11 Julho 2026
O Manual Antifascista da Mongólia chega às livrarias, um guia satírico que visa identificar e combater o ressurgimento de ideias autoritárias na sociedade digital através do humor.
A reportagem é de Juanjo Villalba, publicada por El Diario, 08-07-2026.
A ascensão do autoritarismo no cenário político global deixou de ser uma distopia distante e tornou-se uma realidade palpável. Em um ecossistema marcado pelo ruído midiático e pelo discurso simplista, esse ressurgimento de ideologias reacionárias representa um desafio direto aos pilares fundamentais dos sistemas democráticos tradicionais.
O que no século XX era caracterizado por uniformes e marchas militares, hoje se dissemina por meio de telas, narrativas digitais e algoritmos projetados para favorecer o confronto.
Nesse contexto de mudança ideológica, foi publicado o Manual Antifascista da Mongólia, obra que utiliza a sátira e a análise crítica como ferramentas de autodefesa intelectual contra a nova onda reacionária. Tudo no estilo característico da revista.
A aliança entre dinheiro e algoritmo
A ascensão dos movimentos de extrema-direita resulta de uma complexa confluência de interesses econômicos e dinâmicas sociais contemporâneas. Segundo Darío Adanti, editor e cofundador da revista Mongolia, esse fenômeno está diretamente ligado às transformações do capitalismo global e às ambições das grandes empresas de tecnologia.
“A isso devemos acrescentar a ambição desmedida dos tecnoligarcas”, acrescenta ele, “os novos senhores do mundo, que favorecem um ecossistema autoritário porque a democracia já não lhes é lucrativa na competição com a China pela corrida às novas tecnologias”. Segundo o cartunista e escritor, essas elites inundam o Ocidente com recursos financeiros e lógica algorítmica para fomentar um modelo que beneficie seus interesses corporativos.
Essa estratégia encontra terreno particularmente receptivo devido à forma como as relações sociais evoluíram no ambiente digital. O sistema atual fomenta dinâmicas marcadamente individualistas e narcisistas. Contrariamente às expectativas, o fascínio por dispositivos móveis e pela internet não funcionou como um veículo para a comunicação e a expansão do conhecimento, mas sim pelo contrário.
Adanti alerta que o uso dessas ferramentas foi inocentemente delegado às novas gerações, o que facilitou a assimilação de discursos que favorecem figuras como Elon Musk, Peter Thiel e Alex Karp. "E agora estamos seguindo na mesma linha com a inteligência artificial, tornando essas pessoas bilionárias enquanto destruímos o planeta", acrescenta, apontando para o paradoxo de usar plataformas comerciais hipercapitalistas para disseminar slogans de resistência social. "Na melhor das hipóteses, usamos IA para criar uma animação de Marx para que possamos postar no Instagram sobre como o capitalismo é ruim, segundo o filósofo alemão."
A perversão da linguagem comum
Um dos principais campos de batalha na consolidação do discurso reacionário é a luta pelo significado das palavras. A redefinição de termos históricos, como equiparar o antifascismo ao terrorismo, busca alterar os referenciais da opinião pública a fim de normalizar posições que antes geravam ampla rejeição.
O editor do jornal Mongolia situa essa prática dentro de uma longa tradição de manipulação semântica por esses tipos de ideologias. "Faz parte da perversão linguística da direita, que não é tão nova assim", argumenta ele. "Lembremos que os nazistas se autodenominavam nacional-socialistas para realizar uma tomada de poder semântica da esquerda, assim como agora os setores mais contrários às liberdades individuais básicas, como a autonomia sobre o próprio corpo ou a sexualidade, se definem como liberais."
A influência de teóricos da chamada Alt-Right americana, como Steve Bannon, é crucial nesse processo. "Ele entendeu isso há muito tempo: na guerra cultural, narrativas e palavras criam a estrutura necessária para que ideias que eram tabu na opinião pública até ontem sejam aceitas sem resistência", explica.
“Nesse caos de palavras e conceitos, a verdade desaparece, e a discussão real e eficaz de ideias torna-se impossível porque não as discutimos usando o mesmo código; não há uma linguagem comum. Então, tudo o que nos resta é o humor, que, por outro lado, é um código compartilhado com aqueles que pensam como você”, continua ele. “Porque o humor, a ironia, a sátira — é aquela invenção cultural que temos desde tempos muito primitivos para ver como as ideias se desfazem e rir de toda idealização, imaginando-a pisando numa casca de banana e agitando os braços para não cair. E o fascismo é isso: uma grande e perversa idealização, destrutiva para a maioria, mas útil para as elites. Seu antídoto não é o medo que busca provocar, mas o riso que, em retrospectiva, de fato provoca, porque suas ideias são ridículas e anticientíficas.”
Tribos urbanas e impostura libertária
No Manual, os autores oferecem uma análise detalhada de figuras como os cryptobros, influenciadores dopados com esteroides e anarcocapitalistas. Um novo “fascismo pop” digital que parece quase mais perigoso do que a nostalgia obsoleta.
“O turbocapitalismo e a sociedade de mercado do dogma neoliberal criaram nichos de mercado dentro das ideologias que permitem que você se sinta parte de um grupo menor e mais seleto que detém a verdade”, explica Adanti. “Essa fragmentação é perigosa porque permite que muitos jovens defendam posições reacionárias sem sequer saber que fazem parte do núcleo do fascismo.”
Conceitos tradicionais como supremacia, imperialismo ou violência contra a diversidade são camuflados sob a estética moderna e a dinâmica das subculturas digitais.
“Por exemplo, eles se autodenominam 'libertários' e são sexistas, racistas, supremacistas e colonialistas. Mas se você lhes disser que são fascistas, eles negam porque o fascismo é estatista, e dizem que são contra o Estado”, argumenta Adanti. “No entanto, os grandes líderes libertários estão tomando o controle dos Estados e os transformando em ferramentas para reprimir protestos ou minorias migrantes. O fascismo é uma ferramenta útil para aqueles no poder, e se adapta aos tempos para permanecer eficaz sempre que seus privilégios ou lucros estiverem ameaçados. A ferramenta política e social é a mesma, mas o vocabulário e os artifícios mudam.”
O monopólio da provocação
Muitos analistas afirmam que a extrema-direita venceu a guerra cultural contra a esquerda, em parte porque agora utiliza memes, incorreção política e provocação. Segundo Adanti, isso não é novidade. “A guerra cultural sempre foi uma guerra assimétrica porque a extrema-direita controla toda a indústria que produz as tecnologias usadas para travar essa chamada guerra cultural. Não importa o que a esquerda fizesse, já que a batalha é travada em tabuleiros e com peças (como as redes sociais ou a internet) criadas pelos interesses promovidos pela extrema-direita, a esquerda estava fadada ao fracasso desde o início, independentemente de suas ações.”
“Mas é verdade que a esquerda indignada teve seu momento e agora está em retirada, e a esquerda aterrorizada não inspira nem tem forças para lutar contra um poder tão brutal”, analisa ele. Sua proposta envolve despir os líderes do autoritarismo tecnológico de sua solenidade e destacar suas contradições por meio do humor. “A única maneira de confrontar a extrema direita é sendo politicamente corajoso e rindo dela porque ela é perigosa, mas objetivamente ridícula”, aponta.
“Você já viu Elon Musk dançando? Já ouviu Peter Thiel falando sobre o anticristo? Além do imenso poder e da capacidade de matar que possuem, eles são caras ridículos e incrivelmente ignorantes”, conclui ele.
Os fundamentos culturais do autoritarismo
Há uma frase na sinopse do livro que diz: "O fascismo também vive dentro de nós". Isso significa que todos nós temos um "fascista interior"?
Na opinião de Adanti, "todos nós que nascemos no Ocidente, especialmente se formos homens, brancos e heterossexuais, temos uma dose significativa de supremacia causada pela exposição prolongada a essa contaminação cultural do nosso passado como impérios coloniais patriarcais".
A origem do autoritarismo social está intimamente ligada a emoções básicas e universais. "O fascismo permanece adormecido na maioria de nós porque é um sentimento culturalmente arraigado de medo do novo, do outro, da mudança, daqueles que são diferentes e da perda de status ou privilégio", reflete o cofundador da Mongólia.
Como esse modelo político prospera na insegurança coletiva, dissipar esse medo é o passo essencial para formular qualquer resposta democrática firme. O humor, nesse contexto, funciona como o mecanismo que nos permite confrontar a hostilidade antes que ela se transforme em paralisia social.
A resposta à estratégia de apontar o dedo
A trajetória de publicações como a Mongolia é marcada por tensões constantes com grupos radicais e organizações judiciais conservadoras.
O que começou como um fenômeno marginal passou a fazer parte do debate institucional devido ao apoio de partidos políticos tradicionais que aceitam e legitimam essas práticas de assédio. “Com a Mongólia, somos ameaçados há muitos anos”, explica Adanti. “Antes da pandemia, já tínhamos realizado dois espetáculos em Valência com proteção policial devido a sérias ameaças de grupos de extrema-direita. Houve uma manifestação de extrema-direita em um espetáculo em Cartagena, com policiais na entrada do teatro e distúrbios nas ruas. Em Sevilha, alguns membros da irmandade Macarena tentaram nos atacar. Depois da pandemia, recebemos ameaças por causa do nosso espetáculo 'Piadas Contra Franco', que aconteceu com proteção policial, e por causa da remoção de nazistas do teatro pela polícia. Sofremos ameaças constantes, insultos e uma campanha de assédio judicial, pelo menos desde 2023, por parte de grupos de extrema-direita.”
“A escalada é clara, e o que antes era marginal agora é endossado pelo PP e pelo VOX, que, com seus insultos e acusações, encobrem essas atitudes truculentas que antes eram minoria, mas agora são legitimadas porque seu discurso está chegando às instituições. Mas se eles querem que tenhamos medo, o melhor a fazer é rir deles”, conclui.
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