Sob as ordens do Comando Sul

Donald Trump observa uma demonstração militar. (Foto: Daniel Torok/The White House/Flickr)

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21 Agosto 2026

“As Forças Armadas de 19 países da região, cujo propósito primordial deveria ser a defesa da soberania, servirão para estabelecer o domínio imperial dos Estados Unidos em nossos territórios. O sequestro do presidente venezuelano em janeiro de 2026 e a instalação de um governo fantoche a serviço de Washington são um exemplo claro dos planos da Casa Branca para a América Latina”.

A reflexão é de Julián González Guyer, doutor em Ciências Políticas, em artigo publicado por Brecha, 14-08-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Um comunicado de imprensa do Comando Sul dos Estados Unidos anunciou em 4 de agosto a ativação da Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (JTF-WHEM). Com isso, reafirma seu “compromisso com uma abordagem de governança multinacional e abrangente para a defesa da pátria [estadunidense], o fortalecimento das parcerias regionais e a promoção de um Hemisfério Ocidental seguro, estável e próspero” (tradução do autor).

Embora a notícia tenha passado praticamente despercebida pela imprensa uruguaia, a importância dessa notícia é inegável: Washington está organizando as forças militares da região para defender seus interesses. Vale a pena estar atento não apenas ao que o Comando Sul informa, mas também ao que omite.

Para isso, é importante considerar o contexto em que o anúncio aparece. Vejamos. Em novembro de 2025, o presidente Donald Trump lançou sua Estratégia de Segurança Nacional. A Estratégia Antiterrorismo foi publicada pela Casa Branca em maio de 2026. Em julho passado, aconteceu a “cúpula do antiterrorismo” convocada pelo secretário de Estado Marco Rubio. A ofensiva política de Trump visa desmantelar os remanescentes do Estado de bem-estar social e suas expressões ideológicas, juntamente com o arcabouço jurídico do sistema internacional pós-Guerra Fria. Na América Latina, busca interromper o tímido progresso alcançado pela chamada onda rosa posterior ao colapso do Consenso de Washington.

Assim, é extremamente significativo que, pela primeira vez na história, os Estados Unidos estejam construindo uma força militar operacional que organiza as forças armadas de 19 países (a Colômbia aderiu ontem, quinta-feira) sob seu comando. Isso não pode ser minimizado. Não se trata mais de um tratado, como o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca ou a Aliança Atlântica (OTAN). Estamos testemunhando a realização do antigo sonho de uma força militar panamericana em ação.

De fato, o comunicado de imprensa afirma que a referida força-tarefa militar foi ativada por uma diretiva do chefe do Comando Sul, o general do Corpo de Fuzileiros Navais Francis L. Donovan, que indica ter um “objetivo específico” que, no entanto, define com generalidades sugestivamente imprecisas: “sincronizar as operações militares dos EUA para enfrentar ameaças, fortalecer a segurança regional e responder rapidamente a crises no Hemisfério Ocidental”.

Além disso, o comunicado de imprensa informa que a nova unidade é comandada pelo major-general do Corpo de Fuzileiros Navais Kevin Jarrard, que liderou o apoio militar à operação enviada pelo Departamento de Estado à Venezuela após os terremotos de 24 de junho.

A nova força-tarefa proporciona comando e controle unificados nos níveis tático e operacional, integrando as capacidades militares dos agora 19 países da chamada Coalizão Anticartel das Américas (Americas Counter-Cartel Coalition). Dessa forma, sem citá-los nominalmente, o Comando Sul se refere aos 18 governos latino-americanos alinhados às políticas do presidente Trump que participaram da cúpula realizada em Doral, Flórida, em 7 de março, à qual a Colômbia foi integrada após a posse, na última sexta-feira, do seu novo presidente, Abelardo de la Espriella.

O Comando Sul afirma que a nova força militar regional, sob o comando dos EUA, aumentará a eficácia operacional contra “ameaças que afetam a segurança regional e impactam os Estados Unidos e seus países parceiros” e fortalecerá a capacidade do Comando Sul de “responder rapidamente a contingências e crises humanitárias na região”. Além disso, afirma que existem “atores malignos” que “ameaçam a segurança nacional dos EUA, bem como desestabilizam a região e exploram populações vulneráveis”.

Além disso, o chefe do Comando Sul afirmou que a “JTF-WHEM fortalece nosso trabalho conjunto com aliados e parceiros de confiança, sincroniza as capacidades militares e aplica pressão constante contra redes que ameaçam a nossa segurança coletiva”. O general Donovan concluiu que “juntos, aumentamos a segurança na região e protegemos nossa pátria”.

Assim, “como quartel-general do Comando Sul para operações em toda a região, a JTF-WHEM inclui tarefas de inteligência, vigilância e reconhecimento, planejamento operacional e coordenação multinacional com o objetivo de aumentar a pressão sobre organizações maliciosas que operam em todo o hemisfério”.

O anúncio do Comando Sul ocorre apenas 15 dias após a reunião amplamente divulgada de representantes de 66 governos de três continentes, convocada por Rubio em 16 de julho em Washington. Nessa reunião, ele proferiu um discurso inflamado contra a suposta ascensão do “terrorismo de esquerda”, perpetrado por “grupos políticos seculares violentos cuja ideologia é antiamericana, radicalmente pró-transgênero e anarquista”, conforme definido pela Estratégia do Antiterrorismo publicada pela Casa Branca em maio de 2026. Nesse encontro, também foi anunciado o lançamento de uma convocatória para grupos europeus afiliados ao movimento MAGA (Make America Great Again), oferecendo subsídios de até US$ 3 milhões para financiar atividades que promovam os “laços civilizatórios” entre os Estados Unidos e a Europa.

Na América Latina, esses subsídios são concedidos diretamente a governos pró-Trump, como foi o caso da Argentina sob Javier Milei e, mais recentemente, da Colômbia, cujo presidente recém-eleito recebeu um pacote de US$ 1 bilhão. Um verdadeiro Plano Colômbia II visa “fortalecer as forças de segurança da Colômbia em nossa luta conjunta contra organizações terroristas estrangeiras e organizações criminosas transnacionais”, o que inclui tecnologia, otimização dos gastos com defesa, interoperabilidade e “realização de operações coordenadas com as forças dos EUA”. Embora, neste caso, a aprovação da verba deva passar pelo Congresso, a tragédia do recente terremoto, além de gerar uma ajuda suplementar de US$ 15,5 milhões, agilizará o processo de aprovação.

Para decifrar as missões da recém-formada Força-Tarefa Conjunta para o Hemisfério Sul, vale a pena também rever a apresentação do general Donovan, em 17 de março, perante o Comitê de Serviços Armados da Câmara dos Representantes dos EUA. Isso permite uma compreensão mais clara das missões dessa nova entidade, que, na realidade, nada mais é do que a concretização do antigo sonho panamericano de uma força militar regional articulada sob o comando do Pentágono.

Mais uma vez, Washington definiu que o inimigo em nossa região é interno. Portanto, essa força militar, que, segundo o comunicado de imprensa do Comando Sul, já está operacional, terá como alvo as “13 organizações terroristas estrangeiras que realizam campanhas de terror, violência e corrupção” na América Latina. O general Donovan refere-se a essa tarefa como “nossa área de responsabilidade”. Além disso, ela serve aos objetivos da Estratégia de Segurança Nacional de Trump para essa região, que visa colocar os recursos naturais e enclaves estratégicos da América Latina à disposição e sob o controle dos Estados Unidos.

As Forças Armadas de 19 países da região, cujo propósito primordial deveria ser a defesa da soberania, servirão para estabelecer o domínio imperial dos Estados Unidos em nossos territórios. O sequestro do presidente venezuelano em janeiro de 2026 e a instalação de um governo fantoche a serviço de Washington são um exemplo claro dos planos da Casa Branca para a América Latina.

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