Na França, Leão desafia novamente Trump: "Não aos poderosos arrogantes"

Foto: Vatican Media

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29 Setembro 2026

Na França, o Pontífice reitera seus apelos ao multilateralismo e ao diálogo. Uma referência ao banimento da CNN pela Casa Branca: "Aqui os repórteres são bem-vindos".

A reportagem é de Francesco Peloso, publicado por Domani, 26-09-2026.

No primeiro dia de sua viagem à França, Leão XIV recebeu uma recepção calorosa, ao percorrer as ruas de Paris à tarde para o encontro com o clero francês na Catedral de Notre-Dame, foi saudado por multidões que ladeavam o trajeto.

O dia começou com um encontro com o presidente Emmanuel Macron, que o recebeu primeiro no Aeroporto de Orly e, mais tarde, no Palácio do Eliseu. Foi lá que o Pontífice proferiu seu primeiro discurso ao corpo diplomático e às autoridades civis. Vale ressaltar que o tom geral dos discursos proferidos por Prevost na França, no primeiro dia de sua visita, abordou diversos temas centrais de seu pontificado.

Dignidade humana

Uma rejeição firme à guerra, um apelo ao multilateralismo como ferramenta essencial para a resolução de conflitos e atenção à justiça, à liberdade e ao respeito pela dignidade humana. Em seguida, abordou a relação entre tecnologia, ciência e desenvolvimento da pessoa, tratando várias questões éticas e os desafios impostos pela inteligência artificial. Em seu primeiro discurso, portanto, o Papa tratou de diversos assuntos importantes: "Hoje, existe a tentação de esperar que a ciência forneça uma solução e um conforto para todos os nossos sofrimentos... Às vezes, constato com preocupação os atuais desvios da sociedade que correm o risco de distorcer a ciência e a tecnologia, transformando-as em empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, a compra e venda de órgãos ou a oferta de uma morte programada".

Pouco depois, ao falar sobre o envolvimento da França no Oriente Médio, o Papa afirmou: "Como podemos falar dessa região do mundo, onde o Príncipe da Paz nasceu há dois mil anos, sem pensar também em todas as populações afetadas pelas consequências do conflito e em todos aqueles que sofrem com o flagelo da guerra? Não podemos permanecer indiferentes diante de tais sofrimentos, que ferem a dignidade humana e clamam a Deus por justiça. A gravidade dessas situações deve nos questionar e chamar cada um, onde quer que esteja, a uma verdadeira conversão do coração e a uma mudança de atitude."

Prevost condenou também, com firmeza, a corrida armamentista, a começar pelas armas nucleares, e afirmou: "Na realidade, a paz não é um equilíbrio de forças, mas é construída, dia após dia, por meio do diálogo e da justiça."

O Pontífice incentivou, em seguida, os representantes da diplomacia internacional a nunca se resignarem "à perspectiva da guerra, considerando-a como inevitável, mas a promoverem incansavelmente o diálogo e a diplomacia, a fim de preservar sociedades pacíficas que respeitem a dignidade e os direitos das pessoas e dos povos. Diante dos rumores de guerra e das crises multiformes que abalam o nosso mundo, a França tem a vocação de continuar sendo uma incansável artífice da paz e do multilateralismo, particularmente dentro da nossa cara Europa."

Em seguida, o Papa visitou a sede da UNESCO, onde proferiu um discurso importante, aprofundando algumas das temáticas centrais de sua visita à França. Vale lembrar que Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos da UNESCO ainda em 2026. O órgão das Nações Unidas é visto como politicamente problemático e considerado defensor de "um roteiro ideológico e globalista para o desenvolvimento internacional que contradiz nossa política externa que prioriza os interesses nacionais", segundo a Casa Branca. Entre as questões que desagradaram à administração republicana, o reconhecimento do Estado da Palestina pela agência da ONU. Um primeiro "duelo" com o presidente estadunidense já havia ocorrido durante o voo de Roma para Paris, quando, ao cumprimentar os jornalistas a bordo, o Papa dirigiu-se ao correspondente da CNN no Vaticano, um veículo de imprensa "vetado" pela Casa Branca, dizendo: "Fico feliz que estejam todos aqui, sejam bem-vindos. Uma boa cobertura midiática é importante em toda parte e para todos." Outro momento do dia do Pontífice na França também foi considerado por alguns como uma referência a Trump, especificamente quando Prevost falou sobre "poderosos arrogantes".

"A liberdade é bela quando voltada para o bem e para a verdade", enfatizou o Pontífice na ocasião, "é deturpada quando descamba para o arbítrio, a violência e a sede de poder. Ser homens, portanto, implica uma responsabilidade diante do chamado da história: o ser humano é alguém que cresce, aprende e trabalha tanto com a mente quanto com as mãos. Por meio de seus esforços, pode cultivar ou desfigurar a terra, criar arte ou destruir. Neste momento específico, devemos reconhecer que a mais terrível das ‘obras humanas’ é a guerra, pois nela, a própria ciência é colocada a serviço de uma vontade desumana de destruir e matar.”

“Paraíso das máquinas”

Por fim, crucial a passagem sobre a inteligência artificial: “Mais recentemente, foi até mesmo atribuído a certos sistemas artificiais o nome da nossa faculdade humana de pensar: inteligência”, disse o Pontífice. “Ao mesmo tempo, porém”, acrescentou, “nossas ideias e relações correm o risco de serem empobrecidas por um processo de desumanização. O paradoxo tornou-se cada vez mais evidente: enquanto a ‘inteligência’ é atribuída a sistemas computacionais, temos dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável das pessoas humanas, cujas vidas são avaliadas pelo critério da eficiência e, quando consideradas não mais produtivas, rejeitadas e descartadas.” E mais: “Para não perder a nossa humanidade em meio ao ‘paraíso das máquinas’ que invade e condiciona o nosso cotidiano, é urgente formar as mentes para um discernimento ético, capaz de reconhecer o que é moralmente bom.”

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