29 Julho 2026
Em piscinas construídas com escombros e sacos de areia no mar, Amjed Tantesh oferece às crianças da Faixa uma oportunidade de escapar de suas preocupações cotidianas e das duras condições nos acampamentos de deslocados.
A reportagem é de Emma Graham-Harrison e Seham Tantesh, publicada por The Guardian e reproduzida por El Diario, 28-07-2026. A tradução é de Francisco de Zárate.
Depois de três anos de guerra, as aulas de natação voltaram a Gaza. São centenas as meninas e meninos que aprendem a flutuar, a nadar estilo cachorrinho e a dar as primeiras braçadas em cinco piscinas criadas com escombros e sacos de areia na costa da Faixa.Durante algumas horas, as aulas permitem que os pequenos que vivem apavorados pelos contínuos ataques israelenses recuperem sua infância, em um lugar onde não há parques infantis nem educação formal e onde, segundo uma pesquisa da ONU de março, 96% das crianças sente que a morte é algo iminente.
"A natação me dá a oportunidade de escapar da guerra e das preocupações com as quais vivo", diz Alma Shabat, de 13 anos, cuja mãe morreu em maio em um ataque israelense contra Gaza.
Depois de três semanas de aulas, o que ela mais gosta é do nado livre, fez novos amigos e já não tem medo das ondas nem do mar aberto. "Vir à praia é uma experiência preciosa e agradável", afirma.
Amjed Tantesh fundou a primeira academia de natação de Gaza há mais de duas décadas. Para as aulas deste verão, dezenas de voluntários o ajudaram a construir várias piscinas nas praias do centro da Faixa, instalando lonas para gerar alguma sombra sob o intenso sol do Mediterrâneo.
Como em Gaza quase não resta maquinário pesado, fizeram tudo à mão, enchendo sacos de areia para erguer o perímetro das piscinas e escavando a areia para que fossem profundas.
Pela manhã, ministram aulas gratuitas para as crianças cujos pais foram assassinados nos ataques israelenses. À tarde, as piscinas abrem para todos e estão sempre lotadas de crianças encantadas se espirrando na água morna.
"É uma oportunidade única de se divertir, relaxar e recuperar parte da infância que lhes foi roubada", explica Tantesh, que também trabalhou como jornalista para o The Guardian, entre outros veículos (sua sobrinha, Seham Tantesh, informa para o The Guardian a partir da Faixa). "As piscinas atraem as crianças de toda a praia, como se fossem ímãs gigantescos", acrescenta.
Um escape da dura realidade
A maioria das crianças de Gaza vive há anos uma situação extremamente traumática, sofreram amputações ou a perda de entes queridos. Sem contar os milhares de pessoas que se calcula estarem soterradas sob os escombros, um em cada dez habitantes da Faixa morreu ou ficou ferido pelos ataques israelenses (mais de 73 mil palestinos foram assassinados desde outubro de 2023).
Gaza tem a maior concentração mundial de crianças com alguma amputação. "A deficiência entre as crianças palestinas deixou de ser uma condição médica particular para se tornar uma realidade demográfica determinante", escreveu uma comissão da ONU em um relatório sobre os ataques israelenses contra a infância palestina. A fome provocada pelo cerco de Israel em 2025 deixará crianças com atrasos mentais e físicos para o resto da vida.
Na Faixa não há ensino formal há três anos, e quase todos os prédios escolares foram danificados ou destruídos. Apenas uma minoria das quase 700 mil crianças em idade escolar do território tem acesso às escolas improvisadas por organizações de direitos humanos em tendas de campanha.
Sem água potável nem saneamento adequado, os sobreviventes vivem amontoados em acampamentos de tendas quentes e barulhentos, em uma superfície que representa apenas um terço do território onde viviam antes da guerra (Israel ocupa cerca de 60% da Faixa).
Diante dessa dura realidade, as aulas de natação representam um respiro muito necessário, tanto física quanto mentalmente. "Estar aqui me permite treinar, brincar e respirar ar puro, longe das tendas", diz Maryam al Musri, de 10 anos, que perdeu o pai na guerra.
Enquanto isso, Laila Qahman, de 14 anos, sonha em ser farmacêutica. Perdeu o irmão de sete anos quando os israelenses bombardearam uma mesquita perto do lugar onde ele brincava. Para essa adolescente, a natação é uma oportunidade de relaxar, se refrescar e esquecer a vida na tenda.
"Venho a cada dois dias porque sinto que estou vivendo minha vida e aproveitando meu tempo, em vez de ficar na tenda ouvindo o som dos bombardeios e vivendo com medo e tristeza", assegura. "Antes de aprender a nadar, o mar me dava um pouco de medo e eu não me arriscava a entrar; agora me sinto muito mais segura e já não tenho medo quando nado."
Até agora, são 700 as crianças que participaram das seis semanas de aulas. Tantesh confia que ensinará a nadar a milhares mais neste verão, se conseguir financiamento para os gastos básicos e para pagar os professores, que até agora trabalharam voluntariamente.
Ensinar a nadar para salvar vidas
A alegria desses jovens nadadores também é um bálsamo para Tantesh, que vive o luto pelo irmão mais velho, Bahyat, campeão de caratê, assassinado em um ataque israelense enquanto fugia com ele da casa da família seguindo as ordens de evacuação do exército israelense. Tantesh relata que seu irmão Bahyat foi quem lhe ensinou a nadar e quem o "inspirou a buscar a excelência esportiva quando era jovem". "Que ele tenha morrido em meus braços foi a pior coisa que se pode imaginar", afirma.
Na origem da ideia da qual surgiu essa academia de natação há tanto de esperança quanto de tragédia. Quando, em 1996, a Palestina estreou nas Olimpíadas de Atlanta, os atletas de Gaza tiveram pela primeira vez a oportunidade de competir no maior palco do mundo. Tantesh sentiu isso como uma nova missão. "Eu queria estar nos Jogos Olímpicos, mas tinha começado como nadador profissional em uma idade muito tardia, então decidi realizar meu sonho por meio da próxima geração", conta.
Mais perto de sua realidade diária estavam as mortes por afogamento que se repetiam a cada verão no mar. As famílias iam às praias em massa para relaxar, se espirrar e se refrescar, mas poucos sabiam nadar, e em sua praia local não havia nenhum salva-vidas. Tantesh entendeu que as aulas de natação serviriam para melhorar a segurança das crianças e para formar futuros salva-vidas.
Quando as aulas começaram, o principal desafio foi convencer os pais a inscreverem seus filhos. "As pessoas tinham pavor da água. O mar era como um monstro que, todo ano, cobrava a vida de dezenas de pessoas", destaca.
Nos primeiros anos, as crianças aprendiam a nadar no porto de Gaza, protegidas das ondas pelos diques. Depois, Tantesh construiu piscinas ao longo de toda a costa para dar as aulas. Nelas, aprenderam a nadar cerca de 11 mil pessoas. A maior dessas piscinas tinha mais de mil metros quadrados, construída com escombros de moradias bombardeadas por Israel durante a ofensiva de 2014 contra a Faixa.
Desde 2023, os ataques israelenses arrasaram todas aquelas piscinas e mataram dezenas de alunos de natação e ao menos seis treinadores, além de ferir muitos outros. Retomar as aulas parecia quase impossível.
"Só me restava o mar, mas o mar é perigoso mesmo no verão, há águas-vivas, ondas altas, correntes fortes, rochas...", diz Tantesh. Foi assim que ele idealizou o plano de construir novas piscinas. Pelo bem das crianças de Gaza e como homenagem ao seu irmão.
Para o homem, também tem sido curativo ver como as crianças deixam para trás os horrores da guerra durante o breve tempo em que mergulham no mar. "Na verdade, a primeira pessoa que ajudei com este projeto fui eu mesmo", admite Tantesh. "Isso me deu uma grande sensação de felicidade e de recuperação, volto a me sentir vivo."
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