Quando as injustiças ambientais alimentam a extrema-direita

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10 Julho 2026

Nos Estados Unidos, pessoas brancas da classe trabalhadora vivem abaixo da linha da pobreza em regiões devastadas e poluídas, lutando contra o câncer e o vício em opioides... tudo isso enquanto apoiam republicanos fanáticos que implacavelmente desmantelam o Estado de Bem-Estar Social. A socióloga Arlie Russell Hochschild investigou esse paradoxo, que analisou em dois livros best-sellers.

Sobre os livros de Arlie Russell Hochschild, Strangers in Their Own Land: Anger and Mourning on the American Right (2016) e Stolen Pride: Loss, Shame, and the Rise of the Right (2024), ambos publicados pela The New Press (Nova York).

A reportagem é de Elodie Edwards-Grossi, publicada por Terrestres, 24-06-2026. A tradução é do Cepat.

Em algum lugar no sul da Louisiana, no pântano, à sombra de ciprestes e manguezais, Mike sai de sua caminhonete e cumprimenta com entusiasmo a socióloga Arlie Russell Hochschild, que veio entrevistá-lo. Diante da cientista social, o homem na casa dos sessenta anos compartilha memórias nostálgicas da infância: “Quando eu era criança, bastava pedir carona na beira da estrada e alguém te dava uma. Ou, se você tivesse um carro, dava carona para alguém. Se alguém estivesse com fome, você dava comida. Havia um verdadeiro senso de comunidade. Sabe o que acabou com tudo isso?” Ele faz uma longa pausa, mal conseguindo disfarçar a raiva. “O Estado grande”. (1)

O big government que Mike tem em sua mira é o governo federal, cujo financiamento e programas permeiam os territórios. Esse governo tem muitas faces. Às vezes, ele se manifesta no espectro da saúde universal, promulgada pelo presidente Barack Obama em 2011 — a famosa Lei de Proteção ao Paciente e Cuidado Acessível (Patient Protection and Affordable Care Act), que garantiu cobertura de saúde a 32 milhões de estadunidenses que antes não a possuíam.

Mike vê essa política tanto como uma forma de tributação vinda de cima para baixo quanto como um dreno financeiro para famílias modestas, honestas e trabalhadoras, das quais ele se considera parte. Da mesma forma, Mike, filho de um encanador, nascido na pequena cidade de Donaldsonville e residente de Bayou Corne, denuncia os pagamentos de ajuda social aos mais desfavorecidos. Por fim, a influência do Estado federal nas comunidades locais também se manifesta nas regulamentações ambientais impostas pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) em todos os Estados, desde sua criação em 1970 pelo presidente Richard Nixon, das quais o morador da Paróquia [Município] da Assunção também discorda.

Fervoroso defensor do Tea Party, um movimento de protesto emblemático por sua rejeição ao crescimento do Estado federal e sua oposição à arrecadação de impostos, Mike viveu toda a sua vida na mesma pequena cidade, localizada a cerca de 120 quilômetros de Nova Orleans. No entanto, suas palavras ilustram um paradoxo significativo neste território predominantemente republicano, onde muitos moradores relutam em apoiar políticas de bem-estar social: muitos deles vivem abaixo da linha da pobreza.

É com esse testemunho que começa o livro de Arlie Russell Hochschild, Strangers in Their Own Land: Anger and Mourning on the American Right (Estrangeiros em sua própria terra: raiva e luto na direita estadunidense), publicado em sua primeira edição em 2016. A autora faz um relato comovente dos afetos e da nostalgia sentidos por essas pessoas que vivem na zona rural periférica da Louisiana em relação à era relativamente próspera antes do movimento dos Direitos Civis, pelas classes trabalhadoras e médias brancas das quais fazem parte. O livro questiona a relação que os indivíduos têm com estas emoções políticas, bem como a forma como estes sentimentos moldam as suas experiências de politização.

O paradoxo do corredor do câncer

Como compreender as profundas reservas, até mesmo a rejeição total, que essas pessoas expressam em relação ao Estado de bem-estar social quando, do ponto de vista dos seus interesses sociais, todas elas seriam potencialmente beneficiadas pela rede de segurança social proposta pelas políticas públicas federais? Afinal de contas, mais de 44% do orçamento do Estado da Louisiana vem diretamente do governo federal, a uma taxa de aproximadamente 2.400 dólares por cada pessoa residente na Louisiana. (3) Como é que as suas posições refletem essa internalização do declínio econômico e da violência ambiental sofrida nas suas terras e na sua carne? (4) Finalmente, como se dá a criação de uma forma de desconhecimento, mesmo de ignorância, em relação às questões industriais, ambientais, políticas e sociais que, no entanto, definem em grande parte a sua situação?

Porque ainda subsiste um grande fosso entre a concepção dos serviços públicos na França, vistos como um amortecedor contra as desigualdades sociais na sociedade, e as representações que pessoas como Mike, nos Estados Unidos, têm sobre a sua relação com o Estado. Sem dúvida que o sentimento desta desapropriação socioeconômica é também alimentado pela percepção de uma comunidade local enfraquecida, que parece ser o único baluarte contra a ordem estabelecida e contra o Estado federal, este monstro frio, visto como demasiado distante das preocupações dos indivíduos residentes na baía.

No entanto, o local escolhido para esta pesquisa sociológica não é apenas um local de desapropriação socioeconômica, mas também de desapropriação ambiental: Mike e os outros moradores da Paróquia da Assunção vivem muito perto do Corredor do Câncer, uma área que foi sacrificada ao longo do século XX em prol dos interesses petroquímicos. (5) Um longo corredor industrial que se estende por quase 300 quilômetros entre Nova Orleans e Baton Rouge, o termo Corredor do Câncer foi cunhado no século XX para descrever o estabelecimento de mais de 200 locais de extração de combustíveis fósseis, fábricas petroquímicas e refinarias de petróleo em terras anteriormente agrícolas, onde as taxas de câncer estão bem acima da média nacional. (6)

O relatório da Human Rights Watch de 2024 destacou o fato de que as pessoas que vivem nessas áreas relataram taxas de câncer sete vezes maiores que a média nacional. (7) Embora Mike resista a ser retratado como uma vítima direta da indústria petrolífera, ele sofreu as notórias consequências de sua presença. Parte de sua propriedade foi engolida por um deslizamento de terra causado pelas ações de uma empresa de perfuração de petróleo. (8) Ao redor de Mike, muitas pessoas morreram de câncer ou sofrem de doenças pulmonares com consequências irreversíveis. O ar do pântano tornou-se irrespirável à medida que as indústrias proliferaram exponencialmente desde a década de 1920.

A zona rural de sua infância há muito tempo era palco de outras formas de violência, não apenas ambiental, mas também racial. Fundada por volta de 1800, a fazenda Armelise abrigava muitas pessoas escravizadas. Hoje, a fazenda é uma relíquia de um passado deixado de lado pela maioria dos moradores da paróquia, como Mike. A negação do “terrorismo racial”, que foi estruturado durante a era da escravidão e, posteriormente, da segregação, para usar a expressão cunhada pelo sociólogo Loïc Wacquant, ainda é constitutiva da ordem social nos Estados do sul dos Estados Unidos. (9) Pessoas brancas, como Mike, não demonstram empatia por seus vizinhos afro-americanos, apesar das óbvias proximidades socioeconômicas e territoriais que os unem.

Muros de empatia e divisão “racial”

Arlie Russell Hochschild oferece um retrato íntimo e pessoal de uma dúzia de pessoas que vivem no pântano, por meio de uma coletânea de histórias, entrevistas e vinhetas etnográficas que descrevem as paisagens circundantes. A autora postula que, longe de ser o resultado de um cálculo frio e distante, a expressão das opiniões e da sociabilidade política desses indivíduos está enraizada em sensibilidades que o método etnográfico consegue revelar. Ela busca fornecer um relato de baixo para cima dos “muros de empatia” que foram erguidos entre o eleitorado conquistado pelas ideias da direita conservadora e aqueles afiliados a movimentos de justiça social e ambiental, que geralmente vivem em grandes cidades e próximos à extrema-esquerda do Partido Democrata, bem como a outras estruturas políticas, como o Partido Verde e os Socialistas Democráticos da América.

Esses “muros de empatia” evocam a falta de comunicação entre esses dois segmentos da população, ambos envolvidos, em graus variados, na denúncia das desigualdades tóxicas e ambientais nos territórios ou que eles próprios “moram” na poluição. (10) Arlie Russell Hochschild tece, assim, uma sociologia que decifra tanto as estruturas desiguais e tóxicas que moldam esses territórios quanto as representações e emoções das pessoas que ali vivem.

Contudo, a própria socióloga não é dessa região; muito pelo contrário. Enquanto outros pesquisadores conseguiram estudar comunidades afetadas pela poluição ambiental reivindicando um capital de identidade local, ou mesmo uma perspectiva de insider, Arlie Russell Hochschild representa, para aqueles que estuda, uma figura de rejeição, às vezes política, às vezes geográfica.

Vivendo em Berkeley, Califórnia, em uma das cidades mais progressistas da Costa Oeste, descrevendo-se como relutante em usar armas de fogo, optando na maioria das vezes por meios de transporte alternativos e transporte público, e lecionando ciências sociais em uma das universidades públicas mais importantes do país, a socióloga é uma raridade neste cenário dedicado aos interesses da indústria petroquímica.

Embora este livro não aborde diretamente as presidências de Donald Trump, visto que sua primeira edição foi publicada em 2016, pouco antes da posse do 45º presidente dos Estados Unidos, ele oferece, ainda assim, insights sobre muitas questões que explicam o voto majoritário na extrema-direita nessas áreas rurais. De fato, uma clara maioria dos eleitores da Paróquia da Assunção, de onde Mike é originário, votou no atual presidente em novembro de 2016 (61,6%) e novamente em novembro de 2024 (67,2%). (11)

O livro transmite, antes de tudo, a sensação de distanciamento relatada por muitas pessoas em relação a Washington, DC, onde a maioria das decisões que moldam o Estado federal são tomadas. Esse distanciamento é geográfico, é claro, mas também político, já que a maioria das pessoas cujas histórias são relatadas no estudo são residentes da região pantanosa de onde Mike é originário. Todos sentem uma certa marginalização simbólica e compartilham o mesmo perfil socioeconômico e profissional, que varia de donas de casa e aposentados a funcionários de pequenas empresas com menos de dez empregados, ou aqueles que trabalham na construção civil.

Essa marginalização os leva a rejeitar sistematicamente as instituições federais, que percebem como pouco representativas de seus interesses. (12) Enquanto as políticas federais são associadas às cidades e às pessoas que vivem em áreas urbanizadas com acesso a uma infinidade de serviços públicos, os entrevistados no pântano falam de uma forma de autonomia e independência para definir o valor do trabalho que acreditam incorporar. Eles reivindicam certo orgulho em seu trabalho, refletindo o discurso das indústrias ali presentes, que também são as principais geradoras de emprego na região. Nesse contexto, as potenciais regulamentações ambientais impostas pelas autoridades federais e os impostos sobre as empresas são percebidos como obstáculos aos únicos empregos disponíveis na região.

O fervor católico também molda as intuições políticas locais. Uma mãe que mora na pequena cidade de Mossville, onde o ar é poluído pela indústria e a saúde de seu filho estava se deteriorando, confidenciou à socióloga que encontrava particular conforto na Bíblia. “Não sei como teria lidado com a situação sem a Igreja”, explicou. (13) O cristianismo desempenha um papel significativo na definição das inclinações políticas dos fiéis, em um contexto onde as prateleiras das livrarias locais estão frequentemente repletas de Bíblias de todas as cores, formatos e tamanhos, oferecendo um refúgio diante das adversidades. (14)

Mas um dos fatores mais decisivos na votação do Tea Party é, sem dúvida, a questão da divisão “racial”. (15) Isso se refere a como os entrevistados, todos brancos, percebem sua brancura como uma característica de distinção e pureza social. Todos eles buscam se diferenciar dos afro-americanos que vivem em realidades socioeconômicas e ambientais semelhantes, em cidades e vilarejos a poucos quilômetros de distância. (16) É nesse contexto de evitação sistemática que eles passam a categorizar os afro-americanos, imigrantes ou descendentes de imigrantes, como ameaças ao seu modo de vida, sem jamais interagir com eles. (17)

Sem dúvida, a identidade da pesquisadora que conduziu a pesquisa desempenha um papel significativo na coleta de dados, mesmo que seja relativamente pouco discutida por Arlie Russell Hochschild: a recepção que ela recebeu foi geralmente positiva, apesar da relutância inicial dos entrevistados em se abrir para uma estrangeira, especialmente uma californiana. Contudo, a branquitude da pesquisadora constitui uma dimensão importante da aceitação da pesquisa, permitindo-lhe superar esses apropriadamente denominados “muros de empatia”.

Identidades fragmentadas

Essa autoimagem e percepção dos outros mantida pelos entrevistados é parcialmente motivada pela forma como sua identidade acadiana tem sido historicamente associada à vida rural, à pobreza e ao analfabetismo. Os cajuns [acadianos], descendentes reais ou imaginários de imigrantes da Acádia, uma província franco-canadense da qual muitos agricultores francófonos foram expulsos no século XVIII, ainda carregam o estigma de uma identidade etnolinguística relativamente marginal e precária. Percebidos como falantes de um francês rudimentar (broken French) em comparação com o chamado francês “parisiense” ou com o francês falado pelos crioulos da Louisiana, pertencentes à elite cosmopolita econômica, social e política de Nova Orleans, os cajuns são vistos como associados a uma forma desvalorizada e não hegemônica de branquitude.

A afirmação dessa identidade histórica estigmatizada é ainda mais poderosa porque as pessoas que vivem no pântano são associadas aos “Rememberers” (Recordadores). (18) Esses indivíduos relembram como suas identidades sociais, políticas e econômicas foram profundamente afetadas desde a década de 1960, especialmente desde o fim do Movimento dos Direitos Civis. Herdeiros de uma América segregada, na qual os brancos eram relativamente prósperos — pelo menos mais do que seus vizinhos afro-americanos —, esses moradores do pântano constroem sua visão de mundo em relação ao profundo ressentimento que sentem por não ocuparem uma posição dominante nas esferas social, política e econômica.

Mas o trabalho de Arlie Russell Hochschild também contribui para refinar nossa compreensão do que Rob Nixon chama de “ambientalismo dos pobres”. (19) Esse conceito define como as pessoas que não podem sair de suas casas ou locais de trabalho devido a severas restrições socioeconômicas têm suas vidas cotidianas afetadas pela violência lenta e insidiosa das emissões industriais tóxicas em seus bairros.

Longe de permanecerem em silêncio e passivas diante dessa violência lenta e insidiosa, essas pessoas participam de movimentos sociais que denunciam as injustiças ambientais que sofrem. Enquanto Nixon enfatiza que as experiências prejudiciais à saúde levam esses indivíduos a se organizarem e lutarem, Arlie Russell Hochschild mostra que o peso da memória e o orgulho local condicionam os indivíduos a evitarem fazer as malas ou se envolverem na denúncia de corporações, apesar dos danos que sofreram.

Por extensão, a postura das pessoas que vivem nos pântanos da Louisiana assemelha-se a uma rejeição do ambientalismo popular. Esse movimento surgiu em áreas onde as classes sociais mais desfavorecidas adotaram inúmeras práticas ambientais, desafiando a noção de que a ecologia era principalmente “um problema de gente rica”. (20) Embora vivam em áreas rurais remotas e enfrentem formas significativas de insegurança socioeconômica, essas pessoas que residem na Louisiana perto de indústrias poluentes não buscam se engajar em tais práticas ou movimentos. Pelo contrário, expressam uma certa desconfiança, até mesmo um profundo desconforto, com a denúncia das desigualdades sistêmicas e as lutas cuja retórica historicamente deriva do movimento pelos direitos civis, do qual desejam se distanciar. (21)

Uma lógica da responsabilidade individual

Em muitos aspectos, Estranhos em sua própria terra prenuncia seu sucessor, Stolen Pride: Loss, Shame, and the Rise of the Right, escrito por Arlie Russell Hochschild após sua pesquisa na Louisiana e publicado em 2024, é um excelente exemplo. Reconhecido pelo The New York Times e citado por Barack Obama como um dos melhores livros do ano, Stolen Pride dá continuidade à exploração da socióloga sobre a América rural conservadora, desta vez levando-a a compartilhar temporariamente a vida dos moradores da pequena cidade de Pikeville, no Kentucky.

Ao conhecer moradores predominantemente brancos no coração dos Apalaches, no segundo distrito mais pobre do país, Hochschild se impressiona com a forma como o sentimento de marginalização social, cultural e econômica molda a percepção que essas pessoas têm de si mesmas e da política. Nesta pequena cidade mineradora do Kentucky, os empregos estão se tornando cada vez mais precários com o fechamento das últimas minas de carvão do estado e após a enorme desindustrialização desde o final da década de 1980, que reestruturou profundamente o mercado econômico do país.

Enquanto as minas de carvão forneciam mais de 76.000 empregos na década de 1940, em 2014 apenas 8.000 pessoas eram empregadas pelo setor, em um estado rural onde a perda desses empregos iniciou um declínio econômico significativo para muitas famílias de mineiros. (22)

A perda desses empregos marcou o início de um longo período de declínio moral em Pikeville. Em uma entrevista gravada com a filha de um mineiro, ela relembra o orgulho que seu pai sentia ao chegar em casa do trabalho, feliz por trazer o salário que sustentaria sua mãe e seis irmãs. Isso até o dia da demissão que mergulhou a família no desespero. Ela se lembra de que sua mãe teve que procurar vales-alimentação (food stamps) e sentiu imensa vergonha ao pensar que seu marido perderia seu antigo status profissional: “Conseguimos usar o seguro-desemprego em uma loja longe da cidade, onde ninguém nos conhecia. Não queríamos que fossemos reconhecidos”. (23)

Os ex-mineiros, além da perda de seus empregos, carregam em seus corpos as marcas de anos respirando poeira de carvão nas minas. (24) Muitos deles desenvolvem “a doença do pulmão negro”, uma forma de inflamação crônica resultante do acúmulo de partículas abrasivas nos pulmões, causando tosse persistente, falta de ar e fadiga, podendo até levar ao câncer de pulmão.

Arlie Russell Hochschild demonstra que a crise econômica causada pela perda massiva de empregos na região está longe de ser a única perturbação vivenciada pelas famílias. A crise econômica se transforma em outra crise, desta vez uma crise de saúde, a saber, a crise dos opioides, que afeta muitas famílias na cidade desde a década de 1980. As páginas do livro estão repletas de dezenas de histórias de mulheres e homens que enfrentam situações socioeconômicas precárias e que recorrem às drogas: “Uma jovem mãe que havia entrado em depressão tornou-se viciada em drogas e foi obrigada a colocar seu bebê em um lar adotivo”. Ou ainda, “um pai, após ser demitido de seu emprego como mineiro de carvão, pegou carona para outras minas na esperança de encontrar trabalho, mas que mais tarde se envolveu com drogas e sofreu uma overdose”. (25)

Enquanto esses indivíduos socialmente marginalizados consomem opioides, as vítimas e suas famílias mantêm esse sentimento de fracasso moral e se culpam por esses comportamentos viciantes. Assim, narrativas de responsabilidade individual são frequentemente favorecidas por aqueles mais diretamente afetados, que não reconhecem a natureza sistêmica dos processos sociais e econômicos que subjazem ao surgimento de tal sofrimento. Esses processos sociais e econômicos permanecem, portanto, invisíveis.

A desindustrialização em larga escala aparece como terreno fértil tanto para o surgimento desses sofrimentos e vulnerabilidades econômicas e sociais quanto para movimentos políticos reacionários, como o liderado por Donald Trump, que teve inúmeros apoiadores no Kentucky, tanto em 2016 quanto em 2024. Pikeville representa, de certa forma, uma “oportunidade de inserção” para líderes neonazistas locais, incluindo Matthew Heimbach, fundador do Partido Trabalhista Tradicionalista, ativo entre 2013 e 2018.

Ele conseguiu se estabelecer nesse território com sua demografia relativamente homogênea – “brancos de baixa renda, população rural envelhecida, com nível de escolaridade até o ensino médio, vítimas de crises econômicas, nascidos ali, pobres” – na esperança de defender uma visão agressiva da identidade branca. (26) Arlie Russell Hochschild documenta como jovens encontrados nessa pequena cidade do Kentucky adotaram ideias lançadas por supremacistas brancos.

A cidade tornou-se até mesmo o ponto de encontro para a marcha organizada por Matthew Heimbach em abril de 2017, alguns meses antes da marcha Unite the Right de 2017 e do assassinato de Heather Heyer em Charlottesville pelo neonazista James Alex Fields Jr., ambos eventos que receberam cobertura da mídia nacional e internacional.

Retórica de vitimização

Isso toca em um ponto cego do livro, também encontrado no primeiro volume, Estranhos em sua própria terra, que trata da Louisiana. Em sua ânsia de se engajar em uma narrativa guiada pela empatia pelo sofrimento relatado pelos homens e mulheres que encontra, Arlie Russell Hochschild não analisa suficientemente como a vitimização produzida por esses “pequenos brancos” em relação à sua situação, que os leva a adotar uma atitude abertamente violenta em relação a pessoas estrangeiras à sua comunidade, é sobretudo um mito: na realidade, essas pessoas se beneficiam amplamente de uma ordem política e social que as coloca em uma posição vantajosa de domínio sobre imigrantes, descendentes de imigrantes ou minorias étnico-raciais, que se recusam a reconhecer. (27)

Embora isso não apague o declínio socioeconômico que sofreram desde meados da década de 1970, devido a uma quase estagnação de seus salários reais, ignorar tal crítica impossibilita o estudo rigoroso da retórica de Donald Trump e seus aliados de extrema-direita que, precisamente, buscam legitimar essa retórica de vitimização para obter popularidade.

Para além das diferenças geográficas e históricas entre os dois territórios estudados – um na Louisiana, um estado sulista outrora agrícola, e o outro no Kentucky, um estado outrora industrializado – a divisão social, simbólica, racial e geográfica sentida pelos habitantes do pântano e dos Apalaches explica como esses indivíduos definem suas relações com aqueles percebidos como “estrangeiros” em sua comunidade.

Embora a empatia seja um tema constante em ambos os livros de Arlie Russell Hochschild, ela revela como a violência social, ambiental e econômica que vivenciam gera implicitamente ignorância e ódio aos outros em um país cada vez mais polarizado.

Notas

1. Arlie Russell Hochschild, Strangers in Their Own Land: Anger and Mourning on the American Right, The New Press, The New Press, 2018 (2016), p. 4.

2. Sobre o tema do Tea Party, ver Agnès Trouillet, «“Jeux d’échelle”: de l’intérêt d’une analyse multiscalaire pour mesurer l’impact de la Droite radicale sur le Parti républicain (2010-2019)», Politique américaine, 34(1), 2020, p. 101-130; Marion Douzou, «De la sphère domestique à la sphère politique: l’engagement des militantes Tea Party», Politique américaine, 27(1), 2016, p. 113-129.

3. Arlie Russell Hochschild, Strangers in Their Own Land, op. cit., p. 9.

4. Em 2013, o jornalista e ensaísta Thomas Franck demonstrou, em um livro de grande sucesso, como o sentimento de mobilidade social descendente transforma o populismo de esquerda em populismo de direita. Ver Thomas Franck, Pourquoi les pauvres votent à droite, Agone, 2013.

5. Ver Barbara Allen, Uneasy Alchemy: Citizens and Experts in Louisiana’s Chemical Corridor Disputes, MIT Press, 2003.

6. Kimberly A. Terrell e Gianna St. Julien, Discriminatory outcomes of industrial air permitting in Louisiana, United States, Environmental Challenges, n°10, jan. 2023.

7. «“We’re Dying Here”: The Fight for Life in a Louisiana Fossil Fuel Sacrifice Zone», Human Rights Watch, 25 jan. 2024.

8. Arlie Russell Hochschild, Strangers in Their Own Land, p. 4.

9. Loïc Wacquant, Jim Crow. Le terrorisme de caste en Amérique, Raisons d’agir, 2024.

10. Christelle Gramaglia, Habiter la pollution: expériences et métrologies citoyennes de la contamination, Presses des mines, 2023.

11. Ver “Louisiana Election 2016: Live Results”, The Wall Street Journal, 24 fev. 2022; “Louisiana Election 2024: Live Results”, The Wall Street Journal, 5 nov. 2024.

12. Arlie Russell Hochschild, Strangers in Their Own Land, p. 97.

13. Ibid., p. 125.

14. Ibid., p. 18.

15. Na França, ver o livro recente do sociólogo Félicien Faury, que investiga as raízes do voto na RN em conexão com o racismo sistêmico nos territórios: Félicien Faury, Des électeurs ordinaires: Enquête sur la normalisation de l’extrême droite, Le Seuil, 2024.

16. Para obter informações sobre afro-americanos que vivem no Corredor do Câncer, ver Thom Davies, «Slow Violence and Toxic Geographies: ‘Out of Sight’ to Whom?», Environment and Planning C:  Politics and Space, 40(2), 2022, p. 409-427; Jennifer Klein, «Terres dévastées [Wastelands]: une géographie économique du déchet, de la coercition et de la marginalisation dans le sud-est de la Louisiane, 1890-1990», em Vivre et lutter dans un monde toxique: Violence environnementale et santé à l’âge du pétrole, Le Seuil, 2023.

17. Arlie Russell Hochschild, Strangers in Their Own Land, p. 138.

18. Arlie Russell Hochschild, op. cit., p. 49.

19. Rob Nixon, Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, Harvard University Press, 2011.

20. Gabriel Winant, The Next Shift: The Fall of Industry and the Rise of Health Care in Rust Belt America, Harvard University Press, 2021.

21. Sobre a congruência entre os movimentos de justiça ambiental e o movimento pelos direitos civis, ver Valérie Deldrève, Nathalie Lewis, Sophie Moreau e Kristin Reynolds, «Les nouveaux chantiers de la justice environnementale», VertigO, 19, n°1, 2019.

22. Ryan Van Veltzer, “Coal’s Dying Light: The decline of coal is hurting Kentucky and communities across the country”, Louisville Public Media, 19 jul. 2023.

23. Arlie Russell Hochschild, Stolen Pride. Loss, Shame, and the Rise of the Right, The New Press, 2024, p. 38.

24. Arlie Russell Hochschild, Stolen Pride, p. 84.

25. Arlie Russell Hochschild, op. cit., p. 10.

26. Arlie Russell Hochschild, op. cit., p. 17.

27. Sylvie Laurent, Pauvre petit blanc. Le mythe de la dépossession raciale, Maison des Sciences de l’Homme, 2020. As pessoas brancas não se percebem necessariamente como racistas, mas são dominantes na ordem social e racial vigente. Nesse sentido, elas se beneficiam da distribuição desigual desses direitos, sem necessariamente reivindicá-los como seus.

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