A Igreja não é um clube exclusivo. Entrevista do Cardeal Cupich

Foto: Vatican News

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31 Julho 2026

O cardeal Blase Cupich, de Chicago, confrontou o presidente dos EUA, Donald Trump. Em entrevista ao katholisch.de, ele fala sobre questões internas da Igreja, como a responsabilidade compartilhada dos fiéis.

A entrevista é de Mario Trifunovic, publicada por Katholisch, 30-07-2026.

Eis a entrevista.

Com vista para o mar em Lovran, perto da cidade portuária croata de Rijeka, realizaram-se recentemente os Encontros Teológicos Mediterrâneos ecumênicos e inter-religiosos, sob a liderança do arcebispo de Rijeka, Dom Mate Uzinić. Este ano, dois representantes de alto escalão da Igreja participaram da conferência de uma semana: o cardeal-arcebispo de Chicago, Dom Blase Cupich, e o cardel-arcebispo de Belgrado, Dom Ladislav Német.

Cupich alertou, por exemplo, contra as forças que semeiam deliberadamente divisões e fazem com que as pessoas sintam que o grupo ao qual pertencem está ameaçado. Particularmente marcante foi a análise de Cupich sobre as guerras culturais que, nos últimos anos, têm se deslocado cada vez mais da vida social e religiosa dos EUA para a Europa. O Cardeal também advertiu contra a equiparação do cristianismo com o pertencimento a um clube exclusivo. Em entrevista ao katholisch.de, Cupich também falou sobre questões internas da Igreja – sobre a Igreja sinodal, a responsabilidade compartilhada dos fiéis, o papel das conferências episcopais e as prioridades da Igreja em um mundo marcado por guerras, crises climáticas e divisões sociais.

Sua Eminência, Cardeal Cupich, o senhor é amplamente considerado um dos principais defensores de uma Igreja sinodal e orientada para o diálogo. Onde o senhor vê a maior resistência às reformas iniciadas pelo Papa Francisco (2013-2025)?

Acho que existe um certo receio de que, se trouxermos questões contemporâneas para o diálogo, nos afastaremos do passado e da tradição. Eu entendo isso. No entanto, devemos confiar que o Espírito de Cristo está agindo na vida da Igreja. E que os fiéis, o povo de Deus, os batizados, têm um sensus fidelium. Eles sabem o que a Igreja ensina e têm a sensibilidade para permanecerem fiéis e leais a ela. É por isso que acredito que devemos responder a esse receio com uma fé mais profunda — com a fé de que o Espírito de Cristo está agindo na vida das pessoas hoje. Jesus não nos abandonará. Mas há muito a ganhar com este diálogo.

Por exemplo?

Ele cria um senso de responsabilidade compartilhada dentro da Igreja. Ajudamos as pessoas a entenderem que compartilham a responsabilidade pela vida da Igreja. Se tudo depender unicamente de um grupo de pessoas, da hierarquia ou de uma camada específica dentro da Igreja, perderemos a oportunidade de criar uma verdadeira responsabilidade compartilhada na vida da Igreja.

Que mudanças concretas podem e devem, em última análise, surgir dessa sinodalidade, dessa jornada compartilhada?

A mudança mais importante é que estamos despertando em todos os fiéis não apenas um senso de pertencimento, mas também de responsabilidade e comprometimento com a Igreja. No meu país, os Estados Unidos, temos católicos muito devotos. Eles frequentam a missa, fazem doações, apoiam muitas causas. Mas, frequentemente, falta um senso genuíno de responsabilidade compartilhada pelo futuro.

De que maneira?

Resposta: Quando se trata de planejar uma melhor catequese ou evangelização, algumas pessoas simplesmente querem deixar tudo a cargo do padre ou do bispo. Mas quando as ajudamos a entender que elas mesmas devem se envolver no planejamento do futuro, que devem fazer parte da jornada para levar o Evangelho à próxima geração, isso desperta nelas um verdadeiro senso de urgência. Elas então vão além de simplesmente fazer doações ou assistir à missa. Acho que isso vale a pena. Isso é algo que pode mudar a vida da Igreja e terá um grande impacto em seu futuro.

Na Alemanha, leigos participam da busca por um candidato ao cargo de bispo. Algo semelhante poderia se tornar prática comum em toda a Igreja?

Na verdade, isso já deveria acontecer. Quando um núncio realiza pesquisas em um país para preencher uma vacância episcopal, a Santa Sé o instrui a consultar não apenas o clero, bispos e padres, mas também o povo de Deus, bem como religiosos e religiosas. Portanto, isso já está acontecendo.

Mas seria possível, num futuro próximo, que leigos fossem selecionados a nível diocesano e se envolvessem muito mais?

Bem, acho que se houver uma maneira de garantir que este seja verdadeiramente um processo de discernimento espiritual e não político, isso seria importante. Devemos ter muito cuidado para não reduzir isso a um processo político. Mas também gostaria de dizer que leigos já participam do Dicastério para os Bispos, onde essas decisões são discutidas antes de serem apresentadas ao Santo Padre. Há religiosas e leigas lá que também têm voz. Portanto, se houvesse outra maneira de garantir uma consulta mais ampla para que os leigos sintam que sua perspectiva está sendo representada, acho que seria apropriado. No entanto, gostaria de enfatizar que os leigos já são consultados no processo de seleção.

Voltemos à hierarquia da Igreja: as conferências episcopais deveriam ter mais poderes de decisão em relação a Roma?

Sim, creio que o Papa Francisco já fez muito em relação à descentralização, por exemplo, com seus documentos fundamentais. O ponto crucial nessas questões, porém, é que respeitemos o princípio da subsidiariedade. Isso significa que as decisões devem ser tomadas no nível mais baixo possível, antes que Roma ou uma autoridade superior intervenha. Essa subsidiariedade, contudo, deve ser equilibrada com a solidariedade com toda a Igreja. Pois a unidade é a característica primordial da Igreja. Devemos ter o cuidado de permanecer unidos neste momento e não permitir que surja uma situação em que uma conferência episcopal tome um caminho que viole a unidade de toda a Igreja.


E se algumas conferências episcopais estiverem um pouco mais avançadas do que a Igreja universal?

Bem, creio que então é responsabilidade de um bispo ou de uma conferência episcopal em um determinado país se perguntar: Somos fiéis à primeira marca distintiva da Igreja, ou seja, a unidade? Unidade, porém, não significa uniformidade, isto é, que todos tenham que fazer exatamente a mesma coisa. Vemos isso, por exemplo, nas reformas litúrgicas. A missa é celebrada em diferentes línguas. Há diferentes expressões culturais e inculturações na liturgia — uma diversidade maravilhosa que enriquece a Igreja. Mas penso que a questão crucial deve sempre ser colocada a todos que desejam algo que se desvie do resto da Igreja: Isso prejudica a unidade ou a serve? Essa é a questão central.

Se você tivesse que nomear as três maiores prioridades da Igreja para a próxima década, quais seriam e por quê?

Penso que o mais importante é dar continuidade ao caminho de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Isso é muito importante. Além disso, a Igreja deve ser uma voz — algo que já vimos em pontificados anteriores — quando se trata de proteger o meio ambiente. Atualmente, estamos vivenciando uma crise. Vemos isso hoje no aquecimento global, na elevação do nível do mar e nas tempestades. Portanto, a Igreja, especialmente por meio da Laudato si', a encíclica sobre o meio ambiente, deve ser essa voz profética para o futuro. E, em terceiro lugar, penso em algo que o Papa Leão XIII enfatizou muito claramente: a paz mundial. Como ele disse em 9 de janeiro, a guerra parece estar de volta à moda. Hoje, recorremos à guerra antes de explorar outras formas de alcançar a paz por meio do diálogo, mesmo diante de diversos conflitos.

Falando em guerra… Qual a sua opinião sobre a doutrina da guerra justa, que tem sido debatida repetidamente nas últimas semanas?

O uso indevido da doutrina da guerra justa é particularmente problemático. Essa doutrina sempre foi concebida como uma restrição. Hoje, ela é usada como uma licença para agir. Os Estados intervêm militarmente e depois tentam dizer: "Bem, podemos justificar isso com a doutrina da guerra justa". Não é assim que funciona. Não se começa com a guerra. Começa-se com a paz como primeira opção. É sobre isso que trata esta conferência. Como podemos garantir que o primeiro passo em um conflito seja que as pessoas se sentem e conversem umas com as outras? Que busquem uma solução pacífica em vez de fazer da guerra o primeiro passo? A guerra deve sempre ser considerada apenas como último recurso – somente quando todas as vias concebíveis de diálogo tiverem sido verdadeiramente esgotadas.

A crise climática, a guerra e a paz são muito mais importantes do que os debates internos da nossa igreja. Estes também são importantes, mas as discussões sobre a liturgia, a chamada "Missa Antiga" e assuntos semelhantes são provavelmente de importância secundária diante de uma crise global como esta.

Sim, é verdade. Mas eu também diria que as forças dentro da Igreja que continuam a fragmentar sua unidade terão um impacto na voz da Igreja sobre essas outras questões. A Igreja não é um clube exclusivo. As pessoas nos dirão: "Por que deveríamos dar atenção a vocês quando há tanta discórdia e divisão dentro da própria Igreja?" Devemos ter isso em mente. Não podemos permitir que esses conflitos internos se tornem tão públicos e tão evidentes a ponto de enfraquecerem o impacto da nossa voz sobre essas outras questões.

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