A utopia da Inteligência Artificial e o ideal psicopático. Artigo de Jung Mo Sung

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26 Setembro 2026

"Na visão utópica da IA, a solução da humanidade seria a psicopatia como ideal. Além dos desafios da regulação da IA, precisamos criticar a mesma utopia que aparece no capitalismo neoliberal e nas promessas da IA. Aqui vale a pena relembrarmos a promessa de Deus de Israel: 'Tirarei de vocês o coração de pedra e, em troca, darei um coração de carne'" (Eze 36,26), escreve Jung Mo Sung teólogo católico e cientista da religião.

Eis o artigo.

Se, como vários pesquisadores nessa área dizem, o desenvolvimento da inteligência artificial pode levar à extinção da espécie humana, ou a destruição do modo de viver da nossa civilização de uma boa parte da humanidade, – por ex, com hackeamento, por um “agente” de IA, de um todo sistema de controle de produção e distribuição de água ou de energia elétrica– por que não proibimos definitivamente o seu avanço? Porque fomos seduzidos pelas promessas utópicas dos profetas da era da Inteligência Artificial. Por isso, todo debate atual é se devemos reduzir a velocidade desse desenvolvimento, ou – como disse o presidente Trump – mantê-la para evitar que os inimigos da civilização Ocidental não vençam essa corrida; ou então, como alguns dizem no mercado financeiro, os dirigentes de empresas que estão liderando essa corrida devem responder primeiramente aos interesses dos seus acionistas.

Para entendermos melhor esses debates, precisamos entrar no âmbito de utopias ou da religião. Quando falamos de utopia, – isto é, uma visão de mundo e de futuro em que os problemas do presente são resolvidos ou desaparecidos, como as doenças, o envelhecimento, a injustiça ou a carência de bens que satisfazem as necessidades e os desejos –, uma das questões central é, quem é o agente capaz de nos levar a esse “lugar” ou o “tempo” de plenitude desejada?

Normalmente a resposta a essa pergunta sobre o agente “salvador” não é o “eu”, nem o nosso grupo, pois, seja o indivíduo ou o grupo, ele reconhece os seus limites e os seus fracassos nas tentativas anteriores. Por isso, mesmo imperadores poderosos, como o do Império Romano, ofereciam sacrifícios aos seus deuses. Normalmente a classe dominante do sistema social impõe a sua visão do mundo como o que é a realidade, – que é composta de o que é visto como o “atual” e o que é desejado, o utópico. Enquanto que grupos sociais subalternos ou marginalizados constroem ou criam uma imaginação utópica em que possam ter uma vida com dignidade e justiça em oposição ao que estão vivendo. Nesses casos, especialmente em uma cultura religiosa, a figura de um Deus, que reconhece a dignidade fundamental de todos seres humanos, incluindo os escravos, e que vem ou envia um messias é fundamental para dar e manter a esperança de libertação.

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A utopia é a condição de possibilidade para que os grupos sociais ou a própria sociedade possam encontrar um sentido e direção às estratégias e ações concretas, seja para a manutenção, reprodução, o aperfeiçoamento do sistema em direção à realização de objetivos desejados ou para a construção de uma outra sociedade. Isso vale também na atual cultura da era da inteligência artificial. A questão é: quais são os desejos fundamentais da classe dominante, a classe que define quais são os desejos prioritários e quem são os que merecem a realização desses desejos, se não for para todos?

Ray Kurzweil, cientista e futurista – ou em uma linguagem popular o “profeta” da era da Inteligência Artificial – preferido de Bill Gates e outros, nos oferece uma lista das “metas” a serem buscadas: “vencer os desafios prementes que enfrentamos, incluindo a superação de doenças, da pobreza, da degradação ambiental e de todas as nossas fragilidades humanas. Temos um imperativo moral de concretizar a promessa das novas tecnologias e, ao mesmo tempo, mitigar os perigos” (Kurzweil, A singularidade está mais próxima: a fusão do ser humano com o poder da inteligência artificial).

Mas, é claro, o desejo mais premente e o mais antigo da história da humanidade é o da imortalidade. E ele, junto com Terry Grossmann, diz: “Será que, hoje, já temos os conhecimentos e as ferramentas para viver eternamente? [...] a resposta à nossa pergunta é, de fato, um sim definitivo – os conhecimentos existem, se enfaticamente aplicados, para retardar os processos patológicos e de envelhecimento, a tal ponto que se possa gozar de boa saúde e bom humor quando as tecnologias mais radicais de prolongamento e melhoria de vida estiverem disponíveis nas próximas duas ou três décadas” (A medicina da imortalidade).

E qual seria o agente capaz de nos levar à condição de imortalidade, ou no mínimo de uma vida muito e muito longa com boa saúde, além, é claro a superação da pobreza e da degradação da natureza? A sua reposta é clara: “A inteligência artificial é a tecnologia fundamental que nos permitirá dar conta de vencer os desafios” (A singularidade está mais próxima).

Por isso, não se pensa a possibilidade de parar o avanço da IA que pode nos levar a uma catástrofe. Kurzweil já previu a possibilidade e, portanto, o desafio de mitigar os perigos do próprio avanço da IA, sem abandonar o “imperativo moral de concretizar a promessa das novas tecnologias”. Estou repetindo essa citação porque é importante percebermos que ele sai da esfera científica da descrição do que é e o que é possível, para a do “imperativo moral”, devemos fazer! Isto é, um processo de “transcendentalização”, ir além dos limites da razão científica para entrar no campo da fé, uma aposta baseada no desejo.

Imaginando a possibilidade de que a própria IA e decisões políticas das grandes empresas e dos países levaram a uma IA sem perigo à humanidade, devemos nos refletir sobre esse sujeito transcendental capaz de tornar ou criar seres humanos sem fragilidades e envelhecimento e uma sociedade sem pobreza e sem degradação ambiental. Pois, o elemento central das promessas é essa figura de uma “superinteligência artificial”. A proposta de Trump, no discurso na ONU, de nomear a IA de “superinteligência”, sem adjetivo de artificial, tem sentido na medida em que essa IA é vista como a “salvadora” da humanidade e, portanto, não merece ser menosprezada como algo artificial, que parece algo inferior.

E quais seriam as características fundamentais dessa superinteligência? Sem entrar em discussões técnicas, uma das características fundamentais é a capacidade de aprender, raciocinar e de resolver problemas com grandes quantidades de dados e padrões. E a base da inteligência artificial é o cálculo e a matemática. Se criássemos uma imagem antropomórfica de uma superinteligência artificial seria um ser humano “puro cálculo”, sem tempo para namorar ou ler poesias. Seria um ser humano perfeitamente eficiente, sem perder tempo ou recursos financeiros com pessoas ineficientes ou sem relacionadas com o objetivo buscado. Um ser humano sem compaixão.

Em resumo, esse “ente” superinteligência artificial salvadora da humanidade teria que ser um ente sem empatia, muito menos com compaixão com pessoas ineficientes e deficientes. Pois, ele saberia que cuidar dos pobres, enquanto ainda a pobreza não acabou porque esse “paraíso” ainda não chegou, custa tempo, recursos materiais e dinheiro que deveriam ser usados para criar essa utopia sem o envelhecimento dos que são ricos e podem pagar. Quando Elon Musk disse que “a fraqueza fundamental da civilização Ocidental é empatia”, ele expressou exatamente o desejo e projeto de uma civilização utópica em que os seus membros sejam sem empatia, parecidos com essa superinteligência artificial sem “coração”.

Como podemos antropomorfizar esse ente “salvadora”? Talvez, um ser psicopata, um ser que por problema ou característica da sua formação cerebral não tem capacidade de empatia ou de compaixão. No mundo humano, tratamos essa condição da dificuldade ou incapacidade de se colocar no lugar do outro e sentir remorso, como um transtorno que deve ser cuidado.

Na visão utópica da IA, a solução da humanidade seria a psicopatia como ideal. Além dos desafios da regulação da IA, precisamos criticar a mesma utopia que aparece no capitalismo neoliberal e nas promessas da IA. Aqui vale a pena relembrarmos a promessa de Deus de Israel: “Tirarei de vocês o coração de pedra e, em troca, darei um coração de carne” (Eze 36,26).

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