Roraima: tráfico de seres humanos. Artigo de Gianni Bordin

Foto: Reprodução/Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

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26 Agosto 2026

Uma Comissão Especial do episcopado brasileiro "está se tornando uma referência nacional no combate ao tráfico de pessoas, integrando prevenção, assistência, articulação em rede, impacto político e espiritualidade".

O artigo é de Gianni Bordin, frade Capuchinho, publicado por Settimana News, 26-08-2026.

Eis o artigo.

No meu artigo anterior sobre a 8ª assembleia do povo Yanomami em Roraima (Brasil), discuti alguns problemas enfrentados pelos indígenas da Amazônia.

Dom Evaristo, bispo de Boa Vista, estava presente nessa assembleia. Encontrei-me com ele alguns dias depois para uma entrevista com Raffaele Luise, correspondente do Vaticano, sobre o tráfico de seres humanos em Roraima.

Para nos ajudar a compreender a dimensão do problema, Dom Evaristo nos deu um vídeo e um folheto em português produzidos pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Será que as fronteiras realmente existem?

O estado de Roraima está localizado no extremo norte do Brasil, fazendo fronteira com a Guiana Britânica a leste e com a Venezuela ao norte. Desde 2017, Dom Evaristo nos contou que têm ocorrido fluxos migratórios significativos da Venezuela para o Brasil e do Brasil para a Guiana, a caminho de outros destinos.

Recentemente, o fluxo migratório diminuiu um pouco, embora somente em Pacaraima (cidade em Roraima, na fronteira com a Venezuela), cerca de 250 pessoas cruzem a fronteira venezuelana todos os dias.

"Mas será que as fronteiras realmente existem?", pergunta a Irmã Terezinha no vídeo. A questão nos leva a refletir: para o capitalismo global, as fronteiras existem ou não? É justamente sobre isso que quero escrever aqui: o tráfico de seres humanos e as fronteiras que existem apenas para os seres humanos.

É claro que este não é um problema exclusivo dos povos sul-americanos; problemas sociais relacionados à migração existem em todos os lugares, até mesmo em nossas periferias europeias, especialmente nos dias de hoje. Mas é a audácia dos criminosos e a impunidade que eles mantêm — tudo isso aliado à cumplicidade do Estado e das forças policiais — que nos deixa perplexos a cada vez.

O mal é o mal, e a Igreja o condena e se opõe a ele em todos os lugares. Mas nessas terras esquecidas, o número inimaginável e chocante de criaturas de Deus submetidas à violência brutal e condenadas à exploração para a riqueza de poucos escolhidos faz sangrar as almas daqueles que escolheram ouvir, ver e tocar as feridas do mundo.

No vídeo, Dom Evaristo nos exorta a garantir que o processo de denúncia faça parte da luta contínua de uma Igreja que busca ser "sem fronteiras": o objetivo é disseminar o conhecimento sobre o problema do tráfico de pessoas "universalmente" para gerar conscientização global. Aqui também.

A atuação das Igrejas brasileira e venezuelana

As Igrejas brasileira e venezuelana já estão abordando a questão não apenas com palavras, mas com ações concretas e denúncias explícitas: "É e será nosso compromisso", afirma o bispo, "continuar lutando para que a política de Estado também a aborde, condenando finalmente os traficantes 'predatórios' e aqueles que 'farejam' a fragilidade e a vulnerabilidade dos pobres e desempregados na migração, que muitas vezes caem nas armadilhas da exploração, atraídos por promessas tentadoras."

Os traficantes, na verdade, estudam suas vítimas, compreendem sua vulnerabilidade e as aprisionam psicológica e emocionalmente. E têm liberdade para cometer qualquer tipo de violência contra essas pessoas. Portanto, qualquer atividade desprezível que torne as pessoas dependentes e manipuláveis ​​constitui uma justificativa para o tráfico de pessoas: o roubo de documentos, o endividamento, o isolamento de famílias, contatos e redes de apoio e proteção.

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E qualquer atividade política que explore o medo da população do país anfitrião para obter ganhos eleitorais é igualmente predatória e moralmente abusiva, sem jamais sujar as mãos: mas sujar as almas, sim! Antes de se manifestarem contra os imigrantes, esses políticos deveriam ter vivenciado a guerra, a fome, a pobreza, a violência contra suas filhas, suas esposas... a exploração do trabalho e as ruas como um lar.

Não é estranho que aqueles que pregam contra a imigração sejam precisamente os que deveriam ter a tarefa e o poder político para abordar o problema na sua raiz, se não por serem "cristãos", pelo menos por serem "justos"? Mas sabemos como as coisas funcionam: os votos são conquistados alimentando os problemas, não resolvendo-os, pensando apenas em si mesmos para garantir apoio vitalício.

Corrida do Ouro

Dom Evaristo explica que, após obterem os primeiros documentos para entrar no Brasil pela fronteira, os migrantes continuam sua jornada por vilarejos e cidades, dormindo nas ruas, trabalhando, sem qualquer regularidade, em fornos a carvão, em fazendas e em casas particulares, explorados sem prazo determinado, por salários baixíssimos, mal suficientes para comprar algo para comer para si e suas famílias: é a oferta de "migalhas" para evitar a fome. Desumano.

Não são apenas migrantes. As brasileiras são muito valorizadas no comércio sexual, inclusive na Venezuela. Para atraí-las, são enganadas e levadas a trabalhar como "cozinheiras" em garimpos ilegais. O que são garimpos? São depósitos de ouro ou diamantes; sua história está ligada aos conquistadores do século XVII, ávidos por ouro, que usavam escravos como mão de obra. Hoje, apenas o sistema tradicional de mineração mudou, enquanto os métodos violentos e escravistas dos conquistadores permaneceram essencialmente os mesmos, com a diferença de que agora os chefes, com grandes somas de dinheiro para investir, estão no comando.

O garimpero é o trabalhador rural. Ele tem entre 15 e 30 anos. Geralmente é analfabeto. Abandonou o trabalho no campo por causa de narrativas sedutoras que o induzem a submeter-se, contra a sua vontade, a condições de trabalho desumanas e a esbanjar seus parcos ganhos com álcool e mulheres, enriquecendo assim financistas, empresários, donos de máquinas, pilotos de táxi aéreo, comerciantes e contrabandistas.

O ouro é enterrado a poucos metros de profundidade. Utilizando a força de jatos de água do proprietário da empresa ilegal, o solo é escavado, aproveitando-se da natureza geralmente friável do substrato florestal. Para aglomerar o pó de ouro coletado, o garimpeiro utiliza mercúrio, que possui a propriedade de ligar o mineral. São necessários quase 2 gramas de mercúrio para cada grama de ouro: parte dele é despejada em rios como resíduo do processamento, enquanto a separação final do metal precioso é feita com um maçarico em dois processos de refino sucessivos. Os vapores de mercúrio provenientes do processo de fundição permeiam o ar na forma de vapores que se condensam como chuva, contaminando pessoas, fauna e flora, mesmo em locais distantes das áreas de processamento.

Na água dos rios, porém, o mercúrio se transforma de um estado inorgânico para um estado orgânico, sendo assimilado por peixes e outros organismos vivos. Consequentemente, também é assimilado por seres humanos, causando diversas formas de intoxicação por ingestão ou inalação, podendo levar ao coma e à morte.

Mas qual é o papel das "cozinheiras" nos garimpos? Esse código — "cozinheira" — significa que a menina será explorada sexualmente. Os próprios pais das meninas — quando perguntados se sabem onde a filha está — respondem que ela está trabalhando como "cozinheira" no garimpo: uma forma de amenizar mentalmente uma situação trágica.

Estamos lidando com vítimas que exploram outras vítimas. Por essa razão, Dom Evaristo denuncia que a mineração não pode mais ser simplesmente definida como ilegal: "Na realidade, esses locais são pontos de narcotráfico para tráfico de drogas e armas, bem como tráfico de pessoas, com exploração sexual e lavagem de dinheiro". Quanto à luta do Estado contra o garimpo, considere que existem pelo menos oitenta pistas de pouso de terra para aeronaves ilegais em Roraima, enquanto o exército — que deveria fechá-las — dispõe de apenas duas. Uma luta desigual.

"Até mesmo as meninas Yanomami", denuncia a professora Marcia, "são frequentemente capturadas". Marcia fala em "captura" porque não se trata de "contratação", mas de captura propriamente dita. Muitas delas morrem em regime de escravidão. "Nesses garimpos, testemunhamos condições horrendas de exploração sexual." O mais incrível é que a mídia exalta aqueles que prosperam no garimpo . A opinião pública, por meio da mídia, tem, na verdade, uma visão muito positiva das pessoas que "possuem" negócios de mineração. É um lugar que oferece empregos! Um lugar de sucesso!

A sociedade geralmente não discute assuntos relacionados — muito pelo contrário! Pastoralistas e assistentes sociais brasileiros, no entanto, nos contam como o tráfico de pessoas existe em todas as suas formas e explicam como a "rede" está organizada: uma rede de sequestros, adoções ilegais, tráfico de órgãos e até leilões de meninas virgens. É chocante: a vida se transformou em um mercado! Em comércio.

Uma escravidão sutil

No Brasil, o conceito de uma criança ou filha conhecida como "criação" é muito comum. Trata-se de meninas e meninos que são parentes ou vizinhos e perderam os pais por motivos tão diversos e desesperadores. Muitas famílias de certa condição econômica se aproveitam desse "direito consuetudinário". Elas viajam até comunidades indígenas ou bairros pobres na periferia das cidades para contratar, com uma pequena oferta de presentes, uma menina para cuidar de seus filhos menores como "babá", mas, em muitos casos, também para um trabalho semelhante à escravidão.

No vídeo, Socorro Santos descreve como uma menina foi levada e trancada em uma prisão particular junto com outras mulheres e meninas. Ela era espancada porque se recusava a ir ao bordel. Outra menina sequestrada lhe disse que, se ela não fizesse o "trabalho", colocariam uma pedra em seu pescoço e a jogariam no lago para matá-la: "Já tem várias meninas lá dentro"; "ou vão te matar e arrancar seus olhos".

Como frequentemente acontece em todo o mundo, as vítimas de exploração sexual são enganadas com promessas de trabalho ou de uma vida melhor e, em seguida, forçadas à prostituição. Elas são recrutadas por meio de promessas e enganos, muitas vezes utilizando a internet e as redes sociais, explorando vulnerabilidades socioeconômicas e psicológicas, e usando estratégias de coerção e ameaças.

No Brasil, mais de 60 mil casos foram denunciados desde 1995. No entanto, muitas vítimas permanecem invisíveis, desconhecidas e acabam no tráfico de órgãos e na escravidão sexual. Redes criminosas e máfias internacionais facilitam sua entrada irregular em outros países, atuando como guias clandestinos, o que impossibilita a coleta de dados.

Atualmente, aproximadamente dois casos de estupro são registrados a cada hora no Brasil, com alta probabilidade de subnotificação. Embora a legislação brasileira — mas somente desde 2016 — defina e puna o tráfico de pessoas com penas que variam de quatro a oito anos de prisão, o mercado continua alimentando o problema, impulsionado por um sistema que transforma pessoas em mercadorias. Pobreza, patriarcado, racismo e injustiças estruturais aumentam a vulnerabilidade das vítimas, especialmente mulheres pertencentes a minorias.

Os principais objetivos do tráfico de pessoas são a exploração sexual, o trabalho forçado, a escravidão, a servidão por dívida, as adoções ilegais e o tráfico de órgãos. As vítimas são tratadas como objetos e privadas de toda dignidade e liberdade. As causas são estruturais: pobreza, discriminação e desigualdade.

Contramedidas

Por essa razão, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil instituiu a Comissão Especial de Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEETH-CNBB). Essa comissão promove a integração entre grupos civis e religiosos no combate ao tráfico de pessoas. Ela incentiva a cooperação entre as Igrejas dos locais de origem e destino das vítimas e promove o acolhimento e a reintegração por meio de ações de conscientização e prevenção; desenvolvimento de campanhas educativas, disseminação de materiais informativos e oferta de cursos de capacitação para alertar sobre os riscos e sinais do tráfico de pessoas.

Organizar conferências escolares, reuniões comunitárias e disseminar diretrizes práticas de prevenção. Oferecer assistência. Educar as comunidades para acolherem as vítimas com respeito e sem julgamentos, atendendo às necessidades imediatas, como nutrição, saúde e moradia. Encaminhá-las a redes sociais e de saúde. Promover parcerias com agências e organizações públicas para garantir atendimento integral e seguro às vítimas.

Ao influenciar políticas e participar no desenvolvimento de planos nacionais, estaduais e municipais de combate ao tráfico de pessoas; ao pressionar governos e parlamentos para que priorizem o combate ao tráfico e a proteção das vítimas; ao incentivar a denúncia de casos de tráfico por meio de canais oficiais; ao enfatizar a importância de fornecer informações detalhadas e manter o sigilo profissional; ao propor um Dia Mundial de Oração e Reflexão sobre o tema e ao fortalecer o compromisso cristão com a dignidade e a liberdade de todo ser humano.

A CEETH-CNBB está se tornando uma referência nacional no combate ao tráfico de pessoas, integrando prevenção, assistência, articulação em rede, impacto político e espiritualidade.

Meus sinceros votos de apoio e orações a Dom Evaristo e à Comissão por sua luta não violenta e coragem no combate ao tráfico de seres humanos. Que essa coragem converta corações e os preencha com o amor de Cristo.

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