04 Setembro 2026
Em um extenso documento que articula o dever dos cristãos de cuidar do meio ambiente, um órgão consultivo do Vaticano escreveu que agir para preservar o planeta para as gerações futuras "não é apenas uma exigência ética, mas também teológica".
A reportagem é de Justin McLellan, correspondente no Vaticano, publicada por National Catholic Reporter, 01-09-2026.
"O momento histórico que estamos vivendo exige ação urgente de todos, a começar pelos responsáveis pela vida pública, para garantir a sustentabilidade do planeta e a habitabilidade de nossa casa comum", escreveu a Comissão Teológica Internacional do Vaticano em um documento de mais de 30 mil palavras publicado em italiano em 2 de setembro, intitulado "Cuidando de Nossa Casa Comum: Uma Resposta Responsável e Fraterna ao Deus Trino".
O documento, fruto de três anos de trabalho da comissão e revisado pelo Papa Leão XIV antes de sua publicação, defende o desenvolvimento de uma "espiritualidade ecológica" à luz da compreensão cristã do Deus trino — a doutrina de Deus como Trindade, que os católicos entendem que torna Deus inerentemente relacional.
Os textos publicados pela comissão não fazem parte do magistério da Igreja; o órgão consultivo tem, em vez disso, a função de auxiliar a Igreja, e particularmente o Escritório de Doutrina da Fé do Vaticano, no estudo e desenvolvimento do ensinamento da Igreja.
Uma parte significativa do texto, que fundamenta suas ideias nos escritos de quatro doutores da Igreja e no magistério papal, busca desenvolver ainda mais o termo "pecado ecológico", que foi introduzido no Sínodo dos Bispos da Amazônia de 2019 e que o Papa Francisco disse estar considerando inserir no catecismo.
No documento, a comissão propôs entender o pecado ecológico como "uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente", mas também afirmou que o termo atual não expressava suficientemente a ofensa de desrespeitar o objetivo final de Deus para a criação.
"Uma formulação adequada do que constitui o pecado em questão aqui deve expressar ambos os fatores: não apenas o dano ambiental ou ecológico, mas também, e principalmente, a recusa em seguir o plano de criação pretendido por Deus."
Portanto, escreveu a comissão, "propomos entender esse pecado contra nossa Casa Comum como um 'pecado contra a criação e contra o Criador', na medida em que viola o significado de criação pretendido por Deus Criador", afirmou o documento.
O documento também propôs compreender o pecado contra o meio ambiente "de maneira análoga à forma como os conceitos de pecado social e estruturas do pecado foram gradualmente se moldando" — referindo-se a uma compreensão do pecado articulada por São João Paulo II, na qual o acúmulo de pecados individuais que se consolidam "se fortalecem, se espalham e se tornam a fonte de outros pecados, influenciando assim o comportamento das pessoas".
Após estabelecer as bases para a conexão teológica entre a Trindade e a responsabilidade dos fiéis de cuidar da criação de Deus, a comissão expressou a necessidade de desenvolver uma espiritualidade guiada por princípios ecológicos, onde "trabalho, descanso, lazer, contemplação, nossa relação com a natureza e com outras pessoas, e o silêncio se unem".
A comissão escreveu que, atualmente, "a promoção de uma espiritualidade ecológica autêntica e eficaz entra em conflito com a dinâmica imposta pelo paradigma tecnocrático que predomina na esfera econômica e na vida social".
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Em muitas sociedades modernas, "encontramo-nos presos entre um mal-estar subjacente, que exige mudanças drásticas na forma como lidamos com a nossa existência, e a necessidade de nos adaptarmos às exigências do ritmo frenético imposto pelo mercado", afirma o documento, enquanto que "uma espiritualidade ecológica traça um caminho para sair desta espiral suicida que nos maltrata, nos adoece e nos leva à deterioração".
"Uma espiritualidade saudável nos convida a viver de forma equilibrada e consciente, tanto em relação ao meio ambiente que nos sustenta quanto em relação aos outros e a nós mesmos", continuou o texto. "Uma espiritualidade saudável leva em consideração o consumo pessoal e familiar; busca torná-lo sustentável. Procura minimizar o consumo de energia em casa e no transporte. Busca uma alimentação saudável e ambientalmente responsável. Ajuda-nos a discernir o que compramos, conscientes de que cada ato de compra é um ato moral."
Em uma seção subsequente dedicada ao ascetismo e ao jejum, a comissão escreveu que "a atual situação de superexploração do nosso planeta impõe a todos nós o dever moral de restringir voluntariamente o nosso consumo e a exploração de recursos, especialmente nos países ricos".
E ao discutir a responsabilidade coletiva pelas causas e efeitos das mudanças climáticas, o texto afirmou que "é justo que a implementação de políticas ecológicas mais responsáveis, exigentes e respeitosas seja mais rigorosa para aqueles que causam o maior dano à nossa Casa Comum ou que já causaram o maior dano a ela até o momento".
Mas a comissão também afirmou que "seria injusto que os países mais ricos impusessem encargos insustentáveis e prejudiciais aos países mais pobres, exigindo que preservassem os 'pulmões' e os oásis verdes da Terra, enquanto os países ricos não estão dispostos a abrir mão de seu alto padrão de vida e de seus padrões de consumo".
Em uma seção sobre a "destinação universal dos bens", um princípio da doutrina social católica que Leão XIV expôs em sua encíclica Magnifica Humanitas, centrada na Inteligência Artificial, o documento também afirmou que "a propriedade privada não é um direito absoluto segundo a Tradição Cristã".
A ideia da destinação universal dos bens, que defende que todos os bens são destinados ao bem e uso de todas as pessoas, "deve ser ampliada para incluir a preservação do planeta Terra para as gerações futuras e para o florescimento da vida, não apenas da vida humana", escreveu a comissão.
O documento terminava expressando a necessidade urgente de uma "virada ecológica" que consiste na "percepção compartilhada de que toda a realidade está interligada, vem de Deus como um dom e revela sua marca trinitária". Tal mudança de paradigma "implica uma profunda conversão espiritual", afirmava.
Embora o texto apelasse aos indivíduos e aos líderes políticos para que fizessem essa mudança, também observava que "o papel fundamental das religiões na promoção do bem comum se destaca, assim como sua capacidade de inspirar altruísmo, conservação e respeito pelo meio ambiente natural, e de apontar para a fonte de uma espiritualidade que permeia e orienta o comportamento diário".
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