13 Agosto 2026
Cientistas e professores na Argentina estão realizando um dia de greves e protestos para rejeitar as medidas de austeridade implementadas pela extrema direita.
A reportagem é de Javier Lorca, publicada por El País, 13-08-2026.
Há quase 300 dias, o Congresso argentino aprovou uma lei para restaurar o financiamento do sistema universitário, cortado pelo governo de Javier Milei. Durante quase 300 dias, o presidente de extrema-direita se recusou a cumprir a lei. Primeiro, vetou-a, gerando algo raro no país: o Parlamento derrubando um veto do Executivo. Depois, tentou revogá-la por meio da lei orçamentária de 2026, mas os legisladores, renovados após as eleições de meio de mandato, votaram contra. Os tribunais intervieram e emitiram uma liminar ordenando ao governo que começasse a pagar os aumentos salariais e de bolsas de estudo previstos na lei. Mas Milei se recusou e recorreu. O caso chegou à Suprema Corte, e em junho passado, a mais alta corte do país confirmou a ordem de pagamento. Mesmo assim, o presidente não o fez.
Para exigir a implementação integral da lei de financiamento universitário, professores, pesquisadores, administradores e funcionários de universidades públicas participaram de greves e protestos nas principais cidades argentinas nesta quarta-feira. A ação coincidiu com os protestos nacionais contra os cortes orçamentários propostos por cientistas. "Visto a camisa em defesa da ciência e da educação públicas" foi o lema que levou os manifestantes a vestirem as cores da seleção argentina de futebol.
Em Buenos Aires, a manifestação concentrou-se no Obelisco. “Não à destruição da ciência”, “Sem ciência somos uma colônia”, diziam algumas das faixas penduradas na cerca que circundava o monumento. “A terra não está à venda, nem o conhecimento”, dizia outra. Milhares de manifestantes ocuparam a Plaza de la República e bloquearam apenas parcialmente algumas faixas do movimentado cruzamento das avenidas Corrientes e 9 de Julio.
“Trabalhamos para gerar conhecimento e transferi-lo para a sociedade e o setor produtivo; acreditamos que isso beneficia a todos. Mas hoje não conseguimos; simplesmente não temos os recursos”, afirma Aníbal Lodeiro, professor e pesquisador do Instituto de Biotecnologia e Biologia Molecular da Universidade de La Plata. Ele tem 67 anos e afirma que o período atual é o pior para a ciência que já presenciou. “Já passamos por muitos momentos difíceis aqui. Nos anos 90, o governo nos mandou ‘lavar a louça’… Mas naquela época, a justificativa era unicamente orçamentária. Hoje, além disso, há um desprezo pelos cientistas como intelectuais. Há um desprezo por quem pensa de forma crítica e independente.”
Em uma tarde cinzenta e fria, a praça era um emaranhado de cartazes e faixas identificando organizações científicas, universidades, sindicatos, centros estudantis e grupos políticos. Sob o olhar atento de uma longa fileira de policiais que delimitava um dos lados da praça, professores, estudantes e pesquisadores protestavam pacificamente, vestindo camisetas, bandeiras, lenços e chapéus nas cores azul-claro e branco. “Ninguém é descartável aqui”, gritavam. Desde que Milei assumiu o cargo, o investimento público em ciência e tecnologia sofreu uma perda real de 45,7% de seus recursos, segundo o último relatório do Centro Ibero-Americano de Pesquisa Científica (CIITCI). Caiu de 0,298% do PIB em 2023 para 0,153% neste ano. No caso das universidades, o corte orçamentário foi de 24,4% no mesmo período.
“Presidente Milei, nós, os chamados terroristas, estamos reunidos aqui, usando canos, livros e giz como armas, e palavras e expressões nas ruas como nosso único escudo e proteção”, diz Valeria Levy, vice-reitora da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires, falando em frente ao Obelisco, com um megafone na mão. Suas palavras são uma resposta às recentes declarações do presidente, que afirmou que na Argentina existem “terroristas disfarçados de estudantes, terroristas disfarçados de jornalistas, professores e pesquisadores”. “Eles não serão capazes de nos derrotar”, adverte Levy.
A poucos metros dali, em uma das extremidades da praça, um grupo de pessoas exibe cartazes referentes à crise enfrentada pelo Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA). “Um país que não investe em ciência não pode avançar. Este não só não investe em ciência, como também não investe em educação”, lamenta Vanesa Ruiz, pesquisadora de 53 anos. Ela explica que a falta de recursos os impede de continuar a formação de seus colegas, comprar reagentes para laboratório ou fazer a manutenção de equipamentos de alta tecnologia. “Fico muito triste ao ver o declínio que está ocorrendo no INTA. Os jovens estão indo embora e os pesquisadores mais experientes estão aceitando pacotes de aposentadoria antecipada; estão indo para empresas privadas.”
Enquanto a comunidade científica se manifestava por todo o país, professores universitários realizaram um protesto de 24 horas na quarta-feira, que resultou em greves em diversas universidades. O governo Milei classificou a ação como “política” e “ilegítima”. O Ministério do Capital Humano, chefiado por Sandra Pettovello e responsável pela educação, emitiu um comunicado afirmando que está cumprindo suas obrigações com o sistema universitário, “tanto em relação aos hospitais quanto às negociações salariais e despesas operacionais das universidades”. Especificamente, enfatizou que “os aumentos salariais acordados estão sendo pagos de acordo com os valores, prazos e cronograma estabelecidos”.
“O governo só está contando metade da verdade”, afirma Daniel Ricci, líder da Fedun, uma das federações sindicais de professores. Antes de a Suprema Corte confirmar a liminar que obrigava o Poder Executivo a cumprir a lei de financiamento universitário, os sindicatos e as universidades já haviam garantido um aumento salarial de 24,4% por parte do governo. Esse foi o valor que o governo federal começou a pagar. “Agora que a decisão judicial é definitiva, eles têm que pagar o valor total estipulado por lei”, explica Ricci, acrescentando que “ainda é necessário um aumento de 29,5%”.
Caso esse novo aumento se concretize, os salários dos professores e demais funcionários da universidade recuperarão o poder de compra perdido devido à inflação desde dezembro de 2023, conforme previsto na legislação vigente.
Espera-se que o conflito continue. Na próxima semana, os sindicatos estão organizando novas ações, incluindo um protesto em frente ao Palácio Sarmiento, sede do Ministério da Educação, e manifestações simbólicas nas universidades.
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