Universidades chinesas redesenham mapa global da produção de conhecimento

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04 Agosto 2026

Investimentos de longo prazo em pesquisa, inovação e formação de talentos colocam instituições chinesas entre as que mais avançam no mundo e alimentam um debate que vai além dos rankings.

A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 03-08-2026.

Durante décadas, os Estados Unidos e a Europa concentraram as universidades que ditavam os rumos da produção científica mundial. Esse cenário começa a mudar. Impulsionada por uma estratégia que transformou o ensino superior em política de Estado, a China ampliou sua presença entre as principais instituições acadêmicas do planeta.

O país asiático consolidou-se como potência em pesquisa e inovação e passou a disputar protagonismo em áreas estratégicas, como inteligência artificial, semicondutores, novos materiais e biotecnologia.

Os números ajudam a dimensionar essa mudança. No Center for World University Rankings (CWUR) de 2026, a China passou a reunir 360 universidades entre as duas mil melhores do mundo, superando as 313 dos Estados Unidos.

O dado mais expressivo, porém, é outro. Quase todas as instituições de ensino superior (IES) chinesas (98%) melhoraram de posição na última edição do ranking. Para efeito de comparação, 87% das IES brasileiras perderam espaço.

No CWUR 2026, oito das dez primeiras colocadas continuam sendo dos Estados Unidos. Sob liderança de Harvard, aparecem MIT, Stanford, Princeton, Yale, Columbia, Chicago e Pensilvânia. Cambridge e Oxford completam o grupo. A primeira universidade chinesa, Tsinghua, figura apenas na 36ª posição.

Para Fábio Neto, especialista da escola brasileira de negócios e inovação StartSe, essa fotografia precisa ser interpretada em perspectiva. “Harvard tem 400 anos de reputação e uma rede global de ex-alunos. Isso não desaparece em uma década”, pondera.

O novo topo multipolar

Na avaliação do especialista, a discussão mais importante já deixou de ser quando uma universidade chinesa ocupará as primeiras posições dos rankings.

“A questão não é apenas quando a China chegará ao topo. É o que significa estar no topo em um mundo multipolar. Durante décadas, as métricas de excelência foram definidas pelo próprio Ocidente. A China não está apenas subindo nesses indicadores. Está redefinindo o que conta como conhecimento relevante”, afirma.

Segundo ele, essa mudança aparece de forma mais evidente na liderança chinesa em registros internacionais de patentes e na capacidade de transformar pesquisa universitária em inovação aplicada, aspectos que os rankings acadêmicos tradicionais ainda capturam apenas parcialmente.

Neto acrescenta outro elemento à leitura de estudiosos que atribuem o interesse crescente dos jovens brasileiros pela China ao esgotamento do modelo de globalização liderado pelos Estados Unidos: a busca por novas perspectivas em políticas públicas e na relação entre Estado e mercado.

“O que acontece na China é um projeto deliberado, iniciado muito antes, que colocou a universidade no centro da estratégia nacional”, afirma. Ele tem coordenado inúmeras viagens de executivos brasileiros à China.

Segundo Neto, a principal diferença está na função atribuída às instituições de ensino superior. “Na China, universidade é infraestrutura estratégica de Estado. Ela produz conhecimento, mas também forma talentos, desenvolve tecnologia e fortalece a competitividade industrial”, explica.

Política pública articulada nos detalhes

Essa visão ajuda a explicar uma transformação que impressiona pela velocidade. Em 1998, apenas cerca de 7% dos jovens chineses ingressavam no ensino superior. Hoje, a taxa supera 60%, patamar considerado de universalização pela Unesco. No mesmo período, o percentual de adultos com diploma universitário passou de aproximadamente 6% para mais de 40%.

A expansão veio acompanhada de investimentos concentrados em universidades estratégicas. Programas como os Projetos 211 e 985, posteriormente reunidos na iniciativa Double First-Class, direcionaram recursos para instituições que hoje figuram entre as mais respeitadas do mundo em engenharia, computação, matemática e inteligência artificial, como Tsinghua University, Peking University, Zhejiang University e Shanghai Jiao Tong University.

Mas o objetivo nunca foi apenas melhorar posições nos rankings. Na China, os ministérios da Educação, da Ciência e da Indústria atuam de forma articulada. Quando o país definiu inteligência artificial, semicondutores, energia limpa e biotecnologia como áreas prioritárias, as universidades passaram a ampliar vagas, criar novos cursos e direcionar pesquisas para esses setores. A produção científica deixou de ser um fim em si mesma para integrar uma cadeia que conecta pesquisa, propriedade intelectual, inovação e desenvolvimento econômico.

“O primeiro elo dessa cadeia é a universidade”, resume Neto. “Ela gera conhecimento que depois se transforma em tecnologia, patentes, empresas e competitividade”, complementa.

Os resultados extrapolam o ambiente acadêmico. A China tornou-se líder mundial em depósitos internacionais de patentes e consolidou posições de destaque em áreas como inteligência artificial, baterias, energia renovável, telecomunicações e computação quântica.

Brasileiros em Pequim

Comitiva de brasileiros da UFRN que fazem intercâmbio entre os meses de julho e agosto na China. (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução/Extra Classe)

Essa transformação está sendo percebida por pesquisadores brasileiros que vivem o cotidiano das universidades chinesas.

Desde janeiro, o professor Fábio José Pinheiro Sousa, da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), realiza estágio de pós-doutorado na Universidade de Beihang, em Pequim, uma das principais instituições chinesas nas áreas de aeronáutica, astronáutica e manufatura avançada.

Seu trabalho é desenvolvido no Digital Twin International Research Center, referência mundial em gêmeos digitais, tecnologia que cria réplicas virtuais de equipamentos e processos industriais para otimizar o desenvolvimento de produtos.

“A experiência está sendo fantástica. Eles estão investindo bastante e existe uma dedicação permanente ao aperfeiçoamento científico”, relata ao Extra Classe, a caminho de encontrar um grupo de pesquisadores da UFRN que chegou para um intercâmbio de 30 dias na China.

Antes de chegar ao país, Sousa trabalhou durante seis anos na Universidade de Kaiserslautern, na Alemanha. Se naquele período aprofundou conhecimentos sobre os processos físicos da manufatura, em Pequim passou a concentrar suas pesquisas na dimensão virtual da produção industrial.

Ao retornar ao Brasil, em janeiro de 2027, pretende aplicar essa experiência em projetos ligados à agricultura, à manufatura e ao desenvolvimento de produtos de alta complexidade.

O pesquisador também destaca o ambiente internacional encontrado na universidade. O inglês é a língua utilizada nas atividades acadêmicas, enquanto aplicativos de tradução ajudam na comunicação cotidiana.

Para ele, aprender mandarim tornou-se um diferencial profissional. “Está claro para mim que o chinês hoje é uma língua capaz de ampliar muito as oportunidades de qualquer pessoa. Pretendo continuar estudando e recomendo isso aos estudantes brasileiros”, acredita Sousa.

A inteligência artificial acelera a corrida

Se a universidade foi decisiva para impulsionar a industrialização chinesa nas últimas décadas, a inteligência artificial tornou-se o novo motor dessa transformação.

Segundo Fábio Neto, a velocidade da inovação reduziu drasticamente o tempo de reação dos demais países.

“Na StartSe costumávamos dizer que aquilo que acontecia na China chegava ao Brasil entre três e cinco anos depois. Esse raciocínio fazia sentido para modelos de negócio ou tecnologias que dependiam da adoção do mercado. Com a inteligência artificial, essa lógica praticamente desapareceu”, pontua.

Na avaliação dele, os modelos de IA evoluem em questão de meses, enquanto universidades e empresas chinesas já incorporam essas ferramentas em setores como educação, saúde, indústria e gestão urbana.

“Uma diferença de três ou cinco anos hoje representa uma geração tecnológica inteira. Não é um atraso que se resolve apenas investindo mais; exige repensar a forma como produzimos conhecimento e formamos profissionais”, destaca.

Fábio Neto, especialista da escola brasileira de negócios e inovação StartSe. (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução/Extra Classe)

Lições e limites

Embora o desempenho chinês desperte atenção no mundo inteiro, especialistas alertam que seu modelo não pode ser simplesmente transplantado para outras realidades.

O país combina visão estratégica de longo prazo, continuidade das políticas públicas e forte coordenação estatal, características difíceis de reproduzir em sistemas marcados pela alternância de projetos políticos.

Além disso, o crescimento acelerado trouxe novos desafios, como a dificuldade de absorver no mercado de trabalho os cerca de 12,7 milhões de graduados que a China deverá formar em 2026. Também permanecem em debate questões relacionadas à autonomia universitária e à liberdade acadêmica.

Ainda assim, a experiência chinesa oferece pistas importantes para países como o Brasil. Planejamento de longo prazo, investimento consistente em ciência e tecnologia, aproximação entre universidades e setor produtivo e definição de prioridades nacionais aparecem entre as lições mais frequentemente apontadas por pesquisadores.

Para Neto, porém, a principal mudança talvez seja de perspectiva. “Durante muito tempo olhamos para inovação quase exclusivamente pelos Estados Unidos e pela Europa. Hoje, quem toma decisões sobre educação, ciência ou negócios precisa entender também o que está acontecendo na China. O centro da produção de conhecimento tornou-se muito mais distribuído”, conclui.

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