar um determinado ataque. Por exemplo, o sistema Lavender. O Lavender coleta dados de agentes de inteligência em terra, sistemas de satélites, de drones e vários outros sistemas informacionais que vão autorizar o uso de drones que podem autorizar um determinado ataque em uma determinada região.

Os drones em si não são completamente autônomos. O sistema vai coletar esses dados e fazer aquilo que chamamos de leitura preditiva, ou seja, acaba sugerindo determinados alvos, para determinados ataques, realizando esses ataques nessas regiões operadas por combatentes. Tudo isso, sem que haja uma confirmação de que os alvos são de fato inimigos, é tudo baseado numa suspeita ordenada e caracterizada pelo sistema de coleta massivo de dados criado por inteligência artificial. Esses sistemas vão fazer essa sugestão de ataque. Geralmente, percebemos que o globo de maneira geral está de olho no que está acontecendo em Gaza e em toda essa violência, no entanto, em vários outros aspectos não se reflete sobre a forma que se produz essa destruição de maneira escalonada através dos drones.

Isso não é discutido. Comenta-se, de maneira bastante evidente e racional, o escalonamento da violência. Nesse contexto, é importante destacar que muitas dessas formas de violência são viabilizadas por sistemas técnicos altamente sofisticados que, em primeiro lugar, reduzem o tempo de reflexão envolvido na decisão de realizar um ataque e, em segundo lugar, operam com suposições na identificação de alvos a serem eliminados. É justamente nesse processo que reside uma enorme tirania. Nessa suposição e ilação feita por sistemas preditivos de que os alvos são verdadeiramente inimigos e precisam ser eliminados, pode-se acabar matando pessoas inocentes e com isso aumenta novamente a letalidade do sistema e o risco dessas ferramentas em ambientes de conflitos se torna cada vez mais evidente.

IHU – Como essas tecnologias para auxiliar em guerras têm anulado direitos humanos não somente em Gaza, mas também na própria Ucrânia e no Líbano?

Alcides Peron – Em grande medida, o uso de drones deve observar alguns princípios do direito humanitário internacional. E, muitas vezes — concluo isso no meu livro American Way of War: "guerra cirúrgica" e o emprego de drones armados em conflitos internacionais — os drones em si não conseguem pelo próprio design respeitar esses ditames do direito humanitário internacional.

O que isso significa? Todo armamento integrado em um determinado conflito deve respeitar o critério de necessidade, proporcionalidade e de distinguibilidade ou de discriminação que seria o melhor termo. Os armamentos empregados devem ser necessários, ou seja, ele é muito necessário para cumprir aquele determinado objetivo ou é de uma certa maneira empregado com outros fins. Ou seja, tem que ter um fim muito claro no seu uso, acima de tudo o objetivo deve ser necessário como o de, por exemplo, não haver outros meios para atingir esses objetivos e tenha apenas essa ferramenta. Se justificar que sim, o uso é um aparato necessário.

No critério de proporcionalidade, a ferramenta utilizada para perseguir determinado objetivo deve ser proporcional no sentido de atender os objetivos, não cedendo muito, e, acima de tudo, não deve produzir um efeito de profunda simetria nas relações de poder no campo de batalha. Isso significa que os drones devem ser necessários, proporcionais, porém não são. Por quê? O drone provoca muito mais destruição do que muitas vezes o ataque feito inicialmente que levou e obrigou as potências a utilizarem-no. Existe uma discrepância, pois muitas vezes não é um armamento proporcional, tendo uma carga destrutiva muito maior.

Por fim, o critério de discriminação — esse é um critério que evolui de muitas décadas, desde o início do século XX, por exemplo. O armamento deve ser capaz de distinguir o que é combatente e o que não é combatente, entre o que é inimigo e o que são forças amigas. Isso significa dizer que esses aparatos precisam de alguma forma ter limites na sua capacidade destrutiva.

Pense, por exemplo, no gás mostarda que não reconhece o que é amigo ou inimigo, não tendo fronteiras nem limites, simplesmente avança e produz destruição. Agora, quando levamos em consideração os drones e o próprio pressuposto de que a máquina é capaz de discriminar, sendo incapaz de identificar quem é amigo ou inimigo, vemos que há um ataque de certa maneira letal. O que acabamos tendo é uma suposição de que o drone consegue fazer essa distinção e não necessariamente ele consegue porque, muitas vezes, temos um sistema de câmera de visualização, de vigilância, mas ele não é tão preciso assim.

Existe todo um conjunto de valores, perspectivas e dimensões políticas que recortam e organizam o lugar do combatente, daquele que vai apertar o botão para matar no drone. Os drones por design não conseguem respeitar todos esses aparatos e isso tudo faz com que ele seja um armamento que, por muitas vezes, pode produzir danos muito além do necessário.

Como condição e consequência, os drones podem matar civis e muitas vezes é o que acaba acontecendo tanto na Ucrânia quanto em Gaza, na Rússia e em outros lugares. Drones, principalmente na era Obama, por exemplo, mataram muito mais civis do que combatentes inimigos, até porque a categoria combatente é muito turva. Durante a era Bush também aconteceu o mesmo. Então, temos usos sequenciais de uma ferramenta que por mais que não seja proporcional nem necessária, tenta-se justificar num ambiente onde tais máquinas são cirúrgicas e podem operar naquele nível de risco que mencionei. Por exemplo, muitos ataques e muitas guerras não foram erigidos em certas localidades porque se sabia que aquilo provocaria uma destruição tremenda em determinados espaços. Agora, o drone traz essa possibilidade de operar em espaços de risco, onde você tem uma mudança de civis, sobre a justificativa de que você consegue eliminar o inimigo no meio de um monte de civis. E, na verdade, o que se acaba fazendo é colocando todos eles em risco — que é o que tem acontecido na Ucrânia e em vários outros lugares.

IHU – Como os Estados se apropriam dessas tecnologias para orquestrar políticas de morte e matança?

Alcides Peron – Justamente porque o modelo de guerra foi se alterando ao longo do tempo. Existe ainda a imagem da guerra como sendo uma guerra campal entre duas forças armadas até os dentes, uniformizadas disputando o poder e se enfrentando entre si. Mas, na verdade, a guerra foi passando por uma série de mudanças. Há grandes marcos de mudanças nos conflitos. Hoje, o que podemos dizer é que muitas vezes o que entendemos como guerra e visualizamos enquanto guerra são conjuntos de operações, de táticas que vão de táticas de guerrilha a táticas de insurgência, de contrainsurgência, onde o drone é muito importante nesses espaços.

Por quê? Os Estados perceberam que numa crise da ordem neoliberal que já começava a se construir na década de setenta, numa crise da instabilidade econômica e social global, isso provocaria uma série de efeitos políticos e que manter a ordem demandaria consequentemente eleger conflitos pontuais para sustentar essa ordem. Agora, como conduzir conflitos pontuais sem que você tenha que fazer guerra necessariamente? O drone supre essa necessidade sendo um aparato barato, uma ferramenta que supostamente destrói inimigos e não civis, é um aparato enxuto e fornece esse argumento acima de tudo.

Reforça uma visão de "poder fazer a guerra sem fazer guerra", de poder eliminar, sem ser eliminado, sem colocar os seus em risco. E, portanto, não é uma guerra, é qualquer coisa, onde aqueles que promovem o conflito não estão nenhum pouco em risco, mas aqueles que estão em risco, muitas vezes acabam sendo os que não se inscreveram para morrer, os civis. O sistema permite que a ferramenta seja operada com alta densidade populacional "supostamente sem risco". Tudo isso traz uma série de dilemas para a sociedade. Então, os Estados usam drones justamente porque esse aparato tem essa enorme capacidade de permitir que o conflito seja feito sem que haja necessariamente um conflito sendo mobilizado de maneira determinante e efusiva.

IHU – Quais impactos essa tecnologia gera nos soldados que utilizam esses drones para matar?

Alcides Peron – Há um grande argumento que se desenvolveu principalmente na bibliografia anglo-saxônica: a ideia de que os drones provocam nos sujeitos, nos indivíduos que os operam uma condição de engajamento muito profunda com seus alvos. Porque, ainda que um sujeito esteja remotamente longe, ele está na tela perto do sujeito e está vendo a morte acontecer.

Só que tenho rejeitado esse argumento, principalmente ao considerar relatórios médicos feitos na época que apontam para o seguinte: na verdade, o operador de drone não sente uma tristeza imensa em eliminar o outro ou estresse pós-traumático. Os estresses, as tensões, tudo advém de outras formas de tensão. Operadores de drone, pelo menos na época que eu fiz o estudo, vi que estão muito mais estressados com um companheiro de trabalho, com o salário, com uma série de outras coisas e muito menos preocupados com aqueles que matam.

Na verdade, matar se tornou uma rotina compartimentalizada na cabeça dos operadores de drones a tal ponto que matar não é um grande dilema para esses soldados. Isso faz coro com aquilo que havia dito anteriormente sobre a fricção de guerra. Se reduz a fricção de guerra. A moral do combatente é inalterada por quê? Porque a pessoa não está pensando que está num conflito, mas sim em uma atividade cotidiana e regular.

Então, a operação de drone é reduzida a uma função de cubículo por assim dizer, de escritório. Isso é um elemento bastante interessante, pois nos permite perceber a guerra como consequência. Assim como o indivíduo não se conecta moralmente ao conflito, a guerra também se torna algo passível de ser evocada, sem que a sociedade e os outros percebam. O uso de drones favorece justamente essa dimensão de um estado de guerra permanente, onde não necessariamente as condições tradicionais de guerra vão se manifestar, a tensão social etc. A guerra se torna algo facilmente evocável e, se levarmos em consideração que o operador de drone, a sociedade, todos acabam não sendo afetados pelo nível de destruição que ele causa, então esse armamento tem uma função estratégica interessantíssima que é fazer a guerra parecer cotidiana.

IHU – Esses drones podem ser considerados tão letais quanto as bombas nucleares?

Alcides Peron – Em primeiro lugar, é importante verificar que os drones não são tão destrutivos como um armamento nuclear. Sabemos da capacidade destrutiva de um aparato nuclear e da ampla letalidade deles. Então, é incomparável, até porque um drone não tem um poder de dissuasão que tem um armamento nuclear. Armamentos nucleares pela sua própria existência produzem um efeito de inação no outro, no adversário.

Se tenho uma arma nuclear, o outro nem sequer se mobiliza porque sabe que os danos serão muito maiores do que a inação. É preferível não agir do que ser lesionado com um ataque nuclear que é de total aniquilação. Portanto, temos aí uma diferença. O drone não é um armamento de dissuasão, mas sim um armamento tático de guerra, de conflitos, de operações especiais, sendo uma ferramenta bastante poderosa para eliminação de certos adversários. Mas não é um armamento de ordem nuclear, não se caracteriza como um armamento desse porte.

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