Transformando a Igreja e regenerando o mundo. Juntos, podemos. Artigo de Paola Springhetti

Foto: Vino Nuevo

16 Julho 2026

A Igreja precisa de uma nova iniciação cristã, mas também de uma nova iniciação cultural. Para construir um futuro que ainda não podemos imaginar.

O artigo é Paola Springhetti, publicado por Vino Nuevo, 15-07-2026.

Paola Springhetti é jornalista freelancer. Ela leciona jornalismo na Pontifícia Universidade Salesiana.

Eis o artigo. 

Vamos tentar imaginar uma Igreja onde as crianças são batizadas somente se seus pais se comprometerem a criá-las como cristãs, e onde eles próprios, os pais, as batizam; onde a Confirmação é recebida antes da Eucaristia, por volta dos 6 anos, quando começa a fase do pensamento lógico, porque completa a jornada iniciada com o batismo; onde a Primeira Comunhão ocorre por volta dos 11 ou 12 anos, porque a participação consciente na Missa é o objetivo final da jornada de iniciação. Uma Igreja onde o número de ministérios se multiplica, onde os bispos consultam os paroquianos quando o pároco muda...

Estas não são fantasias: são algumas das propostas que Francesco Grasselli apresenta em seu mais recente livro: "Transformando a Igreja, Regenerando o Mundo. Por uma Nova Iniciação Cristã e Cultural" (publicado pela La Bancarella, 2026). Um título provocativo, que implica que a Igreja de fato precisa se converter, mas essa transformação pode — aliás, deve — contribuir para transformar o mundo. E, sobretudo, que precisamos de uma nova iniciação cristã, mas também de uma iniciação cultural compartilhada com todos, inclusive os não crentes.

Mudando a Igreja…

O ponto de partida de Grasselli é claro: apesar do Concílio, apesar do Caminho Sinodal, permanecemos imersos numa abordagem pastoral de puro conservadorismo, revestida de modernidade graças à busca por novas linguagens, que, no entanto, reiteram conteúdos antigos. Em vez disso, precisamos ir além e, entre outras coisas, repensar profundamente a iniciação cristã — aqui entendida como formação cristã, que deve ser ao longo da vida —, a qual deve, por sua vez, refletir-se numa nova iniciação cultural.

O primeiro passo é a leitura e o estudo da Bíblia, que devem permear todo o trabalho pastoral (e por essa razão, entre outras coisas, cada diocese deve estabelecer um escritório para o apostolado bíblico) e que devem estar conectados à situação histórica em que vivemos: precisamente na ligação entre Palavra e história pode-se encontrar um novo dinamismo eclesial.

Estudar a Bíblia nos ajudaria a recolocar o Mistério no centro de nossa jornada, cujo centro é "o amor universal de Deus", que "se manifesta no Mistério Pascal do Filho; e que, com o dom do Espírito Santo, associa todos à Sua obra na História".

Precisamos, portanto, mudar os estilos de pregação, que podem começar com a Palavra para interpretar a vida, mas também podem seguir o caminho inverso. Precisamos mudar a catequese, que tem como objetivo não "ensinar" a verdade, mas colocar a criança diante do Mistério. Precisamos repensar os sacramentos, reavaliando a sacramentalidade generalizada (a Igreja nasce de Cristo, que é o sacramento do Pai). E não apenas os "sacramentos da iniciação", mas também o matrimônio (o que significa para a família ser uma "igreja doméstica"? E o que acontece se a família cristã não cumprir seu compromisso com a evangelização "criativa"?) e o sacerdócio, que deve ser concebido dentro, e não acima, do Povo de Deus. Por exemplo, por que as nomeações de bispos e párocos nunca são feitas em consulta com as comunidades envolvidas? Finalmente, devemos ir além do modelo tridentino do pároco, promovendo também uma pluralidade de ministérios: podemos imaginar dois principais (o ministro da Eucaristia e o coordenador comunitário) apoiados por outros ministros: para a catequese, por exemplo, para o consolo dos doentes e aflitos, para a reconciliação, para a caridade...

O Sacramento da Misericórdia (uma definição que Grasselli prefere a "penitência" ou "reconciliação") deveria se tornar um grande encontro de alegria e celebração. E o Sacramento da Unção dos Enfermos deveria se tornar o Sacramento da Fragilidade, que deveria ser reavaliado com a nomeação de Ministros da Fragilidade, o envolvimento das famílias e sua inclusão nas liturgias públicas.

…Para regenerar o mundo

Uma Igreja capaz de uma reflexão tão profunda seria uma Igreja mais livre, capaz de encarar sua missão no mundo e a evangelização não mais como proselitismo, mas como um compromisso com a melhoria da qualidade das relações entre as pessoas e entre as pessoas e o bem comum e a criação. Uma Igreja capaz de colocar o mundo no caminho certo.

O verdadeiro desafio reside na justaposição dos dois adjetivos: "cristão" e "cultural". Não podemos apresentar o Evangelho a ninguém sem, ao mesmo tempo, fornecer-lhes as ferramentas críticas para decifrar a complexidade do mundo contemporâneo.

Grasselli, aliás, associa intimamente a "transformação da Igreja" à "regeneração do mundo". É necessária uma nova aliança entre fé e contemporaneidade, uma aliança que possa servir de bússola para nos orientar para além da simples gestão do que já existe. Muitas mudanças ameaçam nos sobrecarregar. A conquista do espaço, a inovação tecnológica e a inteligência artificial, que coexistem com a pobreza e a fome em muitas partes do mundo, a dinâmica demográfica, a globalização, os movimentos migratórios, as guerras e o terrorismo, as mudanças climáticas, os avanços na biotecnologia, a libertação feminina, o orgulho LGBTQ+, os medicamentos de mercado de massa... Esses são sinais dos tempos que precisam ser enfrentados e que exigem discernimento, a fim de guiar a comunidade humana rumo a uma "nova civilização", livre das trevas e incertezas que atualmente nos envolvem.

Mas se o objetivo é uma nova civilização, então devemos conceber e implementar programas de iniciação (ou educação) adequados, centrados nos temas centrais do mistério (com os quais até mesmo os leigos se envolvem), renovação, diálogo, globalidade, cuidado com a criação, família e paz. Esses são programas que uma Igreja renovada deve ser capaz de compartilhar com o mundo secular, para o bem de todos.

O desafio é desconfortável, mas empolgante: parar de medir a vitalidade da Igreja pelo número de bancos ocupados aos domingos e começar a avaliá-la por sua capacidade de gerar significado, justiça e esperança nas ruas do mundo. De fato, porque Grasselli está convencido de que "regenerar o mundo ainda é possível, porque é possível ter esperança contra toda a esperança".

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