02 Julho 2026
Treze anos depois, as mobilizações que pararam São Paulo - e o país na sequência -, derrubaram o aumento e colocaram a tarifa zero no centro do debate político, ainda rendem reflexões estratégicas aos militantes que acreditam na radicalidade da esquerda.
O artigo é de Liga Anticatraca, publicado por Jacobin, 30-06-2026.
Liga Anticatraca é o pseudônimo de dois ex-militantes do Movimento Passe Livre de São Paulo (MPL-SP).
Eis o artigo.
O marco divisório das manifestações de junho de 2013 na história brasileira só foi possível graças à ação consciente e planejada de um movimento social com anos de experiência política. A trajetória do Movimento Passe Livre (MPL) revela a potência de um movimento social que, com tempo e dedicação militante, toma para si a tarefa de gerar uma revolta popular.
Ao mesmo tempo, essa trajetória revela a falência de projetos espontaneístas que renegam o papel da organização de massas no direcionamento das lutas. Isto porque, para transformar a revolta popular em poder popular, seria fundamental contar com uma organização pronta para se enraizar nas bases da sociedade.
Algumas pessoas que participaram na organização dessas lutas afirmam, até hoje, que o MPL fez tudo o que dava para fazer. É da nossa opinião que o movimento abriu uma oportunidade de ouro para se impor no cenário político brasileiro como uma força permanente de formação e mobilização da esquerda radical, que ele podia ter assumido seu protagonismo para ampliar e fortalecer as causas populares, mas optou pela retaguarda.
O MPL viu chegar o cavalo da história, viu ele cravar os cascos no chão, baixar o corpo e relinchar manso, mas não montou nele porque o cavalo é uma metáfora da hierarquia.
Esta é uma análise crítica, 13 anos depois, de dois ex-militantes do MPL que participaram da construção das manifestações de junho de 2013 em São Paulo. Propomos expandir aquela pergunta do Mark Fisher: “E se você convocasse um protesto e todo mundo aparecesse?” E se você soubesse que todo mundo ia aparecer? Aproveitaria o fato para politizar e organizar quem apareceu?
É preciso recuperar dessa história o seu agente principal para identificar que lições podemos tirar de sua experiência. No que compartilhamos a seguir, as três primeiras lições dizem respeito aos acertos do MPL, sobre como um movimento pequeno foi capaz de gerar um acontecimento tão determinante na história brasileira. A quarta lição, mais longa, diz respeito a contradições internas do MPL de São Paulo naquela época. Não queremos menosprezar o seu papel na história recente, mas fomentar o debate sobre as possibilidades e limites da mobilização popular. Desejamos, enfim, contribuir para a construção de novos movimentos que, para além de marcar um momento na nossa história, possam tornar-se protagonistas de uma nova era.
Lição 1: mobilização se constrói com legitimidade histórica
O MPL segue a tradição dos movimentos altermundistas que travaram batalhas históricas na virada do século contra a Organização Mundial do Comércio, a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a invasão imperialista dos Estados Unidos no Iraque. São movimentos formados principalmente pelo anarquismo e pelo autonomismo, com menor influência do marxismo.
Desde sua fundação, o MPL é um movimento de âmbito nacional com núcleos em diferentes cidades pelo país. Ele foi fundado em 2005 em Porto Alegre, no contexto do 5º Fórum Social Mundial, mas sua história precede esse encontro. Antes de se organizarem como um movimento nacional, havia em diferentes cidades os “Comitês de Luta Contra o Aumento”, que já tinham barrado aumentos e provocado grandes revoltas. As mais marcantes e influentes foram a Revolta do Buzú (em Salvador em 2003) e as Revoltas da Catraca (em Florianópolis em 2004 e 2005).
O salto que foi dado em Porto Alegre, em 2005, foi o reconhecimento de que o transporte público é um problema estrutural para a luta de classes na cidade e que seria necessária a organização de um movimento social permanente para politizar a questão e tratá-la com a devida seriedade. A partir de então, sempre que a tarifa aumentava, era um movimento social organizado que mobilizava as lutas.
Apesar de ser um grupo pequeno, o MPL de São Paulo sempre foi muito ativo e articulado. Além de mobilizar as lutas contra o aumento, o movimento tinha proximidade com os metroviários, com sindicatos de professores, com a Marcha da Maconha, dava suporte em manifestações de lutas por moradia, por saúde, de causa ambiental, antimanicomial, abolicionista penal, entre outras. No começo dos anos 2010, São Paulo vivia uma nova geração de lutas e o MPL estava no cerne dela.
É importante notar que as revoltas de 2013 nada tiveram de espontâneas. Era o movimento que determinava data, hora e local dos atos, dava os informes à multidão por jogral, e mobilizava os recursos necessários para a mística – Liga Anticatraca
Para alguns, como o Reinaldo Azevedo, essas manifestações constantes pareciam vir de um bando de “vagabundos” ingênuos sem nada melhor para fazer. Nada mais longe da realidade. A participação e suporte para essas manifestações tiveram pelo menos duas consequências fundamentais para o MPL. Primeiro, formou um enorme acúmulo de conhecimento prático sobre como ocupar as ruas e de conhecimento especializado sobre transporte, mobilidade e direito à cidade. Segundo, o movimento cresceu sua base de apoiadores e formou sua legitimidade histórica. Suas lutas se tornaram cada vez mais conhecidas e passaram a compor a memória coletiva da população de São Paulo. Quando havia aumento, a esquerda combativa se juntava ao MPL e a população em geral sabia que haveria luta.
Depois da luta contra o aumento de 2011, entre agosto daquele ano e o começo de 2013, o MPL de São Paulo esteve em campanha por um “projeto de lei de iniciativa popular” pela Tarifa Zero. Essa campanha envolveu diversas atividades, como mutirões de coleta de assinaturas, articulação política (inclusive com a deputada federal Luiza Erundina e o Secretário de Transporte de sua gestão na prefeitura paulistana, Lucio Gregori), discussões com acadêmicos e sindicalistas, produção de cartilhas informativas e vídeos de agitação, até experimentos cênicos e intervenções performáticas como a entrega do Troféu Catraca pelo personagem Barão Catraca, uma anti-homenagem ao então prefeito Gilberto Kassab.
A campanha pela tarifa zero teve pouco alcance, mas a atividade militante, as articulações políticas e as discussões frequentes mantiveram o núcleo duro do MPL coeso e preparado para um novo salto de qualidade no debate público.
Lição 2: ocupar as ruas é uma arte
Você lembra do Churrascão da Gente Diferenciada, em 2011? Foi um dos primeiros atos convocados de forma espontânea como um “evento” no Facebook, talvez o primeiro em São Paulo. Ele apareceu primeiro como uma sátira, uma provocação que tomava como referência a fala elitista de uma moradora do Higienópolis (um bairro rico de São Paulo) que disse, em entrevista, que não queria metrô na região porque ele atrairia “drogados, mendigos, uma gente diferenciada”.
O que começou como uma sátira no Facebook virou um ato com quase 1.000 pessoas em clima festivo. As mídias digitais não cumpriram o trabalho de forma mágica. Quem segurou a festa do Churrascão foi a bateria do MPL, que marcou sua presença e sustentou a música do evento do começo ao fim. O ato foi mobilizado inicialmente de maneira espontânea, mas foi mantido vivo por horas graças à participação de um movimento social com anos de experiência em manifestações de rua.
Entre 2011 e 2013, a própria bateria de rua do MPL, que desde meados dos anos 2000 era composta por um surdo, duas caixas e latas velhas de tinta amarradas na cintura com barbante, transformou-se na Fanfarra do M.A.L. (sigla para movimento autônomo libertário). A bateria se especializou, adotou instrumentos de sopro, comprou novos instrumentos de percussão e começou a ensaiar semanalmente. A bateria que tocou no Churrascão da Gente Diferenciada, a mesma que tocou nos atos contra o aumento da passagem de 2011, e em tantos outros atos, agora, em 2013, tocava muito melhor e mais alto.
Então, em 6 de junho de 2013, na concentração do primeiro grande ato daquele ano, o MPL ateou fogo em três catracas de papelão enquanto a Fanfarra do M.A.L. batucava seus instrumentos e gritava: “Pu-la ca-tra-ca!”. Algumas pessoas se atreviam a pular as catracas em chamas. Ao mesmo tempo, descia do Viaduto do Chá um imenso bandeirão preto, onde se lia: “Se a tarifa não baixar a cidade vai parar”. O cenário composto pelo MPL virou foto de capa dos jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo no dia seguinte.
O ritual com fogo, batucada e palavras de ordem, mais do que produzir boas imagens, instigava os ânimos de revolta, de unidade e de que aquele evento não era normal, que ele era significativo e, portanto, que seria possível sair alguma mudança dali. Essa mística acompanhou todos os atos, do começo ao fim, com a fanfarra, as faixas, cartazes, com palavras de ordem e orientações para os manifestantes pelo megafone, até com uma catraca velha de ferro, muito pesada, que o MPL sempre levava para os atos e carregava ao longo de quilômetros como se fosse um butim de guerra arrancado do território inimigo.
A ausência de carros ou caminhões de som também era uma escolha calculada. Mesmo havendo recursos suficientes para o aluguel de um carro de som, eles seriam destinados a materiais como faixas, bandeiras e instrumentos musicais. A tradição autonomista sempre reforçou a importância do povo tomar e celebrar as ruas. Isso é ainda mais forte para o MPL, que tem o direito à cidade como pauta central.
Obviamente, o MPL não tem nada contra veículos automotores (a luta é por transporte), mas é simplesmente mais instigante acompanhar um ato quando dançamos com a fanfarra do que passivamente ouvindo discursos de um palanque. Os poucos informes do MPL são feitos por jograis em que uma pessoa em lugar de destaque, como uma escadaria, grita (muitas vezes sem megafone) frases curtas para que todas as pessoas ao redor possam repetir e amplificar o que é dito.
Essas são escolhas estéticas e políticas, pois colocam a multidão no papel de mobilizadora ativa. A mística do MPL estava em coerência com a estratégia política do MPL. Se a estratégia é de combate, é necessária uma mística combativa. Se a mística é recuada, como vemos em manifestações de centro-esquerda, a tendência é que os resultados sejam recuados.
Lição 3: a revolta tem fôlego curto
Foi com seu trabalho continuado ao longo de anos, tanto nas suas próprias mobilizações quanto nas de outros grupos, que o MPL desenvolveu maestria na arte de ocupar as ruas. Esse conhecimento foi fundamental na gestação da revolta, mas não era suficiente.
Naquele ano, o MPL de São Paulo não chamou suas organizações parceiras para compor um Comitê de Luta Contra o Aumento, como costumava fazer. Dessa vez, o movimento assumiu sozinho a responsabilidade de organizar a luta. Alguns grupos foram convidados a participar em funções pontuais, como nas comissões de segurança dos atos. Essa decisão pode soar antidemocrática para um movimento de raízes autonomistas, mas o MPL conhecia melhor do que ninguém as razões pelas quais, no passado, outras lutas contra aumentos de tarifa foram bem-sucedidas. Sabia bem, também, que a intervenção de outros grupos políticos na preparação dos atos levava a modelos mais recuados, como aconteceu em 2010, quando um partido barrou a proposta do movimento de tomar a Avenida 23 de Maio.
O calendário de mobilizações em São Paulo foi propositalmente intenso. Do dia 06 ao 18 de junho de 2013, no decorrer de nove dias úteis, houve seis grandes atos no centro da cidade. Essa opção foi decisiva. Em uma reunião de planejamento, antes de tudo começar, desenhamos o calendário completo e tínhamos já a nossa aposta de quando o aumento seria revogado. Nós acertamos a aposta.
Como outros dois ex-militantes do MPL de São Paulo escreveram mais tarde em uma avaliação crítica sobre a “tática da revolta”, o movimento aprendeu que só uma revolta popular poderia barrar o aumento, e que uma revolta popular (como foram a Revolta do Buzú e as Revoltas da Catraca) exigiria a mobilização de atos constantes. Não toda semana, mas todo dia: uma luta de “fôlego curto”.
Essa tática impediu que o sentimento de revolta se dissipasse e garantiu que as manifestações fossem pautas constantes nos noticiários e nas redes digitais. O intervalo entre um ato e outro era apenas o suficiente para que circulassem as fotos e vídeos da repressão policial. A revolta de fôlego curto infla os meios de comunicação com informações e imagens, um elemento que, como notaríamos anos depois (em particular com a tática “flood the zone with shit” de Steve Bannon, que busca inundar as mídias com desinformação), tornou-se cada vez mais central para a disputa de hegemonia política.
Um movimento com legitimidade histórica, uma mística combativa na ocupação das ruas, mobilização constante todos os dias. Longe de ser receita pronta para o sucesso, entendemos que essas são três condições na construção da revolta popular. Não significa que sejam suficientes, pois há sempre um fator de mistério no que são os “ânimos” da população. De todo modo, o que é importante notar é que as revoltas de 2013 nada tiveram de espontâneas. Era o movimento que determinava data, hora e local dos atos, dava os informes à multidão por jogral, e mobilizava os recursos necessários para a mística.
As manifestações não cresceram porque vários grupos difusos de pessoas espontaneamente resolveram adotar a tática black bloc, nem porque agora tínhamos as redes digitais, muito menos por conspiração ianque, mas porque um movimento organizado e experiente sabia como e com que frequência devia organizar os atos para instigar a revolta.
Lição 4: a organização é um compromisso de quem mobiliza a luta
A tática da revolta não garante, de forma alguma, a continuidade da luta nem o acúmulo de forças para as lutas posteriores. Para garantir essa continuidade, o trabalho de base enraizado na sociedade é fundamental. No texto citado acima assinado por outros dois ex-militantes do MPL, eles admitem esse limite na tática da revolta, mas atribuem a falta de enraizamento da esquerda ao PT e à esquerda marxista, ignorando a responsabilidade do MPL.
Com a enorme notoriedade que conquistou com as manifestações de 2013, o MPL chegou a organizar três atividades simultâneas, ainda em 23 de junho, com o nome Por dentro do Movimento Passe Livre. Cada uma delas teve entre 200 e 400 pessoas. Após as atividades, apesar do grande número de pessoas interessadas em participar organicamente do movimento, o MPL deliberou por maioria que não daria continuidade ao processo de ingresso de novos militantes.
Mesmo a campanha do projeto de lei de iniciativa popular pela Tarifa Zero, que tinha sido interrompida poucos meses antes, não foi retomada. Depois das manifestações de junho de 2013, a campanha poderia contar com o esforço coletivo das multidões que ocuparam as ruas. Tarefa para distribuir entre novos militantes é o que não faltava: mutirões de coleta de assinaturas, articulação com outras organizações para dar maior visibilidade ao projeto de lei, produção de material impresso e audiovisual, gestão das mídias digitais etc. Nada disso foi feito.
O movimento recusou sua responsabilidade em relação àquela grande massa de pessoas que encontrou nele uma importante referência de mobilização política. Por quê?
Uma primeira resposta apressada é que o MPL era composto por um grupo pequeno de pessoas e que, por isso, não teria condições para organizar tanta gente. De fato, nas suas melhores épocas, as reuniões do MPL de São Paulo, sem contar sua rede de apoiadores que se reunia nos “Comitês de Luta”, não passavam de 20 pessoas. Contudo, o movimento não cresceu. Mais grave que isso, ele tornou-se menor e cada vez mais irrelevante, a ponto do MPL de São Paulo ter sido incapaz, por falta de militantes, de mobilizar uma luta contra o aumento da tarifa em 2026. É verdade que o movimento era pequeno em 2013, mas nunca foi inapto e, como vimos, não faltou oportunidade.
A segunda resposta diz respeito a um problema de segurança. O receio de deixar o movimento ganhar aderência e visibilidade se justifica em parte, porque os movimentos de esquerda radical sempre sofreram perseguições políticas e sempre correram o risco de receber infiltrados. Mas não justifica completamente o abandono do MPL, porque não faltam exemplos de movimentos sociais que cresceram de maneira controlada, preservando sua coesão e segurança interna. Um exemplo recente é o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que mobiliza “brigadas” para ingresso de militantes todo ano desde 2016 e que, justamente na segunda metade dos anos 2010, tornou-se o segundo movimento social de maior projeção no Brasil, menor apenas que o MST, e relevante o suficiente para elevar duas lideranças (Guilherme Boulos e Ediane Maria) aos cargos de ministro e deputada estadual. Podemos fazer as críticas que quisermos à adesão do MTST ao projeto petista, mas isso não exclui o fato de que ele cresceu em número de militantes de maneira coesa. Já o MPL não só não cresceu: ele minguou.
A terceira resposta, que consideramos mais relevante, é um certo descompromisso com a organização popular de grande parte da esquerda autonomista. O ponto de partida para compreender isso é o posicionamento crítico ao “autoritarismo” e à “burocratização” dos movimentos sociais de larga escala. As críticas são muitas vezes justas, mas elas raramente vêm acompanhadas de um projeto alternativo de distribuição do poder. Em vez disso, o que encontramos é a contradição de uma esquerda que se diz anti-autoritária, mas prefere construir organizações pequenas e com o mínimo possível de estruturas internas, de modo a manter controle rígido sobre elas.
Repete-se o argumento de que “organizar o povo” seria uma pretensão autoritária, que o povo deveria se organizar “por si mesmo”. As ferramentas e recursos para isso, contudo, não estão dados, e é justamente aquele movimento social que se apresenta na arena pública como uma alternativa radical, aquele que se propõe a mobilizar e radicalizar a população, o que deveria apresentar também tais recursos para a organização.
No clássico texto de 1970 A tirania das organizações sem estrutura, a ativista feminista Jo Freeman já dizia que, quando uma organização não se estrutura, ela não pode encontrar condições para crescer. Grupos sem uma estrutura formal podem ser úteis para juntar pessoas e para promover debates, e não há nada de errado nisso. A informalidade só vira um problema quando o grupo deseja crescer e ampliar suas ações, quando quer ir além da “conversa” e partir para a prática social (no caso do MPL, mobilizar a luta por transporte público gratuito de qualidade).
Se a organização não define uma estrutura formal, a tendência é que seja controlada por estruturas informais definidas por um grupo minoritário. Em geral, é um círculo estreito de amizades que se torna uma “elite” interna, nos termos da Jo Freeman: “uma elite refere-se a um pequeno grupo de pessoas que tem poder sobre um grupo maior do qual faz parte, normalmente sem responsabilidade direta perante ele e, frequentemente, sem seu conhecimento ou consentimento”.
Apesar de conhecer bem esse texto e de ter discutido ele internamente, o MPL nunca formalizou uma estrutura interna de organização. O movimento sempre preservou a forma de organização horizontal mais simples possível: o assembleísmo. Todas as decisões eram tratadas pelo conjunto de pessoas presente na reunião. Por ser muito simples, o modelo de organização assembleista pode parecer óbvio e intuitivo, mas ele tem um grave limite de escala. A tomada de decisões já é difícil em uma assembleia com 100 pessoas, como acontecia nos Comitês de Luta Contra o Aumento. Se o MPL se atrevesse em 2013 a chamar as massas para compor o movimento, realizaria assembleias com centenas de pessoas? Talvez milhares? Seria impraticável decidir e realizar qualquer coisa.
Uma organização que se pretende democrática deve se estruturar para isso. Isso não tem nada a ver com autoritarismo, nem mesmo com uma adesão automática ao modelo do “centralismo democrático”, e a militância do MPL sabia da existência de alternativas historicamente constituídas.
Desde sua fundação nacional, em 2005, o MPL adotou o princípio do “federalismo” visando a articulação entre os núcleos dispersos por diferentes cidades pelo país. Seguindo esse mesmo princípio, o MPL de São Paulo tinha a opção de se dividir em núcleos organizados por diferentes bairros ou regiões da cidade, coordenados por meio de uma instância representativa (um “conselho” federalista) com representantes rotativos. Esse modelo foi experimentado em São Paulo nos primeiros anos do movimento, mas ainda com um número muito pequeno de militantes. O experimento não funcionou daquela vez e nunca mais foi tentado.
Em 2013, o MPL já tinha um longo acúmulo de experiências e era muito mais conhecido e respeitado. Ainda assim, a única opção para participar do movimento era frequentar as reuniões realizadas no centro da cidade (em um pequeno espaço na Rua Frei Caneca) e se “enturmar” com um grupo coeso de pessoas, a maioria jovens estudantes da classe média. Isso sempre dificultou a entrada e permanência de pessoas novas no movimento, especialmente de pessoas periféricas.
Se o MPL optasse pela entrada de novos militantes, seria necessário dividir o núcleo do centro e distribuí-lo em diversos núcleos. Essa divisão resolveria o problema das assembleias impossíveis com centenas de pessoas, tornando viável o crescimento coeso do movimento. Por outro lado, diminuiria o poder de influência de cada membro, principalmente o poder decisório e de influência da “elite interna” do movimento, e diluiria sua rede de afetos. O que nos parece é que a militância do MPL estava disposta a perder o controle das ruas, mas não estava disposta a perder o controle interno sobre o próprio MPL.
Da revolta ao poder popular
Até junho de 2013, passe livre era coisa de estudante. A discussão sobre tarifa zero nos transportes era tida como ingênua, quando não era simplesmente nula. Hoje vemos desde uma absorção da pauta pelo campo liberal até sua radicalização pela esquerda, como na PEC proposta por Luiza Erundina que visa implementar um Sistema Único de Mobilidade com tarifa zero em todo o território nacional. Se é possível discutir isso hoje, é porque treze anos atrás o MPL pôs em xeque a lógica mercantil do transporte público.
Junho de 2013 é o resultado de um longo acúmulo de práticas militantes que envolveram desde discussões sobre transporte e cidade até experimentos contínuos na composição estética de um protesto. A experiência nos ensina que é possível para um movimento social (o que não significa que seja fácil, nem que possa ser feito em qualquer momento) planejar e ativar um processo de aceleração da transformação social. Mas isso não basta. É preciso não se contentar com o momento da revolta e partir para uma estratégia de crescimento e fortalecimento das organizações populares.
A luta não termina quando um lado mobiliza centenas de milhares de pessoas nas ruas, ela só se intensifica. Se o agente principal da mobilização não apresenta um projeto de organização, a discussão política levantada pelas ruas é abstraída e cooptada pelos setores da sociedade que estão mais organizados. Como os anos seguintes mostraram, quem estava mais preparado para ocupar o vácuo deixado pela revolta era a extrema-direita.
Com isso não se deve concluir que as revoltas de junho de 2013 sejam responsáveis pela emergência do fascismo. O fascismo estava já muito vivo e atuante quando o jornalismo pinga-sangue celebrava, dia após dia, o genocídio da população preta, pobre e periférica; o fascismo se organizava em grupos neonazistas, mobilizava atos de rua sem sofrer consequências e chamava por Bolsonaro presidente já em 2011; o fascismo estava presente quando Marcos Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal em março de 2013; e o fascismo se deleitava com a justificação, pelos governos petistas, do etnocídio em Belo Monte e da invasão no Haiti como simples dado da realpolitik.
Dizer que junho de 2013 “gerou” o fascismo, se não é ignorância ou simplesmente má-fé, é se colocar no lugar de eterna vítima das condições históricas e se eximir da responsabilidade enquanto agente político. A novidade que as revoltas trouxeram não foi o fascismo, e sim o fim do pacto conciliatório, mas, como Vladimir Safatle já dizia em abril daquele mesmo ano, esse pacto sempre teve prazo de validade.
A lição mais simples e valiosa que o MPL deixou para a história brasileira é que, se vamos jogar para vencer, precisamos de mobilização constante e radicalizada. Junho de 2013 só foi um marco porque um movimento social com experiência e legitimidade histórica organizou atos dia após dia e porque, em cada ato, instigou nas massas um espírito insurrecionário. Mas é preciso reconhecer também que, se a esquerda quer jogar para vencer, ela tem o dever ético de se preparar para o que vem depois da vitória.
Em oposição à política feita pela via do Estado, é lugar comum dizer que “política se faz nas ruas”. Essa é uma verdade parcial. A política “de baixo para cima” se faz sobretudo nas comunidades, sindicatos, escolas, casas de cultura, enfim, em todo espaço de convivência social, assim como na construção das estruturas internas dos partidos e movimentos sociais. É com atividades constantes nesses espaços, alinhadas a uma estratégia de crescimento organizacional, que caminhamos na construção do poder popular.
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