03 Julho 2026
Analista da Universidade do Qatar: "O objetivo de Doha sempre foi a estabilidade, mas os Pasdaran não podem presumir que têm o controle de Ormuz."
A entrevista é de Francesco Manacorda, publicada por La Repubblica, 03-07-2026.
"Ambos os lados precisam de resultados para poderem dizer que estão alcançando algo." Abdulla Banndar Al-Etaibi leciona relações internacionais na Universidade do Qatar e estuda principalmente a política externa de Doha e seu papel como mediador. Aqui, ele explica que as recentes negociações servem não apenas para encontrar um terreno comum entre Washington e Teerã, mas também para permitir que os EUA e o Irã digam aos seus respectivos públicos que venceram.
Eis a entrevista.
As negociações em Doha representam uma verdadeira abertura diplomática?
Pelo que sabemos até agora, os principais negociadores americanos se reuniram com Sua Alteza o Emir e confirmaram a posição dos Estados Unidos: continuar no caminho da diplomacia e das negociações. Acredito que agora deixarão os detalhes a cargo das equipes técnicas iranianas e americanas. Um sinal interessante é a presença de um representante do Ministério da Agricultura na delegação iraniana. Isso pode estar relacionado aos fundos congelados ou aos produtos humanitários de que o Irã precisa neste momento.
O Catar está simplesmente oferecendo um canal de comunicação ou está tentando influenciar o resultado das negociações?
É muito difícil para um mediador influenciar o resultado político. Depende das partes em conflito e da sua vontade de participar em discussões frutíferas. Para o Catar, a estabilidade sempre foi o objetivo. É um dos principais pilares da Constituição, da identidade nacional do Catar e da sua soberania. E beneficia toda a região.
O que torna essa mediação tão difícil?
Existe um enorme abismo entre os dois lados. Ambos precisam de resultados para anunciar que estão conquistando algo. Ambos têm seus respectivos públicos a seu favor. Os iranianos se preocupam com sua imagem. Até mesmo o presidente Trump está tentando vender a ideia de que está alcançando algo. O papel mais importante do mediador não é apenas encontrar um terreno comum para um acordo, mas encontrar um terreno comum que permita a ambos os lados demonstrar aos seus respectivos públicos que saíram vitoriosos.
Será possível reconstruir a confiança no Golfo após os ataques?
Isso levará muito tempo. E precisaremos de resultados tangíveis e compromissos concretos. O Irã deve demonstrar sua confiabilidade e se engajar mais com a região, inclusive no Estreito de Ormuz.
Os EUA devem envolver a região mais de perto em decisões que podem mergulhá-la no caos.
O conflito de Ormuz hoje é um dossiê técnico ou político?
É uma questão profundamente política. O Irã usou o Estreito como moeda de troca nas negociações porque sabia que Omã não queria ser arrastado para a guerra nem perder seu status de neutralidade. Mas a posição de Omã é clara: a livre passagem deve ser garantida. Só porque você está sentado perto da porta não significa que pode impedir que todos saiam da sala. Os países da região querem dialogar com o Irã, mas o Irã não pode presumir que o controle de Ormuz esteja garantido.
Um fracasso nas negociações prejudicaria a imagem do Catar como mediador?
Os esforços de mediação não devem ser confundidos com os resultados da mediação. Os resultados dependem das partes envolvidas no conflito.
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