“Violência e abuso na Igreja”: uma leitura essencial. Artigo de Sergio Di Benedetto

Foto: Catophic

Mais Lidos

  • Milei, o profeta detonado. Artigo de Fernando Rosso

    LER MAIS
  • “Estou preparado para uma terceira guerra. Não para uma nuclear”. Entrevista com Lejeune Mirhan

    LER MAIS
  • Quando políticos leem discursos escritos por IA: a era da tecnologia de ventriloquismo. Artigo de Éric Sadin

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

11 Agosto 2026

Um livro recente, curto, mas bem documentado, analisa o trágico fenômeno do abuso em seus muitos aspectos, abordando o cerne da imagem de Deus e a necessária prevenção.

O artigo é de Sergio Di Benedetto, professor de Literatura Italiana na Universidade da Suíça Italiana, em Lugano, publicado por Vino Nuovo, 10-08-2026.

Eis o artigo. 

A Itália está atrasada no que diz respeito aos casos de abuso dentro da Igreja, porque, ao contrário de outros países europeus, ainda não foi iniciada uma "investigação da verdade" sobre o assunto, que revele os números, a extensão do fenômeno, os erros, a cumplicidade, a superficialidade e as falhas. Portanto, qualquer ferramenta que ajude a esclarecer a situação é bem-vinda, como o livro recente e de fácil leitura de Maria Elisabetta Gandolfi, "Violência e Abuso na Igreja. Ninguém Pode Passar Por Cima" (Milão, Paoline, 2026, 80 páginas, €8).

No capítulo final do livro, a autora discute a anomalia italiana, destacando os progressos alcançados, mas também o quanto ainda precisa ser feito para elucidar uma tragédia que não tolera mais o silêncio. Isso implica, inclusive, uma necessária renovação da comunidade cristã: "Levar a sério, com compromisso imediato e efetivo, a questão dos abusos e da violência dentro da Igreja, bem como agir com justiça perante as vítimas e intervir preventivamente, poderia contribuir para uma autêntica renovação da comunidade cristã e de sua organização. Inicialmente, poderíamos pensar que os escândalos se multiplicariam. Na realidade, eles foram simplesmente ocultados. Com o tempo, perceberemos que a devida divulgação pode regenerar profundamente a fé e o testemunho evangélico."

Em seu livro, Maria Elisabetta Gandolfi aborda, de forma fluente, porém bem documentada e precisa, toda a trágica questão do abuso: causas, fenômenos, procedimentos, práticas, assistência às vítimas e ações contra os agressores. Isso inclui a essencial questão "sistêmica", ou seja, a própria estrutura da Igreja e seus papéis, o que, portanto, toca na questão do poder, bem como na sexualidade e na "sacralização mal compreendida da figura do sacerdote". Assim, a verdadeira prevenção, juntamente com a denúncia, o tratamento, o apoio e a penitência, deve também abordar o próprio coração da Igreja e as figuras que nela operam, tendo em mente que as formas de abuso não se restringem às mais graves que ocorrem na esfera sexual, mas também em outras áreas "sagradas", como a consciência. De fato, todo ato de abuso é sempre um abuso de poder por parte de quem o exerce sobre alguém que está subordinado por diversas razões (psicológicas, demográficas, estruturais, etc.).

Merece destaque um capítulo central, que aborda um aspecto frequentemente negligenciado, o teológico, visto que o abuso tem profundas consequências na fé dos indivíduos (vítimas ou não), e isso deve ser igualmente levado em consideração pela Igreja: imagens de Deus, núcleos de fé, experiências da vida eclesial que têm um impacto profundo e, igualmente, exigem intervenção, com paciência, sem forçar o ritmo (por exemplo, Gandolfi, citando Julia Feder, enfatiza como um pedido imediato de perdão que as vítimas devem conceder aos seus agressores é igualmente abusivo, sem permitir o tempo humano necessário para que a misericórdia seja verdadeira e benéfica): "consequentemente, a cura é uma prática mística, porque 'implica a restauração de uma relação correta com Deus'; e política, 'porque implica a transformação dos contextos sociais e institucionais que tornam possível a violência sexual'".

Um livro sobre um tema doloroso, portanto, mas necessário, porque as feridas de cada ato de abuso são profundas, ainda mais quando foram negadas e reprimidas por muito tempo. E é hora de a Itália também lançar luz sobre essa questão, sem caça às bruxas, sem medo, sem conivência.

Leia mais