Argentina. Outros interesses de Peter Thiel após sua chegada em Vaca Muerta: Super-RIGI, data centers e empresas de automação

Peter Thiel. (Foto: Gage Skidmore/Flickr)

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19 Agosto 2026

A aquisição de uma participação de US$ 76 milhões na Vista Energy é apenas a face visível de uma estratégia mais ampla do magnata da tecnologia no país. Desde sua chegada a Buenos Aires, ele tem se envolvido em incentivos para promover a inteligência artificial na Patagônia e em uma reforma corporativa que permitiria a gestão de empresas por algoritmos, sem a presença de funcionários humanos.

A reportagem é de Mauricio Caminos, publicada por El Diario, 18-08-2026.

A notícia de que Peter Thiel adquiriu uma participação na Vista Energy, de Miguel Galuccio, é apenas a ponta do iceberg da chegada do magnata da tecnologia à Argentina de Javier Milei. Os interesses do dono da Palantir vão muito além do setor petrolífero. Desde que desembarcou em Buenos Aires no fim de abril, o cofundador do PayPal se reuniu com o presidente, o ministro das Relações Exteriores Pablo Quirno, os ministros Luis Caputo e Federico Sturzenegger e o presidente do Banco Central, Santiago Bausili, enquanto seu nome começou a surgir em conexão com pelo menos três iniciativas governamentais diferentes.

O primeiro é o chamado Super-RIGI, o regime de incentivo ao investimento que Milei anunciou em maio para atrair “setores que nunca existiram na Argentina” e que está atualmente em debate no Congresso. Diferentemente do RIGI existente, o novo regime estabelece um limite mínimo de investimento de US$ 1 bilhão e oferece incentivos fiscais, aduaneiros e cambiais por 30 anos. Visa conceder esses privilégios a indústrias de defesa, cibersegurança e processamento de dados sensíveis.

Relações de Peter Thiel na Argentina (Gráfico: Mauricio Caminos | El Diario | reprodução)

A segunda frente é a expansão de centros de dados de inteligência artificial na Patagônia, um setor que necessita, acima de tudo, de energia barata e abundante: exatamente o que a infraestrutura de gás e eletricidade que está sendo implantada ao redor de Vaca Muerta promete. Na província de Neuquén, no departamento de Confluencia, pelo menos dois projetos de grande escala estão em andamento: um da Tesla em parceria com a YPF Luz, e outro liderado pela OpenAI em conjunto com a desenvolvedora Sur Energy — fundada por Emiliano Kargieman — com um investimento anunciado de até US$ 25 bilhões.

A essa lista soma-se a empresa Puzzle, que considera instalar operações em Añelo ou Tratayén com o apoio do laboratório de inteligência artificial da Universidade de Buenos Aires e do MIT, e um projeto ligado à Pampa Energía, empresa de Marcelo Mindlin, para um centro de dados de 500 megawatts que exigiria o equivalente a 21,9% da geração anual da usina hidrelétrica de Yacyretá. Nenhum desses empreendimentos está atualmente registrado em nome de Thiel, mas todos se encaixam na tese que o tecnofascista vem disseminando em diversos fóruns: a de que o Ocidente negligenciou os "átomos" — a infraestrutura energética — em favor dos "bits", e que o próximo estágio da inteligência artificial dependerá de quem controla a energia.

A terceira e mais controversa frente é a reforma da Lei Geral das Sociedades Comerciais, que o governo enviou ao Senado em 1º de junho. O projeto de lei, defendido por Sturzenegger, cria dois novos tipos de sociedades comerciais na legislação argentina: as “sociedades automatizadas”, empresas que realizam suas atividades comerciais “por meio de sistemas algorítmicos autônomos ou agentes de inteligência artificial, sem a necessidade de funcionários na folha de pagamento”, e as organizações autônomas descentralizadas (DAOs), que operam por meio de contratos inteligentes e registros em blockchain.

A iniciativa passou a ser associada ao nome de Thiel depois que este jornal revelou que o empresário se reuniu em particular com o deputado Juan Grabois e expressou "interesse especial" em que a Argentina permitisse a constituição de empresas desse tipo. O governo negou qualquer ligação direta entre a reforma e as operações tecnológicas de Thiel, embora não tenha escondido a sua disposição em acolher qualquer empresa que decidisse constituir-se sob esse regime.

O projeto para sociedades automatizadas também gerou controvérsia, chegando às páginas do Financial Times. O historiador Yuval Noah Harari questionou a iniciativa, alertando que a inteligência artificial não é uma ferramenta neutra, mas sim um "agente" capaz de tomar decisões por conta própria, e comparou o risco de Milei transformar Buenos Aires em uma nova Batávia — referindo-se às companhias coloniais holandesas que detinham o poder sem controle estatal — em vez de uma nova Amsterdã. O próprio Milei reconheceu publicamente o impacto das críticas e levou dias para divulgar uma resposta por escrito.

As três frentes coexistem com uma rede de autoridades e empresários que facilitaram a entrada de Thiel no país, incluindo Sturzenegger, o assessor presidencial Santiago Caputo — chefe de fato da Secretaria de Inteligência — e o embaixador argentino em Washington, Alec Oxenford, cofundador da OLX. Essa rede convergirá em setembro na cúpula "Ventos de Mudança", organizada pela Liberty and Progress Foundation em conjunto com a Reason Foundation, sediada nos EUA, que será realizada nos dias 1 e 2 de setembro no Hotel Sheraton em Buenos Aires. O evento reunirá Thiel com os ministros Caputo e Sturzenegger.

A revelação do investimento de Thiel na Vista Energy teve um impacto imediato no mercado. Na segunda-feira, as ações da Vista Energy subiram 5,64% em Nova York, e seus recibos de depósito americanos (ADRs) avançaram 4,9%, para US$ 71,67, o maior valor em dois meses; no México, as ações subiram 5,5%. A alta se espalhou para outras empresas petrolíferas ligadas a Vaca Muerta: os ADRs da YPF subiram até 4,2%, segundo a Bloomberg.

A Vista produz cerca de 160 mil barris por dia, a maior parte dos quais é exportada, e está envolvida no projeto VMOS, o oleoduto e porto de exportação de petróleo de xisto com previsão de início de operação no próximo ano. A chegada de Thiel revela seu interesse particular no governo de Milei, onde até então ele desfrutava de influência irrestrita.

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