O terremoto na Venezuela e as dores do mundo contemporâneo. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 04 Julho 2026

As diversas camadas da tragédia na Venezuela: como os terremotos e a intervenção dos EUA vão impactar no país? A Guerra da Ucrânia e Rússia completa mais de 4 anos, sem uma perspectiva de paz. Enquanto os ricos lucram com a violência, os pobres ficam desamparados. Como a Copa do Mundo e lobby das bets servem de instrumento para fomentar as desigualdades sociais?

O caminho para uma igreja mais sinodal barrado: Vaticano rejeita a possibilidade de leigos realizarem a pregação das homilias nas missas. Como podemos manter a esperança sem se desgastar com a dor da realidade do mundo? Teólogos indicam caminho para uma utopia possível.

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Dupla Catástrofe na Venezuela

No dia 24 de junho, dois terremotos devastaram a Venezuela em questão de horas. Um evento sísmico equivalente a um século de energia liberado de uma só vez. Os números, uma semana depois, ainda são provisórios e sangram: mais de 2.595 mortos confirmados, mais de 11 mil feridos, 855 prédios danificados, 189 completamente destruídos. O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, chegou a sugerir que o total de mortos pode chegar a 10 mil. E mais de 40 mil pessoas permanecem registradas como "sem contato" com suas famílias.

A Venezuela ainda nem começou a lamentar, pois continua em modo de sobrevivência. A extensão total da catástrofe é impossível de calcular, mas é enorme. Os dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram o país um após o outro em menos de um minuto. Eles são considerados os mais destrutivos que o país sofreu em mais de um século.

A Venezuela não chegou a esse terremoto em condições normais. O país enfrenta uma dupla catástrofe. Segundo Boron, o colapso do Estado venezuelano não começou em 24 de junho. Começou anos antes, alimentado por uma combinação de má gestão interna, corrupção e pelas mais de 1.000 sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos desde 2015. Essas sanções dificultam a aquisição de medicamentos, combustível e equipamentos de resgate.

Guerra da Ucrânia e o lucro dos ricos

A guerra na Ucrânia completa mais de quatro anos. Mais de quatro anos de dor acumulada que não aparece nos índices do mercado financeiro, mas que financia, direta ou indiretamente, a ascensão de fortunas inimagináveis. Porque enquanto a dor se acumula, o capital não para. E nunca parou.

O escritor e jornalista alemão Fabian Scheidler, oferece uma chave para entender essa guerra que vai além das trincheiras. Para ele, o conflito não começou em fevereiro de 2022, começou há 30 anos, quando o Ocidente decidiu humilhar a Rússia após a queda da URSS, expandir a OTAN para o leste e ignorar os alertas de especialistas que advertiram: se encurralarmos a Rússia, ela vai reagir de um modo que não iremos gostar. Mas a vitória absoluta importava mais do que a paz.

E o resultado dessa escolha é uma guerra que Scheidler classifica como um conflito entre dois dos países mais corruptos da Europa. Rússia e Ucrânia se tornaram ainda mais corruptas com a guerra, não apesar dela, mas por causa dela. Elites extrativistas de ambos os lados encontraram no conflito um mecanismo perfeito de concentração de poder e riqueza. O dinheiro da reconstrução, os contratos militares, os fluxos de ajuda internacional, tudo isso alimenta oligarquias que têm interesse na continuidade do embate.

"As elites que se beneficiam das guerras na Rússia, na Ucrânia, nos Estados Unidos e em outros países conseguiram fazer com que o conceito de segurança compartilhada fosse esquecido", afirma Scheidler. E enquanto essas elites lucram, quem sangra é sempre os mesmos: os civis.

O lobby das bets na Copa do Mundo

A lógica do lucro não opera apenas nas guerras e nos mercados financeiros. Ela opera também dentro de casa. No celular. No aplicativo que promete enriquecer e entrega endividamento. Porque há outras formas de sugar a dor dos mais pobres, e uma delas está na palma da mão de 45 milhões de brasileiros.

A Copa do Mundo está na tela. Mas antes do apito inicial, antes do primeiro gol, antes mesmo da escalação dos times, já aparece uma bet. No uniforme do jogador. Na placa do estádio. No banner que cruza a transmissão. No story do influenciador que você segue. Impossível assistir a um jogo desta Copa sem ver bets.

Um levantamento exclusivo do portal ICL Notícias revelou que 61% do público que apostou durante a Copa perdeu dinheiro com as indicações de probabilidade da Cazé TV, plataforma de streaming que transmite os jogos e que recebe aportes milionários da XP Investimentos e dinheiro direto das casas de apostas. O negócio é lucrativo, para a plataforma. Para quem aposta, a conta raramente fecha. E a lógica é essa mesma: as bets não existem para que o apostador ganhe. Existem para que ele continue apostando.

Os números do Brasil assustam. Em 2025, quase 45 milhões de brasileiros estavam vinculados a apostas, 30% da população adulta do país. A pesquisadora Dayana Rosa, é categórica ao classificar esse cenário: "As apostas já operam como um produto de risco, com efeitos mensuráveis sobre o comportamento, a saúde mental e o endividamento dos apostadores." Mais de 12,8 milhões de pessoas já apresentam algum comportamento de risco relacionado a apostas. Mais de 600 mil brasileiros se inscreveram na plataforma de autoexclusão. E o SUS ampliou o teleatendimento a jogadores compulsivos por alta demanda.

Rejeição do Vaticano às homilias proferidas por leigos

A homilia é a pregação do Evangelho a partir de uma interpretação que compreenda as dores do cotidiano da sociedade e que utiliza as palavras de Deus para trazer algum tipo de conforto e entendimento de determinadas situações.

Buscando aproximar a comunidade com a Igreja, os bispos católicos alemães, desde os anos 70, têm solicitado periodicamente permissão ao Vaticano para diversas formas de pregação leiga. O pedido mais recente foi o indulto para que leigos “teológica e espiritualmente qualificados”, “encarregados pelo bispo”, preguem a homilia aos domingos e dias santos.

Além da tentativa de seguir um caminho sinodal para a Igreja, o presidente da Conferência Episcopal Alemã, Dom Heiner Wilmer, conforme reportagem da revista América, fez um alerta para as novas realidades do sacerdócio”

“A situação pastoral na Alemanha se intensificou a tal ponto que surgem cada vez mais situações em que sacerdotes presidem a celebração dominical da Eucaristia e que — seja por idade avançada, fragilidade física, barreiras linguísticas ou outros obstáculos — não conseguem proferir a homilia de maneira adequada”. Ele argumentou que “não é defensável perante os fiéis proibir homilias leigas nessas situações”.

Manter a esperança perante a realidade das dores do mundo

“Vivemos tempos distópicos. O horizonte parece ter desaparecido. Na verdade, estamos no coração de uma crise planetária com tal gravidade que poderá significar o fim da espécie humana. No entanto, a Terra passou por 15 grandes dizimações. Mas a vida sempre sobreviveu. Alimento a esperança de que também desta vez sobreviverá, mas não sem penosos sacrifícios a serem pagos em vidas humanas e da natureza.

Estas palavras do teólogo, filósofo e escritor, Leonardo Boff, nos remetem a uma esperança embebida de uma dose de melancolia. As dores do mundo fazem a Terra gritar. Mesmo assim tanto o planeta, quanto a sociedade que o utiliza de casa, já demonstraram que outros caminhos são possíveis. Em seu artigo publicado pela revista LIBERTA do ICL, Boff evoca o conceito de era ecozóica, criado pelo cosmólogo Brian Swimme. Esta seria uma outra era geológica, onde aquilo que está ligado à Casa Comum ganharia centralidade.

A tecnociência, a própria IA e todos os demais saberes estariam a serviço do cuidado desse dom sagrado que o universo ou Deus nos têm contemplado: o planeta vivo, a Terra, Grande Mãe, Pachamama e Gaia com todos os seres que ela gerou e nela vivem e convivem.

Para que isso aconteça, precisamos nos conectar com as vivências do mundo concreto. Como disse o teólogo e professor, Vito Mancuso, em entrevista publicada pela revista Libertà, devemos seguir os métodos do Cardeal Carlo Maria Martini fazer a lectio divina, (oração, reflexão e contemplação) da realidade.

“Martini deixou-me o seu método: a lectio divina da realidade, entendida não apenas como modalidade de ler a Bíblia, mas como modalidade de ler a própria realidade. Significa possuir a honestidade profunda de quem enxerga a realidade como ela realmente é, com desencanto, e ao mesmo tempo introduzir nela aqueles critérios de esperança, de utopia e de coragem capazes de torná-la fecunda”, explica Vito Mancuso.

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IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.