O resgate da figura do pai. Artigo de Leonardo Boff

Foto: Ante Hamersmit/Unplash

Mais Lidos

  • Milei, o profeta detonado. Artigo de Fernando Rosso

    LER MAIS
  • “Estou preparado para uma terceira guerra. Não para uma nuclear”. Entrevista com Lejeune Mirhan

    LER MAIS
  • Quando políticos leem discursos escritos por IA: a era da tecnologia de ventriloquismo. Artigo de Éric Sadin

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

12 Agosto 2026

"Pertence à figura do pai fazer compreender a diferença entre o mundo dos poucos, da família e o mundo dos muitos, da sociedade. Não há só aconchego, especialmente junto à mãe, mas também o trabalho do pai. Não há só ternura, mas também conflitos sociais. Não há apenas ganhos, mas também perdas", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e articulista da revista Liberta do ICL.

Eis o artigo.

No dia 9 de agosto, celebrou-se o Dia dos Pais. Contatamos, no entanto, que uma onda de crises que assolam a sociedade, pelo menos, a ocidental, não poupou a figura do pai. A justa crítica das feministas ao patriarcado e ao machismo e o estabelecimento científico da existência de uma era matriarcal, há 20 mil anos, caracterizada por uma profunda integração com a natureza e por uma intensa espiritualidade, ajudaram a pôr em xeque a pretensa primazia do homem e do pai. As reflexões das mulheres sobre sua própria identidade e a expressiva presença delas em todos os âmbitos da sociedade, com a crítica ao poderio patriarcal, aprofundaram a crise da figura do pai.

A complexa divisão do trabalho nas sociedades modernas dilacerou, em parte, os laços familiares, afetando especialmente a figura do pai. Este vai ao trabalho e, não raro, nem tempo tem para marcar presença junto à esposa e aos filhos e filhas. Por estas razões é que alguns estudiosos falam do eclipse da figura do pai. Um autor alemão, A. Mitscherlich, escreveu um discutido livro: "Rumo a uma sociedade sem pai” (1963). Passa-se do pai ao grupo de amigos. A tradição psicanalítica de S. Freud, de C.G. Jung e de outros, deu centralidade à função da figura do pai no desenvolvimento psicológico dos filhos e filhas.

Diria que as mulheres, depois de tantos embates, definiram mais adequadamente sua identidade. Ao passo que os homens estão em busca de sua identidade num mundo tremendamente modificado e acelerado. Há uma saudade pela volta do pai amoroso e de sua função. Ela foi expressa há séculos na Odisseia de Homero, quando Telêmaco, filho de Ulisses, diz: ”Se aquilo que os mortais mais desejam pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu quereria, seria a volta do pai”. Estimo que há uma saudade da figura do pai não patriarcal, mas amoroso e o que ele representa no desenvolvimento dos filhos. Por isso, mesmo com as mudanças havidas, é decisivo resgatar a figura do pai. Ele é imprescindível para um processo de individuação dos filhos e filhas bem realizado. A ausência do pai pode produzir consequências graves.

Não sei qual é a situação em termos numéricos em nosso país. Tive acesso a estatísticas oficiais recentes dos EUA que referem os seguintes dados: 90% dos filhos fugidos de casa ou sem moradia fixa eram de famílias sem pai. 70% da criminalidade juvenil provinha de famílias onde o pai era ausente. 85% dos jovens em prisões, cresceram em famílias sem pai. 63% de jovens suicidas tinham pais ausentes. Tais dados me reportam a um inspirador estudo de C. G. Jung de 1949: A importância do pai no destino do indivíduo, e também de S. Freud de 1924: A dissolução do complexo de Édipo.

Curiosamente, o cristianismo mostra a comovedora volta do pai na parábola do filho pródigo. Aqui invertem-se os papéis. O filho que saiu de casa e levou uma vida dissoluta sente saudades da casa paterna. Então, é o pai que volta ao filho saudoso, corre ao seu encontro, o enche de abraços e beijos e lhe prepara um grande banquete porque “este filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado” (Lucas 15,24). É a figura do pai amoroso e não autoritário.

Para resgatar a figura do pai, faz-se importante distinguir entre os modelos culturais de pai e a função permanente da figura do pai. Os modelos variam consoante os tempos e as culturas: o pai patriarcal, autoritário, amoroso, participante, companheiro e amigo. Uma é a figura do pai centralizador na cultura muçulmana, cercado de mulheres (poligamia), outra é a do pai na cultura ocidental monogâmica e nos diferentes espaços culturais.

A função do pai constitui estrutura permanente, imprescindível para o complexo processo de individuação da pessoa. Em todos os modelos, age esta estrutura permanente do pai, mas sem se exaurir em nenhum deles. A crise dos modelos libera esta estrutura sempre presente, chamada também de princípio paterno, para novos modelos adequados ao nosso tempo.

Concentremo-nos nesta estrutura permanente do pai. A figura do pai é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/a e pela introdução do filho/a no mundo transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes, dos amigos da família, numa palavra, nos muitos da sociedade.

Nesse mundo dos muitos, vige ordem, disciplina, autoridade e limites. Os pais têm que trabalhar, realizar projetos, prover a família e exercer sua profissão. Tudo isso exige coragem, mostrar segurança e disposição para os sacrifícios necessários.

Ora, o pai é a concretização destas atitudes. Ele é a ponte para o mundo transpessoal e social. Nessa travessia, a criança se orienta pelo pai-herói arquetípico, que tudo sabe, tudo pode e tudo faz. Se faltar essa referência, a criança pode se sentir insegura, perdida e sem iniciativa.

Pertence à figura do pai fazer compreender a diferença entre o mundo dos poucos, da família, e o mundo dos muitos, da sociedade. Não há só aconchego, especialmente junto à mãe, mas também o trabalho do pai. Não há só ternura, mas também conflitos sociais. Não há apenas ganhos, mas também perdas.

Há programas de entretenimento da televisão que exacerbam o desejo, fazendo crer que só o céu é o limite. É a ilusão do desejo. Cabe ao pai mostrar que não é bem assim e que em tudo há limite. Todos somos incompletos e podemos nos frustrar. E até dar-se conta de que há a morte de parentes ou de amigos queridos.

Operar esta verdadeira pedagogia desconfortável, mas vital, é atender ao chamado da função permanente do pai. Sem ela, o pai está prejudicando seu filho/filha, talvez de forma duradoura. Uma figura de pai bem realizada constitui a base para a criança ter uma imagem boa de Deus-Pai de bondade.

A sociedade moderna, com as TVs, os celulares, os tablets e todo tipo de programas virtuais, faz concorrência com o pai e lhe dificulta cumprir sua função permanente.

Mas nunca faltam figuras concretas de pais que conhecemos, que se imunizaram da impregnação patriarcal, enfrentam obstáculos e vivem dignamente, trabalham duro, cumprem seus deveres de pais, mostram responsabilidade e determinação. Participam das tarefas domésticas.

Desta forma, cumpre a função permanente da figura do pai, função indispensável para que seus filhos e filhas amadureçam o seu eu e, sem perplexidades e traumatismos, se façam autônomos e livres. Até serem pais e mães de si mesmos. É o que este Dia dos Pais nos faz refletir.

Leia mais