A importância de derrotar os lesa-pátria bolsonaristas. Artigo de Leonardo Boff

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29 Julho 2026

"O que está em jogo nas próximas eleições é precisamente o confronto de duas opções: aquela da submissão ao 'imperador Donald Trump' como sócio menor e agregado. Ou a opção pela soberania do Brasil, como nação democrática e popular, com projeto nacional autônomo, consciente do que podemos, como nação, recontribuir nossa indústria e com as nossas tecnologias o beneficiamento das terras raras."

O artigo é de Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. Atualmente escreve para a revista virtual Liberta do ICL.

Eis o artigo.

Nunca houve na história do Brasil ruptura instauradora que interrompesse nossa herança de extermínio de indígenas, escravocrata, colonial, neocolonial e da elite do atraso. Elas ocuparam o poder político desde o império e jamais foram apeadas dele. As mudanças havidas nunca trocaram a natureza deste poder que sempre foi elitista excludente e antipopular, frustrando o projeto-Brasil-de-todos.

Os poderosos, em tempo algum, reconheceram os direitos dos injustamente humilhados e os empurraram para a marginalidade, onde pensam que lá é seu lugar natural. São as elites do atraso no justo dizer do sociólogo Jessé Souza. O inconformismo popular foi sempre reprimido com extrema violência a ponto de o historiador mulato Capistrano de Abreu ter dito rudemente que “o povo foi capado e recapado, sangrado e ressangrado”.

Não obstante e contra a vontade destas elites, criou-se aqui, ao longo de cinco séculos, um experimento civilizacional singular. No dizer do saudoso historiador José Honório Rodrigues,

“(...) somos uma república mestiça, étnica e culturalmente. Não somos europeus nem latino-americanos. Somos tupinizados, africanizados, orientalizados e ocidentalizados. A síntese de tantas antíteses é o produto singular e original que é o Brasil atual... O grande sucesso da história do Brasil é o seu povo e a grande decepção é a sua liderança. Esta nunca se reconciliou com o povo; nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é; nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de de tudo – de Jeca Tatu – negou seus direitos, arrasou suas vidas e logo que o viu crescer e ele lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence” (Conciliação e Reforma no Brasil, 1965, 14 e 122).

Deste caldo cultural está surgindo uma nação inventada por nós mesmos, ainda em fazimento, com características próprias, capaz de fundar um Brasil nosso. Esse era o sonho de Darcy Ribeiro em seu derradeiro e inspirador livro O Povo Brasileiro (1995). Uma utopia-Brasil-diferente esteve sempre em curso, reprimida mas nunca vencida, gestada no sindicalismo autêntico, no seio das classes populares, nas igrejas da libertação, nos segmentos das elites progressistas, dos intelectuais e dos artistas que se associam à causa dos oprimidos.

Tais atores criaram expressivo poder social de resistência e de libertação, que está se canalizando em poder político, sem se esvaziar como poder social. Surgiram partidos identificados com a utopia-Brasil-diferente. Mas o principal deles foi o Partido dos Trabalhadores (PT), que contou desde o início com o extraordinário carisma de mobilização popular que foi Luiz Inácio Lula da Silva, hoje reconhecido com uma das lideranças mundiais mais expressivas.

Depois de várias tentativas, ele finalmente chegou ao poder central. Por ser nordestino e da classe operária, foi rejeitado, perseguido, caluniado e condenado por um juiz parcial a 580 dias de prisão e, por uma razão inédita e exótica jamais documentada, desde do código de Hamurabi (1750 a.C.): "por um crime não definido".

Nos três governos que exerceu realizou em parte o sonho do Brasil diferente, pelo menos para aqueles milhões que mal comiam, moravam miseravelmente, não tinham luz elétrica nem escolas adequadas, nem espaços de lazer e jamais teriam acesso à universidade ou às escolas técnicas.

Podem dizer o que quiserem de Lula, ofendê-lo de ladrão que nunca foi e mil agressões vis como recentemente o fez o extravagante Javier Milei, presidente da Argentina. Mas jamais poderão negar seu entranhável amor aos pobres e insultados e as dezenas de obras que pôs em marcha a seu favor, resgatando-lhe, o que sempre enfatizou, a dignidade negada.

Como fez anteriormente, colocou agora o poder a serviço da sociedade brasileira a partir de baixo, democrática, popular, promotora da multipolaridade. Não obstante a pressão exercida por um ensandecido “imperador do mundo”, de extrema-direita, o norte-americano Donald Trump.

No entanto, seja no Brasil, seja no mundo, cresce o pensamento conservador, de cariz fascista e até de extrema-direita. Esse movimento levou à presidência um personagem dos mais perversos de nossa história que permitiu, por sua estupidez deixar morrer 700 mil pessoas, vítimas do Coronavírus e desmontar os projetos sociais. É vergonhoso citar seu nome, tal é a brutalidade das relações sociais que introduziu. Seus filhos traíram a pátria, fazendo o jogo explícito do império norte-americano, colocando o país a serviço de Donald Trump.

O que está em jogo nas próximas eleições é precisamente o confronto de duas opções: aquela da submissão ao “imperador Donald Trump”, como sócio menor e agregado. Ou a opção pela soberania do Brasil, como nação democrática e popular, com projeto nacional autônomo, consciente do que podemos, como nação, recontribuir nossa indústria e com as nossas tecnologias o beneficiamento das terras raras.

É imperativo que a utopia-Brasil-diferente derrote a Flávio Bolsonaro, o traidor da pátria e filho do golpista covarde e preso, e fazer frente ao tradicional pacto das elites conservadoras e reacionárias que nunca tiveram um projeto-Brasil, mas um só para si, e fundar um novo rumo ao nosso país. O tempo corre veloz e contra o propósito libertário. Importa não só resistir, mas avançar e travar o debate teórico e político.

Como bem sentenciava Dom Quixote, “não devemos reconhecer as derrotas, sem antes dar as batalhas”. E desta vez vamos dá-las todas para realizar o sonho tantas vezes negado e sempre ressuscitado.

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