06 Agosto 2026
"O Brasil se vê envolvido em conflitos internacionais em decorrência das novas relações políticas globais. Apesar da cautela que sempre norteou as políticas maduras e ponderadas do governo brasileiro, o cenário atual apresenta ao país decisões e ações que marcarão uma virada irreversível no novo papel do Brasil no mundo", escreve em editorial o Pagina|12, 06-08-2026
Eis o editorial.
De repente, a política externa brasileira se vê imersa em dois conflitos simultâneos: com os governos dos Estados Unidos e da Argentina.
Isso não é mera coincidência, pois ambos os governos são aliados próximos que veem a política externa brasileira como um obstáculo à visão da extrema-direita no mundo atual.
Ao mesmo tempo, os governos de Donald Trump e Javier Milei estão realizando ações muito agressivas e emitindo declarações contra o governo brasileiro. Isso ocorre porque a projeção internacional da política externa brasileira representa um ponto de referência para a construção de uma política internacional soberana.
Desde a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente, que será julgado nos Estados Unidos sob a lei americana, a coexistência dos governos democráticos do continente com as políticas imperialistas do século XXI tornou-se necessariamente muito conflituosa.
Lula tentou encontrar uma forma de diálogo que pudesse confinar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos a questões de interesse imediato para ambos os países. Mas essa abordagem reducionista logo revelou suas limitações.
O surgimento dos BRICS, nos quais o Brasil desempenha um papel fundamental, e, entre outras políticas dessa nova forma de organização no Sul Global, especialmente a política de desdolarização das relações comerciais em todo o mundo, preocupa profundamente o governo Trump.
A política externa ativa e firme do Brasil, nas palavras de seu criador, o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, à qual o Itamaraty permanece absolutamente comprometido, representa uma contribuição decisiva para a nova configuração das relações políticas internacionais no século XXI. Trata-se de um cenário de declínio, ou talvez até mesmo decadência, da hegemonia estadunidense, proeminente no século passado, mas profundamente afetada pelo novo panorama político internacional.
Assim, o Brasil se vê envolvido em conflitos internacionais em decorrência das novas relações políticas globais. Apesar da cautela que sempre norteou as políticas maduras e ponderadas do governo brasileiro, o cenário atual apresenta ao país decisões e ações que marcarão uma virada irreversível no novo papel do Brasil no mundo.
Não deveria haver uma pausa, mas a situação do embaixador brasileiro nos Estados Unidos e o esperado reconhecimento do novo embaixador argentino no Brasil, provavelmente após as eleições presidenciais deste ano, dificultam a intervenção na campanha.
O desenrolar dessas situações representa uma encruzilhada na política externa brasileira, com dois aliados estratégicos para o Brasil. Ambos estão interligados e representam a extrema direita no atual cenário político. Ao mesmo tempo, o Brasil representa uma política externa democrática e soberana.
Leia mais
- Conjuntura e história. Artigo de José Luís Fiori
- Daniel Perez: por que Trump escolheu deputado anticomunista para embaixada no Brasil
- “A maior resistência a um projeto soberano vem de dentro do próprio Brasil”, constata José Luís Fiori
- O tarifaço e a hora do Brasil. Artigo de José Luís Fiori
- Brasil na mira do intervencionismo trumpista. Entrevista especial com Patricia Mechi
- Na mira da geopolítica dos EUA – Brasil, Irã, Cuba. Artigo de José Luís Fiori
- Terras raras brasileiras estão no radar do Departamento de Defesa dos EUA
- A Odisseia de Xi na confusão ocidental. Artigo de Francesco Sisci
- As eleições sul-americanas e a Doutrina Donroe. Artigo de Andre Ferrari e João Pedro Castro Correia
- América Latina: intervenções de Trump afetam região e geram alerta para eleições no Brasil
- Eleições na América Latina em 2026 estão na mira das intervenções de Trump
- Marco Rubio, o executor da Doutrina Monroe
- De Monroe a Trump: como EUA pressionam a América Latina
- "Doutrina Donroe" de Trump retoma foco dos EUA nas Américas
- Os EUA inauguram uma nova era de intervenções na América Latina
- Como Trump está infiltrando suas forças armadas na América Latina com uma nova coalizão militar contra o narcotráfico
- Trump inaugurou seu "Escudo das Américas" com doze chefes de Estado
- Soberania em risco: EUA podem classificar PCC e CV como terroristas; especialistas temem intervenção
- Existe ameaça real de intervenção dos EUA na América Latina?
- "Doutrina Donroe" de Trump retoma foco dos EUA nas América
- De Monroe a Trump: como EUA pressionam a América Latina