10 Setembro 2026
Crise climática adiciona novos extremos a regiões que já convivem com o problema, mostra levantamento do Observatório do Clima sobre índices da plataforma AdaptaBrasil
O artigo é de Aldem Bourscheit, jornalista, publicado ((o))eco, 08-09-2026.
Eis o artigo.
Dos 5.569 municípios do Brasil, 1.699 estão sob risco alto ou muito alto de sofrer com a falta de água. Isso significa que 30,5% dos municípios brasileiros estão sujeitos a impactos mais graves em um mundo mais quente, marcado por eventos extremos cada vez mais frequentes, incluindo secas severas. A análise foi realizada pelo Observatório do Clima com dados do AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
O problema se concentra no Nordeste. Todos os 15 municípios classificados com risco muito alto ficam na região e, em oito dos nove estados nordestinos, há ao menos uma cidade nessa faixa. Os demais municípios com risco alto estão espalhados pelas cinco regiões do país.
Fora do Nordeste, os índices recuam, mas o problema continua. Brasília (DF), Governador Valadares (MG), Capanema (PA) e Pelotas (RS), por exemplo, estão na faixa de risco alto.
O AdaptaBrasil avalia o risco de impacto das mudanças climáticas no balanço hídrico a partir da combinação de três fatores: ameaça, exposição e vulnerabilidade do município.
Conforme Jean Ometto, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador científico do AdaptaBrasil, a ameaça mede quanto fatores como mudanças na chuva e na temperatura podem reduzir a água disponível. “A grosso modo, o que a gente chama de ameaça de escassez são os aspectos físicos do sistema”, disse.
A exposição mostra quem e o que pode ser atingido pela falta d’água, das pessoas às atividades econômicas que dependem do recurso, como irrigação e pecuária. Já a vulnerabilidade mostra quanto o município pode sofrer e que condições ele tem para reagir à escassez. Entram nessa conta itens como gestão da água, reservatórios e alternativas de abastecimento. “É quanto o município atuou ou atua para reduzir o risco de faltar água”, detalhou Ometto.
Juazeiro e Recife são os municípios com maior risco de falta d’água no país. O primeiro fica no semiárido do norte da Bahia, às margens do São Francisco. O outro é a capital pernambucana, na Mata Atlântica litorânea.
Quando avaliados os três fatores que compõem o risco, tem-se que Juazeiro e Recife têm ameaça média, vulnerabilidade alta e exposição máxima. Assim, municípios tão diferentes chegam ao mesmo patamar por razões que vão bem além de chover pouco.
A forma como cada município lida com tais fatores — e o grau de risco que recebe — também fica explícita no caso de Guaribas, no sudoeste do Piauí. No território, historicamente sujeito a estiagens, ameaça e vulnerabilidade são médias, mas a exposição é muito baixa. Com isso, o risco final cai para muito baixo. “Isso quer dizer que não vai ter seca? Não!”, afirmou Ometto.
Na Amazônia, a combinação muda outra vez. Pelos dados da plataforma, Manaus tem o maior risco no estado do Amazonas, mas fica apenas na faixa média. Sua exposição é máxima, mas os níveis menores de ameaça e vulnerabilidade puxam o resultado para baixo.
Isso não significa que a água seja sempre abundante na região. bcitou áreas onde poços secam na época menos chuvosa e comunidades precisam recorrer a cisternas. “Você pode estar numa região […] abundante de água e ter problema de distribuição”, resumiu.
A crise do clima entra na conta do risco ao alterar chuvas, intensificar secas e interferir na disponibilidade de água no país, adicionando novos extremos a regiões que já convivem com problemas antigos.
Para Diosmar Santana Filho, geógrafo e pesquisador da Associação de Pesquisa Iyaleta, de Salvador (BA), a escassez merece atenção especial. “Secas e longas estiagens são o maior evento climático do Brasil”, avaliou, citando a frequência de emergências e calamidades ligadas à falta d’água, sobretudo no semiárido nordestino.
No outro extremo estão municípios que agora têm de lidar com fortes chuvas e inundações, como é o caso de pequenos municípios nordestinos.
Dos índices à ação
Ometto pontuou que o AdaptaBrasil não foi criado como um sistema de alerta, mas para ser uma referência nacional para antecipar riscos e orientar decisões climáticas. Ou seja, os dados ganham ainda maior utilidade se entrarem no planejamento político.
“Essa escala de risco é uma escala de orientação”, afirmou. O passo seguinte é abrir os dados de cada município, entender o que empurra seu índice para cima e identificar onde o poder público pode agir.
Isso pode significar melhorar a gestão da água, buscar novas fontes, ampliar cisternas e reservatórios ou estudar alternativas subterrâneas. “O que ele não vai conseguir mexer é no ‘botãozinho do clima’”, resumiu Ometto. “Mas nas ações no município ele consegue”.
Conhecer os riscos também pode ajudar uma prefeitura a buscar recursos. Segundo Ometto, municípios que conseguem mostrar onde estão mais vulneráveis têm melhores condições de justificar investimentos em adaptação.
Mas nem todos conseguem bancá-los. Outro levantamento do OC encontrou 1.594 municípios com risco médio a muito alto de deslizamentos e/ou enxurradas e baixa capacidade fiscal. São cidades que precisam investir em adaptação, mas têm mais dificuldade para conseguir crédito e financiar obras.
Para Santana Filho, fortalecer quem executa as políticas “na ponta” é essencial. “Investir hoje em pesquisa, capacitação e aumentar as capacidades de gestão pública local […] é um primeiro ponto”, afirmou.
Ometto vai na mesma direção. Para ele, a mudança do padrão climático precisa entrar na gestão cotidiana de estados e municípios. A lógica que por décadas orientou a agricultura, o uso dos mananciais e a relação com os recursos naturais já não serve para o clima atual nem para o futuro.
“A gente não vai viver os próximos 30 anos como a gente viveu nos últimos 30 anos”, ressaltou o cientista.
Os dados municipais analisados pelo OC têm 2020 como ano de referência, mas o AdaptaBrasil vem sendo atualizado com novas bases e modelagens, incluindo informações de órgãos federais como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e projeções climáticas usadas pelo IPCC, sigla em inglês do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima.
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