03 Setembro 2026
Retaliações comerciais e ingerências diplomáticas de Washington sobre as eleições de 2026 põem em xeque a soberania e a autonomia geopolítica brasileira.
O artigo é de Alessandro Wick, analista geopolítico, publicado por A Terra é Redonda, 02-09-2026.
Eis o artigo.
1.
Olhe ao redor. Entramos em setembro de 2026 e, apesar dos gritos histéricos e intermináveis vindos das telas da TV financeira, o Brasil não sumiu do mapa. Longe disso. Conseguimos esquivar de alguns golpes duros, equilibrando as balanças comerciais. Não somos um vagão passivo rebocado por um turbulento trem latino-americano.
Mas sejamos realistas: a inflação ainda morde os calcanhares do cidadão comum e o desemprego estrutural não sumiu por mágica, mas o país respira. Esse é justamente o problema. O tamanho do Brasil incomoda quem se acostumou a tratar o Hemisfério Sul como vassalos obedientes que só se movem quando o vizinho do norte puxa as cordas.
As relações entre Brasília e Washington estão atualmente mais azedas que caipirinha feita com limão podre. A tradicional diplomacia dos tapetes vermelhos foi trocada por um impasse burocrático de atrito e ressentimento. A verdade subjacente que a grande mídia raramente detalha é simples: a Casa Branca de Donald Trump não tira proveito de um ator regional poderoso e de tamanho continental que insiste em defender seus próprios interesses geoestratégicos independentes.
Nós realmente competimos com eles, desafiando as regras que tentam impor ao resto do continente. O objetivo de Washington continua sendo o de sempre: consolidar sua influência, garantir alinhamento e gerenciar as fronteiras desta região para atender aos seus próprios interesses.
Washington revogou oficialmente o visto da nossa embaixadora nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Uma retaliação calculada e altamente visível. O pretexto deles? Alegam que o Brasil está demorando para aceitar as credenciais do recém-nomeado embaixador de Donald Trump, Daniel Perez – um aliado próximo do Secretário de Estado, Marco Rubio.
Mas a questão central é muito mais profunda. O Itamaraty manteve uma postura firme porque, no mês passado, nosso governo barrou a entrada de funcionários dos EUA da divisão de Direitos Humanos que desembarcaram sob a premissa de “monitorar a integridade eleitoral”. Os inspetores foram mandados de volta na fronteira. A resposta de Washington veio rapidamente na forma de tarifas punitivas de até 37,5% sobre as principais importações brasileiras, somada a esse cancelamento de vistos amplamente divulgado.
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Eles estão prestando muita atenção porque outubro está logo ali. As eleições presidenciais se aproximam, e o tabuleiro de xadrez sul-americano foi organizado de uma forma que parece desenhada para cercar o Brasil. Olhe para o cenário que nos rodeia. Na Colômbia, um bilionário dita o ritmo político com o claro apoio do capital estrangeiro. No Chile, um presidente intimamente alinhado aos interesses estratégicos de Washington mantém uma fachada de neutralidade enquanto assina os acordos econômicos que importam.
E em Honduras? O candidato favorito de Donald Trump lidera as pesquisas, garantindo que a América Central permaneça firmemente alinhada. Mais um exemplo da profunda divisão diplomática é a recente tensão em relação aos embaixadores. Há um desgaste visível ao observar como o chefe de Estado da Argentina frequentemente trata as instituições soberanas e o presidente Lula como alvos de retórica provocativa.
2.
Quando o Itamaraty finalmente decidiu pisar no freio, mantendo o embaixador brasileiro fora de Buenos Aires e reduzindo a missão a um mero encarregado de negócios, não foi apenas uma resposta comedida – foi um passo necessário para mostrar que a dignidade do Brasil não está em debate. Todo esse embate parece algo cozinhado em Washington, como se marionetistas estrangeiros estivessem puxando cordinhas para manter a América Sul dividida e fraca.
Comentários depreciativos vindos de estúdios de televisão podem continuar, mas ações têm consequências, e o Itamaraty deixou claro que engajar em retórica semelhante não é o estilo preferido. Em vez disso, a decisão de efetivamente fechar a porta para o diálogo de alto nível deixa o outro lado falando com uma sala vazia.
A realidade é que a largada para a corrida presidencial já foi dada, e quem pensa que o jogo vai se resumir àquela velha polarização de sempre no palanque de Copacabana está olhando para o lugar errado. O movimento de Flávio Bolsonaro está cheio de nuances, e sua aparente indefinição na verdade esconde uma jogada muito bem calculada. Enquanto o debate esquenta por aqui, o senador passou o ano cruzando o Equador e costurando pontes fortíssimas com a cúpula do Partido Republicano em Washington.
Não é só foto para as redes sociais; é alinhamento de alta patente com a ala mais dura da política americana. Isso muda o patamar da disputa: a nossa eleição tornou-se um reflexo direto de interesses externos, desenhando um cenário em que o projeto de país corre o risco de ser pautado muito mais pelo Hemisfério Norte do que pelas reais demandas da nossa população.
O resultado prático dessa articulação em Washington não vai demorar a bater na nossa porta, e virá em forma de pressão externa pesada. Essa proximidade com a liderança americana funciona como uma espécie de chancela internacional, um sinal verde para que forças estrangeiras metam o bedelho por aqui com mais força. Quem acompanha os bastidores da nossa política sabe muito bem que o jogo agora é muito mais complexo do que o clássico “esquerda contra direita”; a questão central é entender o quanto da nossa soberania e da nossa estabilidade econômica será entregue nessa barganha internacional nos próximos anos.
Podemos passar as próximas dez noites em claro, discutindo sobre um milhão de tópicos diferentes até perder o fôlego. Podemos brigar pelos rumos da economia, podemos discordar sobre políticas públicas, gestão ambiental ou investimentos internos. Esse debate é nosso. Pertence às ruas de São Paulo, aos campos do Centro-Oeste, ao calor do Nordeste e às esquinas do Rio de Janeiro. São as nossas próprias contradições internas para resolver.
A Casa Branca pode acionar restrições de visto, ajustes tarifários e pressão política para forçar a submissão. A ideia central é simples: o povo brasileiro é o único que escolhe o seu próprio destino. Quer este país vire à esquerda, à direita ou capote numa vala, somos nós que estamos na direção. Monitoramento externo e ameaças comerciais não podem alterar esse fato.
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