A cruzada homofóbica na África está comprometendo a luta contra o HIV: "Enfermeiros e médicos têm medo e preferem não tratá-los"

Foto: Ubaid E. Alyafizi/Unplash

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12 Agosto 2026

Em Uganda, onde a lei prevê prisão perpétua para homossexuais, uma pesquisa revela que o acesso ao tratamento entre a população LGBTQ+ caiu de 72% para 58% nos últimos três anos.

A reportagem é de Joan Royo Gual, publicada por El País, 11-08-2026.

A onda conservadora que nos últimos anos endureceu as leis contra a população LGBTQ+ em países como Uganda, Senegal e Burkina Faso, e que ameaça fazer o mesmo em Gana, tornou-se mais um obstáculo na luta contra o HIV. Uganda é o exemplo mais grave, com uma lei aprovada há três anos que prevê prisão perpétua e até pena de morte em casos considerados de "homossexualidade agravada", que incluem relações com menores, pessoas com deficiência ou outras circunstâncias, como um dos indivíduos ser soropositivo.

A nova lei forçou milhares de pessoas à clandestinidade, pessoas que, até recentemente, ainda dependiam de uma rede de apoio formada por clínicas, ONGs e plataformas da sociedade civil. Um clima de medo se instalou, levando muitos a interromperem a busca por profilaxia pré-exposição (PrEP), um medicamento de uso diário. Somando-se à legislação homofóbica, há o problema dos cortes na ajuda internacional, que se agravou após o fechamento da USAID, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional.

Ruth Kikonyogo, pesquisadora e especialista em saúde pública da Plan International Uganda e da Save the Youth Uganda, disse a este jornal que os pacientes não estão mais indo ao hospital para obter os comprimidos. "E não é apenas uma questão LGBTQ+", afirmou. "Qualquer pessoa que os ajude pode acabar na prisão. Até mesmo enfermeiros e médicos têm medo e preferem não tratá-los. A maioria diz ser heterossexual para receber tratamento, mas alguns não querem mentir e deixaram o país."

Kikonyogo fala com apreensão da Conferência Internacional de AIDS realizada recentemente no Rio de Janeiro, onde apresentou um estudo sobre o impacto de leis homofóbicas nas políticas de HIV/AIDS. Ele confessa que, toda vez que sobe ao palco para fazer uma apresentação, mesmo estando a milhares de quilômetros de casa, observa atentamente a plateia, temendo que algum ugandense possa traí-lo. Devido à nova legislação em seu país, seu trabalho em defesa de grupos vulneráveis ​​pode ser classificado como "promoção da homossexualidade", crime passível de pena de prisão.

Apesar do risco, ela afirma que sua vida em Uganda não corre perigo extremo por ser heterossexual, mas muitos de seus colegas vivem nas sombras, praticamente invisíveis. “Ser gay em Uganda sempre foi difícil, mas desde que a lei foi aprovada, um clima de profunda desconfiança se instalou. Pessoas com quem tínhamos contato e que monitorávamos desapareceram. Muitas nem sequer confiam em nós”, diz ela.

Eles não vão mais ao hospital para pegar remédios, e isso não é um problema exclusivo da comunidade LGBTQ+. Qualquer pessoa que os ajude pode acabar na cadeia.

Conduzir o estudo não foi fácil para Kikonyogo, mas, entre outras descobertas, ele constatou que, entre a população gay, a mais estigmatizada dentro da comunidade LGBTQ+ em Uganda, o acesso ao tratamento do HIV caiu 14 pontos percentuais nos últimos três anos, passando de 72% para 58% dos entrevistados. Alguns dos 141 participantes iniciais (jovens gays) pararam de atender o telefone em algum momento por medo. Todos os indicadores de ansiedade, depressão e tentativas de suicídio aumentaram durante esse período.

Penalidades em Gana

Notícias semelhantes vêm de Gana, onde o Parlamento aprovou em maio um projeto de lei que, se finalmente promulgado pelo presidente John Mahama, endurecerá a legislação da era colonial sobre "contato carnal não natural", a ponto de contemplar penas de até 10 anos de prisão.

A pesquisadora ganense Akua Gyamerah liderou um estudo na Universidade de Buffalo (EUA) que confirmou que o clima que se desenvolveu nos últimos anos em seu país está impactando as políticas de contenção do HIV entre as populações de risco. Embora a homofobia predominante não afete diretamente o acesso inicial ao tratamento, ela impacta a adesão, levando a um aumento da depressão e outros problemas de saúde mental. Isso, em última análise, resulta na interrupção da medicação por parte dos pacientes e no abandono da proteção por parte daqueles mais vulneráveis ​​ao vírus.

Entre quase 300 pessoas entrevistadas na região metropolitana de Accra, capital do país, 27% relataram ter sido ameaçadas com ações policiais devido à sua orientação sexual e 22,5% deixaram de frequentar grupos de discussão sobre saúde LGBTQ+ por medo. Esse desencorajamento levou 30% dos participantes a considerarem o suicídio.

De quase 300 pessoas entrevistadas na região metropolitana de Accra, capital do país, 27% disseram ter recebido ameaças de serem denunciadas à polícia por causa de sua orientação sexual, e 22,5% deixaram de frequentar grupos de discussão sobre saúde LGBTQ+ por medo.

O paradoxo reside no fato de que, em alguns desses países, o medo da comunidade coexiste com um momento de esperança: a chegada do lenacapavir, um antirretroviral de longa duração que protege contra o vírus com duas injeções por ano. Além de ser mais prático e conveniente do que a PrEP oral diária, o fato de exigir apenas duas injeções é fundamental para populações estigmatizadas — pessoas que não querem ser ostracizadas por suas comunidades por tomarem medicação.

Especialistas concordam que a expansão do programa marcará um ponto de virada na estratégia para conter a epidemia de HIV no continente africano. O problema é que as doses ainda são muito escassas; elas chegam aos poucos. Até o momento, quase 66.000 pessoas foram beneficiadas em nove países prioritários, onde 191.620 doses foram administradas, segundo os dados mais recentes apresentados na conferência realizada no Rio de Janeiro. Uganda está entre eles. “Sabemos que um carregamento chegou este ano a um distrito, mas ainda não temos muito acesso, e o pior é que muitos não saberão de nada porque perdemos o contato com eles”, lamenta Kikonyogo.

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