01 Julho 2026
A primeira grande arquitetura institucional com a qual o Vaticano pretende abordar os desafios da inteligência artificial começou a tomar forma, promovida por Leão XIV para coordenar a reflexão e a ação dos diversos órgãos da Santa Sé.
A reportagem é de Abraham Canales, publicada por Workers News, e reproduzida por Religión Digital, 30-06-2026.
A estratégia do Vaticano sobre inteligência artificial entra em uma nova fase com a primeira reunião da Comissão Interdicasterial promovida por Leão XIV.
O primeiro grande arcabouço institucional com o qual o Vaticano pretende abordar os desafios da inteligência artificial começou a tomar forma. A Comissão Interdicasterial de Inteligência Artificial (ICAI), estabelecida por Leão XIV para coordenar a reflexão e a ação dos diversos órgãos da Santa Sé, realizou sua primeira reunião de trabalho e começou a desenvolver uma estratégia comum que busca traduzir a proposta contida na encíclica Magnifica Humanitas em critérios, diretrizes e ações.
O encontro, realizado em 17 de junho no Palácio de San Calixto, reuniu representantes dos Dicastérios para a Doutrina da Fé, Cultura e Educação, Comunicação e Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, bem como das Pontifícias Academias da Vida, das Ciências e das Ciências Sociais. Seu objetivo é “promover uma visão da IA a serviço da dignidade humana, do bem comum e da missão da Igreja”, segundo o comunicado divulgado pelo Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, que coordenará a Comissão durante seu primeiro ano de atividade.
Este primeiro encontro representa mais um passo na estratégia que a Santa Sé vem desenvolvendo há vários anos em relação à inteligência artificial, estratégia reforçada por Leão XIV com a Magnifica Humanitas. Se a criação da Comissão marcou o nascimento de uma estrutura permanente para tratar deste tema, inicia-se agora a fase de coordenação e implementação deste trabalho colaborativo.
Da reflexão a uma estratégia compartilhada
Na abertura do encontro, o prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, Cardeal Michael Czerny, destacou quatro aspectos particularmente significativos do atual desenvolvimento da inteligência artificial: a velocidade sem precedentes com que essa tecnologia está evoluindo, seu impacto na dignidade humana, o crescente diálogo entre a Igreja e o setor tecnológico e a forte ressonância gerada pela encíclica Magnifica Humanitas.
O encontro confirmou o compromisso do Vaticano em passar da reflexão ética para uma resposta institucional compartilhada. Os participantes enfatizaram "a necessidade de abordar com discernimento um fenômeno que apresenta grandes oportunidades, mas também riscos e desafios éticos, sociais, culturais e ambientais cada vez mais relevantes".
Esta abordagem amplia o debate sobre inteligência artificial para além das suas implicações técnicas. A Comissão centra-se também nas transformações que esta tecnologia está a provocar na organização do trabalho, da educação, da cultura, da vida social e no cuidado da nossa casa comum — uma perspectiva ligada à Magnifica Humanitas, onde Leão XIV propõe que o desenvolvimento tecnológico deve estar sempre ao serviço da pessoa humana, da justiça social e do bem comum.
Durante o encontro, as diversas instituições compartilharam os estudos e iniciativas que já estão desenvolvendo sobre inteligência artificial e relembraram o caminho percorrido pela Santa Sé nos últimos anos, desde a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz de 2024, o Congresso sobre Ética da IA e a iniciativa Apelo de Roma para a Ética da IA até a recente publicação da encíclica Magnifica Humanitas, sobre o cuidado com a pessoa humana na era da inteligência artificial.
Coordenar, discernir e dialogar
Um dos principais acordos foi a definição da missão da Comissão. Segundo a declaração, existe um amplo consenso sobre a necessidade de prestar um "serviço duplo": "promover a coordenação interna, a partilha de informações e a reflexão sobre a utilização da IA nas entidades da Santa Sé" e, simultaneamente, "oferecer um ponto de referência para o discernimento e apoio às numerosas iniciativas promovidas nesta área".
Com isso, o Vaticano busca evitar a dispersão de iniciativas já em desenvolvimento por seus diversos órgãos e oferecer uma resposta coerente a uma transformação tecnológica que afeta cada vez mais as pessoas, as instituições e a sociedade.
Os participantes também concordaram que “é importante manter um diálogo aberto com as comunidades acadêmica, científica e empresarial, bem como com as Conferências Episcopais”, porque “a reflexão da Igreja deve continuar a acompanhar as transformações em curso na sociedade”. Nesse sentido, propuseram a criação de um site dedicado para compartilhar iniciativas e facilitar a troca de informações.
As tarefas iniciais da Comissão incluem "mapear as iniciativas existentes", " compilar as questões identificadas pelas diversas entidades" e desenvolver "diretrizes para o uso da IA na Santa Sé". Estes são os primeiros passos para transformar a reflexão desenvolvida nos últimos anos em critérios de ação compartilhados.
Uma nova forma de trabalhar
Ao final do encontro, os participantes avaliaram positivamente o início deste trabalho conjunto, que fortaleceu a colaboração entre os diversos dicastérios e instituições envolvidos. O comunicado observa que o encontro foi conduzido “no espírito tanto do Praedicate Evangelium quanto da Magnifica Humanitas”.
A constituição apostólica Praedicate evangelium, promulgada pelo Papa Francisco em 2022, reformou a Cúria Romana para promover uma abordagem mais coordenada e transversal, centrada no serviço à missão evangelizadora da Igreja. Magnifica humanitas, por sua vez, fornece o quadro antropológico e social com o qual Leão XIV propõe abordar os desafios da inteligência artificial. A Comissão surge precisamente da confluência destas duas abordagens: uma nova forma de trabalhar na Cúria para fomentar uma resposta comum a uma das transformações mais decisivas do nosso tempo.
A Comissão se reunirá novamente em meados de julho. Com esta primeira sessão, ela deixa de ser um projeto e se torna o instrumento através do qual a Santa Sé pretende formular uma resposta estável e coordenada à inteligência artificial, promovendo uma visão desta tecnologia "a serviço da dignidade humana, do bem comum e da missão da Igreja".
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