Argentina. Um alerta contundente dos bispos em relação à situação social: "O Estado precisa agir"

Fiéis argentinos na Festa de S. Caetano. A fila serpenteia por 15 ruas de Buenos Aires e dura o dia todo (foto de arquivo/vatican news)

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11 Agosto 2026

O presidente da Conferência Episcopal, dom Marcelo Colombo, e o cardeal Ángel Rossi alertaram para a impotência da maioria e exigiram que o Executivo garantisse a justiça social.

A reportagem é de Washington Uranga, publicada por Página|12, 10-08-2026.

Em Mendoza, dom Marcelo Colombo, arcebispo presidente da Conferência Episcopal Argentina, afirmou que o Estado "deve cuidar do seu povo, não lhe virar as costas e prover aquilo a que as pessoas não têm acesso". O Cardeal Ángel Rossi, de Córdoba, primeiro vice-presidente do episcopado, reafirmou que "a justiça social não é uma sofisticada loteria econômica, nem um slogan partidário, nem uma simples ideia ideológica ou sociológica, mas uma exigência evangélica imperativa desde o momento em que Jesus se identifica diretamente com os marginalizados".

O arcebispo de Mendoza discursou por ocasião da celebração patronal de São Caetano, enquanto o cardeal Rossi o fez em uma mensagem transmitida durante o "Domingo da Justiça Social", instituído por ele em memória do beato mártir Enrique Angelelli, "para nos lembrar que a fé é vivida com um ouvido 'para o Evangelho e o outro para o povo'", como afirmou o bispo, assassinado pela ditadura militar, há cinquenta anos.

O fato de as duas mais altas autoridades do episcopado argentino se expressarem de maneira semelhante assume particular importância considerando que os preparativos para a visita do Papa Leão XIV, que chegará ao país em novembro próximo, estão em seus estágios finais, e que Javier Milei descreve a doutrina social da Igreja como "lixo" e "roubo".

Para o presidente, "Justiça social é um conceito aberrante. É inveja, ódio e ressentimento institucionalizados por meio da coerção estatal", como afirmou em 24 de fevereiro de 2024, durante um discurso na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Maryland, EUA. Pouco antes, em entrevista em Buenos Aires ao jornalista Tucker Carlson, Milei havia dito que "Justiça social é roubo, porque significa tomar à força os frutos do trabalho de alguém para dá-los a outro. Isso viola os direitos de propriedade e o preceito de 'não roubarás'", declarou na ocasião.

O Cardeal Rossi expressou sua preocupação com "este triste e grave fenômeno de descrédito e desvalorização — por vezes flagrante — da justiça social, um princípio político e ético que, como sabemos, busca garantir igualdade de oportunidades, equidade na distribuição de bens e pleno acesso aos direitos humanos fundamentais para todas as pessoas dentro de uma comunidade, e cujo principal objetivo é corrigir as desigualdades estruturais e proteger os setores mais vulneráveis, para que ninguém seja excluído por razões econômicas, de gênero, raciais ou de origem, promovendo que as políticas de Estado priorizem o bem comum e a proteção dos grupos desfavorecidos contra o individualismo extremo".

Para Colombo, aqueles que vivem nesses territórios também têm a responsabilidade de construir soluções para as dificuldades sociais. "O ponto fundamental é que nós, que vivemos nesses territórios e fazemos parte da solução, não devemos desistir: vamos trabalhar, demonstrar solidariedade e ajudar a conscientizar sobre o valor da vida humana, o cuidado com o próximo, o bem comum, nossa casa comum e a esperança", disse ele.

"Quando as políticas públicas que protegem os mais vulneráveis são eliminadas, não se cria liberdade; cria-se, sim, abandono", afirmou Rossi em sua mensagem. Ele enfatizou que "as leis do mercado desregulamentado não alcançam as periferias negligenciadas", porque "o mercado busca o lucro, não a fraternidade. E quando o Estado abandona os mais vulneráveis, o que resta não é a livre concorrência, mas a lei da selva".

O Cardeal Rossi lembrou que a doutrina social da Igreja teve origem com o Papa Leão XIII e a encíclica Rerum Novarum, "denunciando a exploração dos trabalhadores", e cresceu com os papas subsequentes "à medida que alertavam contra o imperialismo do dinheiro". Foi então atualizada pelo Papa Francisco em Laudato Si' e Fratelli Tutti, "condenando a cultura do descarte e as falsas 'teorias do gotejamento' que nunca chegam aos pobres", acrescentou.

Ecoando as palavras de seu colega Colombo, Rossi afirmou que "não é correto acumular riquezas e ignorar a falta de recursos básicos para a sobrevivência do nosso próximo". O arcebispo de Mendoza expressou que a memória de São Caetano "nos compromete e nos abre os olhos para iniciativas que, por vezes, ignoram realidades concretas e tentam resolver problemas com base em números ou planilhas".

Rossi também lembrou que o Papa Leão XIV, em sua encíclica Magnifica Humanitas, "mais uma vez levantou a voz contra a revolução digital e a inteligência artificial que prometem progresso ilimitado, com o perigo de causar a expulsão de trabalhadores, precificar o emprego e concentrar ainda mais a riqueza em um punhado de corporações globais" e insistiu que "a tecnologia deve estar sempre a serviço da pessoa humana, nunca as pessoas a serviço da máquina, da eficiência ou do mercado".

O arcebispo de Mendoza relacionou o trabalho de solidariedade com a necessidade de manter a esperança em contextos marcados pela incerteza e pelas dificuldades. "Porque onde a esperança se esvai, todos começamos a cair", afirmou.

Ele também defendeu que se superasse uma lógica centrada na acumulação e se retornasse a uma perspectiva orientada para o compartilhamento. "Vivam, compartilhem, deem vida, ofereçam seus dons", disse ele, e afirmou que o "tesouro no céu" é uma oferta aberta a todos e não reservada "para alguns, não para os melhores, não para aqueles que tiveram sorte".

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