O aniversário do golpe que derrubou Salvador Allende retoma a memória da ditadura no Chile. Como a recordação do regime militar pode ajudar a entender o avanço do autoritarismo hoje?
25 anos depois dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, como o medo transformou a política internacional e continua sendo usado como instrumento político?
Na Alemanha, a vitória histórica da extrema-direita em uma eleição estadual acende outro alerta: o que explica a vitória da AfD e o crescimento de discursos autoritários? Como a mobilização popular pode fortalecer as democracias e enfrentar a desigualdade? É o que responde o Grito dos Excluídos e Excluídas, que voltou às ruas neste 7 de setembro.
Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.
11 de setembro de 1973. Há 53 anos, o Chile vivia um dos momentos mais traumáticos da história política da América Latina. O golpe militar derrubava o governo constitucional de Salvador Allende e dava início à ditadura de Augusto Pinochet.
Allende havia chegado à Presidência pelo voto popular, defendendo a construção do socialismo dentro da democracia. Diante do levante militar, recusou a possibilidade de exílio e permaneceu no Palácio de La Moneda, onde resistiu até os últimos momentos. Sua resistência se transformaria em um dos maiores símbolos da defesa da democracia na América Latina.
O golpe chileno aconteceu em um continente marcado pela ascensão de regimes militares. E a história do Chile também se cruza diretamente com a experiência brasileira. A ditadura instalada no Brasil em 1964 chegou a servir de referência para os militares chilenos, e houve apoio e cooperação entre os dois regimes após o golpe.
Mais de cinco décadas depois, essa memória continua sendo disputada. Os períodos ditatoriais ainda causam debates entre as nações, enquanto setores da extrema-direita buscam reinterpretar o passado e relativizar a violência cometida por esses regimes.
E aqui está uma das questões centrais: como sociedades que conheceram censura, perseguição, tortura, desaparecimentos e mortes podem voltar a abrir espaço para projetos autoritários?
11 de setembro de 2001. Há 25 anos, o mundo assistia, em tempo real, ao ataque às Torres Gêmeas, em Nova York. Um acontecimento que não apenas marcou a história dos Estados Unidos, mas alterou profundamente a política internacional e a forma como o medo passou a ser percebido e utilizado na sociedade.
Poucos dias depois dos atentados, os Estados Unidos iniciaram a chamada Guerra ao Terror. O combate ao terrorismo passou a orientar a política externa norte-americana e abriu caminho para intervenções militares, novas políticas de segurança e um amplo sistema de vigilância. O Afeganistão foi invadido em 2001 e, em 2003, os Estados Unidos iniciaram a invasão do Iraque.
O medo de novos ataques passou a justificar medidas excepcionais em nome da segurança. A Guerra ao Terror também produziu consequências que ultrapassaram os campos de batalha e chegaram à política, à cultura e à maneira como diferentes grupos passaram a ser identificados como ameaças.
Para o historiador Garrett Graff, os efeitos do 11 de Setembro funcionaram como uma espécie de efeito dominó. As guerras no Afeganistão e no Iraque, os conflitos posteriores no Oriente Médio, a crise dos refugiados e a própria ascensão da extrema-direita estão ligados, em diferentes níveis, às transformações provocadas por aquele acontecimento.
No último final de semana, a Alemanha viu um resultado, que até o momento era de certa forma, impensável. O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu a eleição estadual na Saxônia-Anhalt, no leste do país.
O resultado foi histórico para o partido ultra-conservador, que recebeu cerca de 44% dos votos. A vitória nas urnas não garante que Ulrich Siegmund, líder da AfD no estado, será ministro-presidente, cargo equivalente ao de governador no Brasil, pois a legenda depende da composição do Parlamento Federal, cuja eleição está prevista para 2029.
Mesmo assim, o resultado assusta. O jornalista Romaric Godin, em artigo publicado por Nueva Sociedad, destacou a manchete da capa da revista semanal Der Spiegel, com a foto de Ulrich e o título “O homem mais perigoso da Alemanha”.
Com as memórias de um recente passado fascista, um momento atual de avanço da extrema-direita, e as incertezas do futuro próximo, o medo pode tomar conta do nosso imaginário e provocar paralisia.
No entanto, como a história nos mostra, a coletividade sempre foi um dos caminhos para superarmos momentos difíceis: Olhar com empatia para o próximo, entender que todos estamos em situações semelhantes e, a partir disso, nos organizarmos para enfrentar um sistema que foi criado para se retroalimentar da desigualdade.
Valerio Arcary, professor de história aposentado do Instituto Federal de São Paulo, afirma que a resposta ao avanço autoritário exige a superação de posturas defensivas e o engajamento popular em uma pauta de ampliação de direitos.
Em artigo publicado pelo site A Terra é Redonda, Arcary também faz um alerta para a necessidade de mobilização social e ações políticas para as eleições brasileiras em 2026. Para o professor, essas medidas podem evitar um futuro autoritário e perigoso no país.
"A eleição pode ter um desenlace terrível. Ajustar a linha para vencer as eleições é, portanto, imperioso. Não será suficiente a tática de defesa do legado. Levantar bandeiras novas de expansão de direitos, assumir compromissos com os interesses populares, e fazer promessas não é "demagogia", deve ser uma estratégia de mobilização. Não podemos deixar que aconteça aqui o que se impôs, dramaticamente, na recente eleição na Saxônia.”
O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.