17 Agosto 2026
Anos de enchentes em região petrolífera provocaram uma grave contaminação. Comunidades, cientistas e profissionais de saúde buscam soluções para a crise.
A reportagem é de Buster Emil Kirchner e Marco Simoncelli, publicado por DW, 16-08-2026.
A vila de Bentiu já passou por praticamente tudo. No norte do Sudão do Sul, perto da fronteira com o Sudão, a capital do estado de Unity tinha, no passado, apenas alguns milhares de habitantes. Guerra, violência e outras crises fizeram com que, desde 2013, outros 140 mil deslocados buscassem refúgio ali e passassem a viver num enorme campo.
Diversas agências da Organização das Nações Unidas (ONU), entre elas a Organização Internacional para as Migrações (OIM), o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), atuam no local e administram o chamado campo de Proteção de Civis (PoC, na sigla em inglês).
Crianças brincam num píer improvisado, enquanto canoas descarregam peixes para abastecer a população abrigada ali, onde os alimentos são escassos. A pesca é imediatamente separada: peixes frescos e saudáveis são colocados à parte daqueles considerados possivelmente contaminados.
Simon Gatkuoth, um morador do campo na faixa dos 40 anos, retira um peixe de um carrinho de mão. Ele diz que esses peixes estão contaminados e foram capturados nas proximidades dos campos de petróleo.
"Quando os cozinhamos, a sopa muitas vezes tem cheiro de penicilina", diz. "Mas não temos escolha. Não podemos parar de comer."
Águas da enchente não baixam
Vista do alto, a área do campo parece uma ilha artificial no meio de uma região que se transformou em algo semelhante a um imenso lago.
No norte do Sudão do Sul, comunidades predominantemente nômades adaptaram suas vidas às enchentes sazonais, que moldam a vida no Sudd, uma das maiores áreas úmidas sazonais do mundo.
Em 2021, uma enchente sem precedentes associada às mudanças climáticas inundou terras agrícolas em toda a região, destruiu meios de subsistência e matou milhares de cabeças de gado.
Um ano antes, autoridades de Uganda, país vizinho, já haviam alertado que o aumento do nível das águas do Lago Vitória, localizado cerca de mil quilômetros ao sul, levaria grandes volumes de água ao Nilo Branco, que também passa por Bentiu.
Como o rio apresenta pouca declividade na região, a água se espalha em vez de seguir para o norte. As mudanças climáticas favorecem chuvas intensas em Uganda e, ao mesmo tempo, alteram os solos do Sudd, reduzindo sua capacidade de absorver água.
Mas o Sudão do Sul, um dos países mais pobres do mundo, não possuía diques, sistemas de contenção de enchentes nem infraestrutura de gestão hídrica capazes de enfrentar uma inundação dessa magnitude. Muitas comunidades ficaram completamente expostas. Até hoje, as águas não recuaram.
Crise em região petroleira
Um simples dique mantido pela OIM é tudo o que separa o campo da planície alagada. Sem manutenção constante, ele provavelmente cederia à pressão da água.
A população aparenta exaustão. Deslocadas pela guerra e atingidas pelas enchentes, a maioria das pessoas depende de ajuda humanitária. Elas vivem entre níveis de água que continuam altos e conflitos que permanecem sem solução.
Nos últimos anos, surgiu mais uma crise. As enchentes de 2021 se combinaram com um grave problema ambiental: o estado de Unity é a principal região produtora de petróleo do Sudão do Sul.
O petróleo responde por mais de 90% das receitas do governo e por quase todas as exportações do país. Trata-se de um setor vital para uma economia já fragilizada, especialmente após a guerra no vizinho Sudão afetar severamente a atividade econômica regional.
O fluxo nos oleodutos diminuiu drasticamente, e muitas reservas permanecem inexploradas ou subutilizadas.
Petróleo e água não combinam
Durante as enchentes de 2021, 159 dos mais de 400 poços de petróleo da região ficaram submersos. É o correspondente a cerca de 41% da infraestrutura petrolífera local.
Em parceria com a organização PlaceMarks Africa, que utiliza imagens de satélite para desenvolver soluções para desafios atuais no continente, a DW constatou que mais de 50 desses poços continuam submersos até hoje.
A situação preocupa moradores e ambientalistas. Rios e lagos essenciais para o abastecimento de água potável, preparo de alimentos e pesca para centenas de milhares de pessoas parecem ter sido contaminados pelos campos petrolíferos.
A longo prazo, tanto os ecossistemas quanto a saúde da população podem sofrer consequências.
"Muitos animais estão morrendo por causa dessa poluição, e as pessoas também apresentam sintomas que atribuem a ela. Tudo isso é visível, mas ainda não dispomos de provas suficientes ou de estudos epidemiológicos para afirmar isso com certeza", afirma o pesquisador Marko Gatkuoth, do Rift Valley Institute, organização independente de pesquisa que atua principalmente na África Central e Oriental.
"A enchente que começou há mais de quatro anos tornou-se um vetor de poluição. Ela mobilizou os contaminantes."
"Negligência", diz pesquisador
Bul Duot Kuer, pesquisador sul-sudanês da Universidade Kenyatta, no Quênia, realizou extensas pesquisas sobre os impactos ambientais da extração de petróleo em Unity.
Em um estudo recente, ele identificou concentrações de chumbo de até 18 microgramas por litro nos rios ao redor de Bentiu e da vizinha Rotriak, quase o dobro do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). As concentrações de hidrocarbonetos na água eram superiores a cinco vezes os valores máximos recomendados.
"A água é o elemento mais contaminado", afirma Kuer. "Não existem controles. As leis ambientais existem no papel, mas não são aplicadas. Isso é negligência. O governo e as empresas petrolíferas não se preocupam com a saúde das pessoas."
As águas ao redor de Rotriak estão entre as mais afetadas pela poluição. Imagens de satélite analisadas pela PlaceMarks revelaram oleodutos, poços e instalações abandonadas espalhados pela região.
Ali, crianças brincam entre canos enferrujados e mulheres lavam roupas junto a uma antiga lagoa de retenção de resíduos da indústria petrolífera. A moradora Anna Nyashing Bul contou à DW que ela e sua família fugiram para Rotriak porque "era o único lugar que permaneceu seco após as enchentes de 2021".
A água não tratada de que dependem frequentemente apresenta "uma película preta na superfície", diz ela, acrescentando que sua família adoeceu repetidamente. "Mas não tínhamos outra coisa para beber."
Defeitos congênitos e abortos espontâneos
Enquanto isso, profissionais do Hospital Estadual de Bentiu relatam aumento no número de crianças que nascem com malformações. Parteiras entrevistadas pela DW afirmam ter observado crescimento aparente no número de abortos espontâneos, partos complicados e anomalias congênitas nos últimos anos, especialmente entre mulheres oriundas de áreas próximas aos campos petrolíferos.
Nyapuka Nios, de 19 anos, moradora de Rotriak, deu à luz há poucos dias. Seu bebê nasceu com malformações nas mãos e no lábio superior. "Não sei o que será dele", sussurra.
Em outro quarto do hospital, Nyekal Nuok cuida da filha recém-nascida, que veio ao mundo cinco dias antes com espinha bífida, uma malformação da coluna vertebral. Ela também viveu em Rotriak durante a maior parte da gravidez.
Pesquisas anteriores indicam que mulheres que vivem próximas a áreas de exploração de petróleo têm maior probabilidade de dar à luz crianças com malformações congênitas.
Dorgan Patai, responsável pelos serviços de saúde do distrito de Rubkona, afirma observar a mesma tendência. "Desde as enchentes, temos registrado mais abortos espontâneos e mais crianças nascendo com deformidades", diz. "No longo prazo, isso pode inclusive levar à infertilidade."
Até o momento, porém, não foi conduzida uma investigação abrangente capaz de determinar o papel da poluição ambiental nisso. Segundo a OMS, dados rotineiros não apontaram um aumento estatisticamente significativo de casos.
Sem apoio suficiente
Poucas pessoas pressionaram tanto as autoridades do Sudão do Sul a responder pelas consequências ambientais da exploração de petróleo quanto Ayen Mijok Kiir, primeira vice-presidente do Conselho dos Estados, a câmara alta do Parlamento sul-sudanês.
Ela acredita que anos de conflitos fizeram com que proteção ambiental e saúde pública caíssem na lista de prioridades nacionais.
"A alocação de recursos para diferentes setores enfrenta inúmeros desafios. Estamos sob pressão para priorizar a segurança. Mas, apesar desses desafios, deveríamos ter feito mais."
Após intensa mobilização, ela conseguiu convencer o presidente Salva Kiir, em 2024, a aprofundar as investigações sobre uma possível relação entre malformações congênitas e poluição associada ao petróleo. Apesar das frequentes reuniões ministeriais, porém, pouco parece ter mudado.
Quinze anos após a independência do país, ainda faltam padrões eficazes de monitoramento ambiental e de proteção à saúde nas áreas produtoras de petróleo do Sudão do Sul.
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