19 Agosto 2026
"Democracias fortes precisam construir identidades cívicas concretas, locais e emocionalmente carregadas que rivalizem com a identidade étnica sem replicar seu exclusivismo ou xenofobia", escreve Adolfo Silóniz, especialista em hierosfera e formado em Estudos Eclesiásticos, em artigo publicado por Religión Digital, 17-08-2026.
Eis o artigo.
Há fatos que, francamente, não podemos ignorar. Nas eleições para o Parlamento Europeu de junho de 2024, um em cada cinco jovens europeus entre 16 e 30 anos votou em partidos de extrema-direita. Na França, a Reunião Nacional já conta com 32% de apoio entre os menores de 35 anos. Na Alemanha, o AfD atrai um terço dessa faixa etária. Na Espanha, a porcentagem de jovens de 18 a 24 anos que pretendem votar no Vox subiu de 21% em 2023 para 39% em 2025. O apoio a partidos de extrema-direita dobrou em toda a Europa entre 2008 e 2024.
Esses números, porém, mascaram geografias distintas e perfis bastante diversos. O caso de um jovem de um cinturão industrial desindustrializado em Manchester não é o mesmo que o de um estudante universitário em Madri que publica conteúdo provocativo no TikTok. Podemos dizer que o que os une, mais do que uma ideologia estruturada, é uma certa disposição emocional. Qual é a realidade subjacente? Um profundo cansaço, uma marcada desconfiança nas instituições e a sensação de que a linguagem do sistema político é muito diferente da sua e, por vezes, até hostil.
Por outro lado, existe uma notável divisão entre os gêneros que muitas vezes passa despercebida. De modo geral, enquanto os jovens do sexo masculino tendem mais à extrema-direita, as jovens do sexo feminino tendem a ser mais progressistas. A disparidade ideológica entre os gêneros na Espanha, entre os menores de 28 anos, aumentou mais do que em qualquer outra faixa etária. Além disso, concentra-se quase exclusivamente na percepção da desigualdade de gênero no ambiente de trabalho. Estamos diante de uma polarização que não é apenas política, mas a transcende. O mundo é vivenciado de maneiras radicalmente diferentes dependendo do gênero.
A questão que este artigo pretende levantar não é a usual: "por que os jovens votam desta forma?", mas sim uma mais incômoda: o que a extrema-direita e seus movimentos culturais sabem fazer com os jovens que as instituições democráticas convencionais já não conseguem alcançar?
A resposta que vamos dar baseia-se na teoria dos jogos e no estudo científico da religião.
Rituais caros funcionam
Como se constrói a confiança em grupos humanos? A teoria da evolução e a teoria dos jogos oferecem um conceito central para responder a essa pergunta: a sinalização custosa. Quando alguém deseja demonstrar genuína participação em um grupo e disposição para cooperar, simplesmente dizer isso não basta, pois palavras são baratas. O que constrói a verdadeira confiança é que o custo é difícil de fingir, que a ação envolve sacrifício, risco, tempo, dor ou renúncia e que, portanto, apenas aqueles verdadeiramente comprometidos com o grupo estão dispostos a pagar o preço.
Durante milênios, a religião tem sido o sistema de sinalização mais sofisticado e custoso produzido pela cultura humana. Vejamos alguns exemplos mais contraintuitivos, pois são os mais reveladores.
O jejum durante o Ramadã não é meramente a abstinência de alimentos, mas também um sinal público, sincronizado e coletivo de pertencimento que ressoa até mesmo em contextos seculares, porque seu custo é verificável e sua sincronia social fomenta a confiança entre todos os que o praticam. O celibato sacerdotal e a castidade religiosa são sinais extraordinariamente custosos. Renunciar à reprodução é o custo biológico máximo possível, além dos custos emocionais envolvidos. O fato de alguém pagar esse preço voluntariamente significa um compromisso com a instituição que é crível precisamente por não ser racional.
Os exemplos estudados pelo pesquisador Dimitris Xygalatas também são contraintuitivos. Os rituais de alta intensidade do hinduísmo tâmil, como caminhar sobre brasas ou perfurar o corpo com varas durante o festival Thaipusam, não apenas motivam a devoção individual, mas também aumentam consideravelmente a cooperação econômica entre os participantes nas semanas seguintes ao festival. A tese é perturbadora: o sofrimento compartilhado produz capital social. A neurociência confirma que rituais sincronizados — mover-se juntos, sofrer juntos — liberam opioides e geram laços de apego semelhantes aos criados nos relacionamentos mais íntimos.
A conclusão a que se chegou é que a sinalização religiosa dispendiosa é mais eficaz do que a sinalização secular porque apela a normas percebidas como eternas e empíricas. Os valores seculares podem ser alterados, negociados e revistos, mas as normas sagradas não. E é essa natureza incondicional que as torna mais credíveis como garantia de compromisso.
O que a democracia liberal perdeu?
O problema das instituições democráticas liberais não é a perda do argumento racional, mas sim do ritual. Elas eliminaram o custo da filiação e aboliram a sinalização.
Os principais partidos de massa do século passado desenvolveram rituais de pertencimento altamente eficazes, como a militância, as células locais, as quotas sindicais, a participação em manifestações arriscadas, as leituras obrigatórias e os acampamentos ideológicos de verão. O Partido Comunista Espanhol, na sua luta contra a ditadura franquista, desenvolveu uma cultura de conexão tão poderosa que gerou identidade de uma forma quase sacramental. Os sindicatos do pós-guerra eram comunidades de prática com os seus próprios rituais eficazes: assembleias, greves de solidariedade e piquetes onde o frio não era obstáculo
Tudo isso praticamente desapareceu. Hoje, votar em um partido de centro-esquerda ou apoiar uma ONG climática não custa quase nada (a menos que você se acorrente a um petroleiro em movimento ou se junte a uma flotilha rumo a Gaza). Você pode fazer isso do seu sofá, com um clique, de forma completamente anônima e confortável. Não existe mais comunidade, nem ritual, nem sinalização; sem sinalização, não há confiança; sem confiança, não há cooperação sustentável.
A insatisfação política dos jovens não é apenas consequência de políticas públicas falhas — embora isso também seja importante. Acima de tudo, ela decorre de falhas institucionais e rituais. As instituições democráticas já não geram as experiências de pertencimento, sacrifício compartilhado e confiança mútua necessárias para que os grupos humanos funcionem de forma eficaz.
A extrema-direita como sistema de sinalização
Aqui reside o cerne da questão. A extrema-direita contemporânea, com toda a sua obscenidade intelectual e perigo para a democracia, redescobriu instintivamente — nem sempre conscientemente — os custosos mecanismos de sinalização que geram profunda adesão.
Analisaremos os principais mecanismos.
Narrativas épicas
A extrema-direita oferece aos seus seguidores mais do que uma plataforma; oferece um mito: nossa civilização ameaçada, o povo traído, o momento decisivo da história. Esses mitos épicos cumprem a função psicológica de imbuir ações comuns de significado transcendente. Quando você vota na extrema-direita, não está escolhendo uma política fiscal, mas sim travando a batalha final por sua cultura, sua família, sua identidade. Quanto maior a escala épica da narrativa, maior o valor simbólico do sinal.
Identificar e confrontar um inimigo poderoso
Esta é talvez a tática mais sofisticada. A extrema-direita nunca aponta para inimigos fracos ou insignificantes, mas sim para inimigos formidáveis, como a elite globalista, a Grande Substituição, os altos funcionários da UE, o Estado profundo. Por quê? Porque quanto mais poderoso o inimigo, maior o custo de confrontá-lo e, consequentemente, maior o sinal de compromisso que esse confronto representa. Opor-se a algo fácil, algo que não custa nada, não significa nada e não vale nada. Opor-se ao que supostamente poderia custar seu emprego, sua reputação ou sua liberdade aumenta drasticamente o valor do sinal.
A exaltação da identidade
A identidade, seja étnica, nacional ou cultural, funciona como uma estrutura de sinalização porque diferencia claramente o grupo interno (aqueles a quem o sinal é direcionado) do grupo externo (aqueles que são excluídos e discriminados). Os rituais só geram confiança quando os receptores compartilham o código. A identidade da extrema-direita cria um receptor com muito mais clareza do que as identidades difusas do cidadão cosmopolita.
Provocação custosa
Aqui reside a chave mais negligenciada. Dizer em voz alta algo que "não pode ser dito", expressar ideias malvistas e desafiar tabus progressistas tem um custo real — desaprovação social, cancelamento, estigmatização — e esse custo faz dessas transgressões um sinal custoso. Para um jovem de 19 anos, colocar um adesivo do Vox no laptop ou defender Franco, Marine Le Pen, Abascal ou Meloni em uma conversa na universidade significa arriscar a rejeição dos colegas. Esse risco é o sinal. E o sinal gera um senso de pertencimento.
Mitologia e espiritualidade profana
Nos círculos da extrema-direita, abundam referências à mitologia pagã nórdica, evocações do Império Romano e o conceito de Tradição no sentido nefasto de Júlio Evola. Isso não é coincidência. Esses elementos não são meros adornos estéticos, mas sim verdadeiros equivalentes funcionais da transcendência religiosa, reforçando o movimento com uma dimensão sagrada sem invocar qualquer deus.
As questões antropológicas que tudo isso levanta são inquietantes: Será que a extrema-direita está atuando como uma hierosfera substituta para jovens que cresceram em ambientes dessacralizados? Será que está preenchendo o vazio deixado por grandes narrativas seculares — como o progressismo, o internacionalismo e a fé na ciência — quando estas perderam a capacidade de gerar uma comunidade coesa e eficaz?
O custo como característica da autenticidade geracional
Existe uma dimensão geracional que merece atenção especial. A Geração Z cresceu em um mundo onde a autenticidade é o valor supremo, mas também onde a performance da autenticidade é onipresente e, portanto, suspeita. As redes sociais criaram uma economia de sinalização barata. Qualquer pessoa pode adicionar uma pose relacionada a uma causa à sua foto de perfil ou assinar uma petição online. Os sinais baratos que aparecem em todos os lugares desvalorizaram todos os outros.
Nesse contexto, o tipo de humilhação pública que acarreta um custo real — ser apontado, ter que defender uma posição contracultural, arriscar algo — adquire um valor diferenciador no mercado da autenticidade juvenil. É importante notar que muitos jovens que gravitam em direção à extrema-direita a descrevem precisamente como um ato de rebeldia contra o politicamente correto. No imaginário juvenil, o politicamente incorreto possui uma aura de autenticidade que o politicamente correto — que se tornou a posição dominante nos ambientes educacionais, midiáticos e culturais — já não consegue mais reivindicar.
Este é um dos paradoxos mais perturbadores do nosso tempo. Historicamente, a rebeldia juvenil se expressava como uma ruptura com a ordem conservadora; agora, em certos contextos, manifesta-se como uma ruptura com o consenso progressista. Isso não ocorre porque os jovens sejam inerentemente conservadores, mas porque o conservadorismo radical hoje acarreta um custo maior em termos de imagem pública e, portanto, exige um grau maior de validação.
Desafios para as instituições democráticas
A questão que se segue de tudo o que foi dito acima certamente não é retórica, mas sim premente: podem as instituições seculares atuais — partidos políticos, sindicatos, universidades, movimentos civis — incorporar mecanismos de sinalização equivalentes e dispendiosos sem incorrer em regressão ética ou religiosa? A resposta é sim, mas isso exige muita honestidade sobre o que foi perdido e uma coragem e determinação notáveis para recuperá-lo.
Propomos algumas linhas de ação:
Resgatando rituais na prática política
As instituições democráticas precisam definir e propor rituais que envolvam tempo, presença física e esforço real. Votar a cada quatro anos já não basta. A participação em assembleias de bairro, o ativismo local e o serviço cívico obrigatório — uma fórmula que vários países europeus estão explorando — são mecanismos necessários para gerar o tipo de experiência compartilhada na qual se baseia a confiança.
Criar comunidades de prática que envolvam compromissos verificáveis. Movimentos como Fridays for Future, 15M e Black Lives Matter geraram apoio inicial massivo justamente porque envolviam ir às ruas, expor-se e assumir riscos. Quando essa mobilização física desaparece e o movimento se torna virtual, a sinalização se torna mais barata e a coesão enfraquece. Instituições que aspiram a construir confiança sustentável precisam conceber compromissos com um custo real, significativo e verificável.
Oferecer narrativas intelectualmente honestas de escala épica
As mudanças climáticas, a ameaça à democracia e a desigualdade estrutural são crises e desafios de dimensão histórica — absolutamente reais, potencialmente convincentes e mobilizadores. Mas o discurso institucional tende a abordá-los com uma linguagem burocrática e tecnocrática que obscurece seu potencial épico. As instituições democráticas precisam recuperar a capacidade de narrar a história como algo que importa transcendentalmente, sem recorrer à demagogia ou à falsificação.
Apresente o custo como um sinal, não como um obstáculo. Aqui, a teoria dos jogos oferece insights precisos. A sinalização funciona quando o custo é percebido pelo grupo. Não basta que o ativismo envolva esforço; esse esforço precisa ser visível para a comunidade e gerar reconhecimento. O desenho institucional precisa pensar com mais cuidado em como tornar os compromissos reais visíveis.
Fortalecer a identidade sem cair no identitarismo excludente
A extrema-direita sabe explorar a necessidade humana por identidades claras e afiliações concretas e verificáveis. A resposta não pode se limitar a apelar para uma identidade cosmopolita abstrata que não consegue gerar um forte senso de pertencimento em quase ninguém. Democracias fortes precisam construir identidades cívicas concretas, locais e emocionalmente carregadas que rivalizem com a identidade étnica sem replicar seu exclusivismo ou xenofobia.
Uma questão que não pode ser evitada
Existe uma questão mais profunda subjacente a toda esta análise, e ela tem implicações diretas para aqueles de nós que trabalhamos no campo da filosofia da religião e da cultura contemporânea: estamos enfrentando uma crise do sagrado, ou uma reconfiguração do sagrado?
A teoria da hierosfera sustenta que o sagrado não desaparece, mas sim se transforma, se desloca e ocupa novos territórios. O processo conhecido como criptossacralização consiste precisamente na absorção, por fenômenos aparentemente seculares, das estruturas funcionais do sagrado, como a distinção entre o puro e o impuro, a comunidade dos escolhidos, o sacrifício como gesto fundacional e o inimigo como princípio de coesão.
Podemos reconhecer a extrema-direita juvenil como um fenômeno de criptossacralização. Não se trata de uma religião no sentido institucional, embora opere segundo as mesmas regras. E compreender essas regras não significa justificá-las, mas constitui o primeiro requisito para combatê-las com eficácia.
As sociedades europeias (e as sociedades americanas, onde o fenômeno está se espalhando) devem se esforçar para redirecionar essa tendência. Não podemos fazer isso apenas com argumentos racionais sobre o Estado de Direito ou os méritos da diversidade cultural. Precisamos recuperar a capacidade de gerar experiências de pertencimento, sacrifício compartilhado e confiança mútua que possam competir com aquelas efetivamente oferecidas pela extrema-direita. E isso exigirá repensar o desenho institucional a partir de outras áreas, como a antropologia e a teoria dos jogos, e não apenas da ciência política convencional.
Sejamos claros: os argumentos da democracia liberal são muito mais fortes do que os da extrema-direita. Mas argumentos por si só não bastam para vencer este importante desafio. A vitória será daqueles que conseguirem construir comunidades onde valha a pena pagar o preço que sustenta a identidade e a confiança.
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