No Uruguai, “EcoFranciscanos” e outros grupos católicos lutam por justiça ambiental

Canoas do projeto Remar Contra a Corrente no rio Santa Lucía, no Uruguai | Foto: Nahir Curbelo/America

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17 Setembro 2026

Nahir Curbelo não faz parte da seleção nacional de remo campeã do Uruguai, mas certamente sabe manejar uma canoa e os remos.

A reportagem é de Lucien Chauvin, publicada por America, 15-09-2026.

Há dois anos, Curbelo participa do Remar Contra a Corrente, uma iniciativa regional criada por grupos católicos para chamar a atenção para a deterioração dos recursos hídricos na América Latina.

No Uruguai, Curbelo e cerca de 40 outros ativistas remaram por 48 quilômetros ao longo do rio Santa Lucía, em março passado. Com aproximadamente 240 quilômetros de extensão, o Santa Lucía não é o rio mais longo nem o maior do país, mas é responsável pelo abastecimento de água potável de mais da metade dos 3,4 milhões de habitantes do Uruguai, incluindo os moradores da capital, Montevidéu. O rio sofre uma pressão crescente provocada pela contaminação e pelo uso excessivo de seus recursos.

“Nosso objetivo ao remar pelo Santa Lucía é conscientizar sobre as ameaças enfrentadas pelo rio e pelo território”, afirmou Curbelo. “No rio, você sente a correnteza e ouve os sons da água. Aproveita a beleza, mas também vê como ele está sofrendo as consequências das atividades humanas.”

“A água que bebemos, a água com que tomamos banho, tudo vem desse rio, e não temos políticas para defendê-lo.”

O Remar Contra a Corrente começou na Argentina como uma forma de se opor à possível gestão privada do rio Paraná. O nome do grupo vem de um protesto bem-sucedido realizado em 1996, quando dois pescadores percorreram o rio de canoa durante 22 dias para chamar a atenção para um projeto de barragem que ameaçava destruir a pesca local.

Martha Arriola, integrante da Comissão de Justiça e Paz da Conferência Episcopal Argentina, lançou o movimento de remadores para impedir a concessão do rio. Segundo ela, a iniciativa se espalhou pelo Uruguai e por outros países devido às ameaças enfrentadas por seus recursos hídricos.

Vários bispos argentinos apoiam a iniciativa. Curbelo espera receber o mesmo apoio público dos bispos uruguaios.

“Estamos focados em temas que interessam à população em geral e ao bem comum. Nem sempre são considerados questões eclesiais, mas seria bom se pudéssemos causar algum impacto na hierarquia local”, afirmou.

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Assim como muitos outros uruguaios, Curbelo espera que as causas ambientais ganhem força com a visita do papa Leão XIV, prevista para o final deste ano. “O papa Leão deu continuidade aos ensinamentos de Francisco, o que é positivo para a Igreja e para a nossa casa comum”, afirmou.

Curbelo remou em nome das EcoFranciscanas, um grupo ambiental ligado às Irmãs Missionárias Franciscanas do Verbo Encarnado. As EcoFranciscanas fazem parte de um movimento mais amplo de grupos católicos no Uruguai e na região, organizados em defesa do meio ambiente e inspirados pela mensagem apresentada pelo papa Francisco em sua encíclica Laudato Si’, publicada em 2015.

Esses grupos pressionam governos, empresas e a sociedade civil para promover mudanças em áreas que vão da agricultura ao uso da água. No Uruguai, eles também transitam entre a hierarquia da Igreja e organizações ambientais seculares que demonstram desconfiança em relação à Igreja institucional.

O padre Jorge Osorio, sacerdote diocesano do nordeste do Uruguai, afirmou que, embora a Conferência Episcopal Uruguaia tenha acolhido a Laudato Si’, não houve continuidade por meio de ações práticas relacionadas às questões ambientais.

Por outro lado, outros atores da Igreja local, por meio da Cáritas Uruguai, foram fundamentais para a organização dos chamados “núcleos ambientais”, grupos comunitários voltados à preservação ambiental e à educação. Os primeiros núcleos foram organizados em 2016, pouco depois da publicação da Laudato Si’, e atualmente envolvem diversas organizações da sociedade civil.

“A conferência dos bispos não é um obstáculo, mas realmente não há foco no meio ambiente em seu trabalho pastoral. Para eles, é uma questão marginal”, afirmou o padre Osorio, que participa de campanhas ambientais em Cerro Largo, departamento onde está localizada sua paróquia. Representantes da Conferência Episcopal do Uruguai não responderam aos pedidos de entrevista.

Uma nova questão na região onde atua o padre Osorio é a possibilidade de reabrir um corredor comercial na Lagoa Mirim, na fronteira entre Uruguai e Brasil, o segundo maior lago da América do Sul.

“O uso da Lagoa Mirim para o transporte de mercadorias não é algo novo, mas esse plano é mais amplo e utilizará grandes embarcações que afetarão a biodiversidade e o próprio lago. É um benefício de curto prazo com um impacto duradouro”, alertou o padre Osorio.

A irmã Macarena Alvariza, uma das fundadoras das EcoFranciscanas, afirmou que o grupo precisou superar preocupações infundadas em relação à Igreja por parte de organizações de defesa ambiental e partidos políticos que atuam na área ecológica.

O Uruguai é o país menos religioso e menos católico da América Latina, segundo o Latinobarómetro, organização sediada no Chile que realiza pesquisas regionais. Em sua pesquisa de 2024, 52% dos uruguaios afirmaram não professar nenhuma religião — o maior percentual da América Latina — enquanto apenas 33% se identificaram como católicos, o menor índice da região.

“A Igreja Católica aqui, historicamente, sempre teve um perfil muito mais discreto do que em outros países da América do Sul”, afirmou a irmã Alvariza. “Somos um país fortemente secular, e isso às vezes gera mal-entendidos sobre nosso papel e nossa participação.”

O Uruguai consolidou sua tradição secular em 1919, com a adoção de uma nova Constituição que determinou uma separação rigorosa entre Igreja e Estado. “Quando começamos a participar, outros grupos perguntavam se pretendíamos levar uma estátua da Virgem Maria ou tentar converter as pessoas”, lembrou a irmã Alvariza. “Eles não entendiam de onde estávamos partindo, mas essas ideias mudaram”, acrescentou.

Sobre o rio Santa Lucía, ela afirmou que o governo precisa enfrentar a contaminação provocada por agrotóxicos, pelo despejo de águas residuais e pelos resíduos sólidos, além de compreender os impactos das mudanças climáticas. A última grande seca, em 2024, teve efeitos severos, provocando uma crise hídrica em Montevidéu e em outras cidades.

As EcoFranciscanas participam de diversas campanhas locais, trabalhando com outros grupos para mudar políticas públicas relacionadas à expansão das plantações de árvores destinadas a abastecer as fábricas de papel do país e à possibilidade de exploração de petróleo e gás em alto-mar. O grupo se opõe às duas iniciativas.

Elas também participam de campanhas ambientais internacionais, entre elas o Remar Contra a Corrente, e defendem o uso adequado do Aquífero Guarani, o segundo maior aquífero do mundo. Ele se estende por aproximadamente 1,2 milhão de quilômetros quadrados sob os territórios da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai.

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