Francisco de Assis, do desprezo à adoração: a dolorosa construção da santidade

Foto: Vitral da Catedral Metropolitana de San José / Reprodução

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28 Agosto 2026

"Francisco é o único a falar diante do Pontífice. Ele defendeu apaixonadamente os fundamentos da fraternidade que havia criado, mas Inocêncio III, assim como o Bispo de Assis antes dele, parece reticente quanto ao princípio da pobreza absoluta, considerando-o extremo demais. De qualquer modo, dispensa Francisco de forma seca, e o convida a retornar alguns dias depois para fazer penitência, ou seja, para voltar à obediência."

O artigo é de Jérôme Gautheret, publicado por Le Monde, 22-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Francisco de Assis, o santo contemporâneo. Após seu retorno do Egito, Francisco já não é mais apenas um frade qualquer entre os outros. Cercado por uma aura sobrenatural, sofre pela institucionalização de sua ordem, que continua a crescer. Contudo, não se opõe abertamente.

Até agora, contentamo-nos em observar a história do ponto de vista de Francisco. Mas tentemos, por um momento, inverter a perspectiva e observar o fenômeno franciscano de outro ângulo: aquele do Papa Inocêncio III, o homem sentado no trono mais prestigioso da Cristandade no momento em que recebe doze penitentes vindos de Assis em seu palácio e precisa decidir o futuro deles. Nos relatos sobre a vida de Francisco que se multiplicaram por toda a Europa após sua canonização em 1228, esse papa aparece como uma abstração, como um personagem secundário. No entanto, isso é profundamente injusto, visto que nada teria sido possível sem ele.

Na primavera de 1209, Inocêncio III está no décimo segundo ano de seu pontificado, mas não é um homem idoso; não tem sequer cinquenta anos. Seu grande empenho é dedicado à luta contra as heresias e as formas desviantes de práticas cristãs. Nada indica que ele vai acolher com bons olhos os membros desse novo tipo de fraternidade. Antes do encontro, Francisco e seus companheiros tiveram de passar por uma preparação minuciosa por seu "padrinho", Guido, o Bispo de Assis, e pelo poderoso Cardeal João de São Paulo, que acolhe os frades.

"Pode-se presumir que os penitentes, que pareciam 'homens da floresta' e provavelmente também deviam cheirar com tais, tenham sido lavados, barbeados e asseados antes de serem apresentados ao Pontífice. É também provável que, para a ocasião, os frades tenham sido obrigados a calçar sandálias para comparecer diante do Papa, que não via com bons olhos religiosos descalços", escreve o medievalista Sylvain Piron em François et ses frères (Ed. La Tempête).
O encontro era de importância crucial. E o que se pode ler nas entrelinhas é que não correu bem.

Francisco é o único a falar diante do Pontífice. Ele defendeu apaixonadamente os fundamentos da fraternidade que havia criado, mas Inocêncio III, assim como o Bispo de Assis antes dele, parece reticente quanto ao princípio da pobreza absoluta, considerando-o extremo demais. De qualquer modo, dispensa Francisco de forma seca, e o convida a retornar alguns dias depois para fazer penitência, ou seja, para voltar à obediência.

Aparência repulsiva

Contudo, houve uma reviravolta. Alguns dias depois, Inocêncio III finalmente atende aos pedidos dos frades, concedendo-lhes o direito de pregar além dos limites da Diocese de Assis. Em seguida, permite que recebam a tonsura, tornando assim religiosos de pleno direito esses irmãos leigos. Ele deu sua aprovação verbal à "Regra" apresentada por Francisco, a qual, ao que se sabe, provavelmente continha pouco mais do que concisos princípios de vida e passagens tiradas do Novo Testamento? Isso não tem confirmação. No entanto, a essa altura, aqueles que se fazem chamar de "Pobres Menores", e, logo depois, "Frades Menores", já podem constituir-se como uma ordem. Isso certamente deve tê-los poupado de muitos insultos e pauladas.

Como explicar a estranha mudança de atitude de Inocêncio III? Tomás de Celano, o primeiro dos hagiógrafos oficiais de Francisco, escolhe a elipse, a omissão de termos, falando apenas de tempo de reflexão. Mas é verdade que sua posição não é ideal: ele escreve uma Vida de Francisco a pedido de um papa que é, além disso, sobrinho de Inocêncio III... Pode-se, portanto, compreender sua reticências em afirmar que um de seus predecessores não percebeu de imediato a santidade do Poverello de Assis.
Os companheiros de Francisco, que podem falar com mais liberdade, são mais eloquentes.

Em Os Primórdios da Ordem, o Frei João afirma que Francisco e seus amigos haviam sido inicialmente rejeitados, mas que o Poverello havia conseguido convencer o Papa durante o segundo encontro, ao contar uma parábola na qual se comparava a uma pobre jovem que chamou a atenção de um rei e lhe deu muitos filhos. O Frei Rufino, por sua vez, fala em seus escritos sobre uma visão que teria aparecido ao Papa em sonho: a de um pequeno monge sustentando a Basílica de Latrão sobre os ombros, uma imagem famosa, ilustrada por Giotto na Basílica de Assis.

No entanto, é uma fonte externa, um cronista inglês do século XIII chamado Roger de Wendover, que fornece o relato mais imaginativo (e espirituoso) do episódio. Segundo ele, ao ver Francisco se apresentar diante de si desalinhado e malvestido, Inocêncio III o teria dispensado aconselhando-o a ir rolar na lama com os porcos. Conta-se que Francisco teria levado assa instrução ao pé da letra e retornado algum tempo depois, feliz e coberto de lama.

Desconcertado pela obediência instintiva do Poverello, o Pontífice não teria tido escolha a não ser atender aos seus pedidos...

Para o medievalista Sylvain Piron, essa lenda é interessante por dois motivos. Por um lado, revela "a aversão provocada pela aparência repulsiva dos frades ao chegarem a Roma". Por outro, destaca uma característica marcante da pregação de Francisco: "seu talento para encenações espetaculares e sua maneira desarmante de levar ao pé da letra os conselhos evangélicos".

Para além disso, porém, a anedota ressalta o voto de obediência absoluta que distingue os franciscanos. Esse elemento pode explicar por que Inocêncio III acabou decidindo dar uma chance aos Frades Menores.

A serviço do clero

Após o século XI, impulsionada pelo grande movimento de reforma da Igreja e pelo crescimento econômico que transforma as estruturas sociais, a Cristandade é agitada por episódios de fervor religioso que o Papado, hesitante entre conciliação e repressão, tem dificuldade em canalizar.

Francisco e seus companheiros não foram os primeiros a pedir pelo retorno a uma vida evangélica ou reivindicar a pobreza como um ideal absoluto.
Essa aspiração estava no cerne da trajetória da Pataria, membros de movimentos reformistas do século XI, e, mais tarde, dos humilhados da Lombardia e dos discípulos de Pedro Valdo, o pregador que fundou a fraternidade dos "Pobres de Lyon", mais tarde conhecidos como "valdenses", no final do século XII.

Essas preocupações guardavam uma semelhança notável com aquelas dos movimentos agrupados sob o termo "cátaros", contra os quais o Papa Inocêncio III havia lançado uma cruzada alguns meses antes. Inegavelmente, a fraternidade criada por Francisco apresenta semelhanças inquietantes com essas correntes "sulfurosas". Contudo, sua proposta espiritual difere das demais em um ponto central: esses Frades Menores excluem qualquer questionamento do clero tradicional; pelo contrário, pretendem colocar sua pregação a seu serviço. É, sem dúvida, por essa razão que Inocêncio III, após cuidadosa reflexão, decide apoiar o movimento em vez de opor-se a ele.

"Se Francisco tivesse agido sozinho e se colocado contra a Igreja, teria quase certamente sido condenado e excomungado, assim como Pedro Valdo. Em última análise, seu sucesso decorre da convergência de três elementos: um carisma incontestável, o anseio popular por uma Igreja que realmente se conformasse com a mensagem do Evangelho e uma sucessão de papas perspicazes que reconhecem o potencial que Francisco oferece para revitalizar a Igreja", resume o medievalista Jacques Dalarun, que dedicou grande parte de sua pesquisa ao estudo das fontes franciscanas.

Após a bênção papal, o crescimento do movimento é espetacular. No Domingo de Ramos de 1212, uma jovem de uma família proeminente de Assis, Chiara Offreduccio di Favarone, se apresenta à pequena igreja da Porciúncula, o coração do movimento franciscano, e pede a Francisco para ser admitida em sua ordem. Pouco tempo depois, juntam-se a ela sua irmã e outras jovens que também desejam abraçar uma vida de pobreza. O que fazer com essas recém-chegadas? A pregação itinerante estava fora de cogitação para ela. Francisco faz com que sejam acomodadas perto de sua amada capela de São Damião, ao pé das muralhas da cidade. Em 1214, Clara (a futura Santa Clara) ver-se-á obrigada a aceitar, embora relutantemente, o título de abadessa. A pequena comunidade feminina crescerá, até se tornar a Ordem das Clarissas.

Aura sobrenatural

Logo, os discípulos de Francisco são contados aos milhares por toda a Europa. A esse ponto, o carisma de um único homem já não basta mais. Os primeiros frades, entusiastas, porém pouco instruídos, veem-se ao lado de clérigos, mais razoáveis, menos inclinados ao trabalho manual, mas mais profundamente instruídos em teologia. Em pouco tempo, esses recém-chegados acabam por suplantar os outros.

Francisco estava ciente de que tais desdobramentos eram inevitáveis, mas ainda assim teve que vivê-los dolorosamente. Nesse processo, uma figura desempenhará um papel fundamental: Ugolino de Anagni, bispo de Ostia e futuro Papa Gregório IX, que exercerá uma supervisão rigorosa sobre a ordem durante a última década da vida de Francisco. É ele quem, em 1215, dissuadirá o santo de Assis de partir para pregar na França, e que vigiará a Ordem durante sua odisseia no Egito.

Ao retornar de Damieta, Francisco está mudado. Sua saúde piora e ele começa a perder a visão, a ponto de, em 1221, deixar a liderança da Ordem. Paralelamente, a percepção que se tem dele também muda: no início de sua trajetória, ele era um frade entre outros, um exemplo a ser seguido; agora, porém, Francisco parece envolto em uma aura sobrenatural. Já não se busca mais imitá-lo; ele é venerado. Por vezes, ele não consegue esconder sua indignação diante das transformações da Ordem, como no dia em que se recusou a entrar em Bolonha porque os frades de lá haviam construído uma casa de pedra e fundado uma escola.

Essa tensão entre a institucionalização da Ordem e o desejo de preservar sua pureza original não terminará com a morte de Francisco. Vimos como a decisão de 1228 de construir uma basílica para abrigar seus restos mortais, contrariando seu próprio testamento, chocou muitos frades. É verdade, a igreja construída pertence ao Papa, e não aos Frades Menores; ainda assim, muitos considerarão o episódio como o primeiro de uma longa lista de concessões.

Duas facções logo entrarão em conflito dentro da Ordem: os "Conventuais", que defendem uma integração da Ordem à Igreja, e os "Espirituais", que pregam o retorno às fontes da mensagem franciscana. Alguns destes últimos acabarão por se rebelar abertamente contra a Santa Sé. Sua perseguição serve de pano de fundo para a obra O Nome da Rosa (1930), de Umberto Eco.

A magnífica Basílica de Santa Croce, em Florença, é uma das construções franciscanas mais antigas. Lá também, embora a propriedade pertença ao Vaticano, os Frades Menores administram o local há oito séculos, e o templo destaca-se como uma das igrejas mais ricamente decoradas da cidade. Não é preciso falar mais nada. Atrás do coro, a poucos passos dos túmulos de Michelangelo, Maquiavel, Galileu e Rossini, e resguardada da vista do público, uma pequena equipe de restauradores especializados trabalha desde 2022 para recuperar o esplendor do ciclo de afrescos de Giotto que adorna as paredes da Capela Bardi.

O projeto, liderado pelo Opificio delle Pietre Dure (uma instituição pública fundada no século XVI), tem conclusão prevista para setembro. Realizados entre 1317 e 1325 por um artista no auge de sua carreira, esses afrescos traduzem em imagens uma história oficial: aquela da Vida de São Francisco, escrita por São Boaventura por volta de 1260. Aqui, as referências remetem à lenda, mas será que isso realmente é tão importante? Tivemos a oportunidade de subir nos andaimes e observar as pinturas de perto, e nos tocaram profundamente. Afinal, nenhum ser humano, seja um simples pecador ou o mais santo dos santos, é realmente dono de seu próprio legado.

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