30 Junho 2026
"A visão ética da Igreja — e esta parece ser a sua maior inovação — está se ampliando, e, sem mencioná-la explicitamente, a ideia de uma 'bioética global', cara ao Papa Francisco, ganha terreno", escreve Fabrizio Mastrofini, jornalista e ensaísta italiano, em artigo publicado por Settimana News, 28-06-2026.
Eis o artigo.
O Consistório Extraordinário (26 a 28 de junho), que contou com a presença de 178 cardeais (de um total de 242), teve quatro temas: o mundo em que a Igreja é chamada a proclamar o Evangelho, a cultura do poder e a civilização do amor; e a contribuição que a Igreja pode oferecer para a construção do bem comum, a começar pela Magnifica Humanitas, o caminho para a implementação do Sínodo.
Um resumo do Consistório Extraordinário pode ser encontrado precisamente neste último tema, no relatório do Cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos.
Vivemos num mundo em profunda transformação. Guerras e violência continuam a ferir populações inteiras. As desigualdades sociais aumentam. As migrações remodelam a face das nossas sociedades. Novas tecnologias mudam a forma como comunicamos, conhecemos e até nos compreendemos. Muitos buscam sentido, esperança e relações autênticas. Muitos esperam que a Igreja dê um testemunho credível do Evangelho. Diante desses desafios, a sinodalidade surge cada vez mais como um recurso missionário. Ela ajuda a Igreja a escutar com mais atenção as questões da humanidade, a reconhecer os sinais dos tempos, a valorizar os dons de todos e a discernir em conjunto os passos a dar. Uma nova etapa na recepção do Concílio Vaticano II e na renovação missionária da Igreja na concretude da vida eclesial. (...) Uma sugestão final: num momento global que delineia o drama mundial de uma geopolítica habituada, quase resignada, à guerra e à arrogância econômica, Ecclesia in Synodo perficiendo torna-se para a história da família humana um sinal dos tempos de um estilo e postura de governo e participação segundo a virtude evangélica da mansidão.
Como escreve Lavoisier Fernandes no site Where Peter Is (aqui), referindo-se ao trabalho do Consistório, "o desafio para a Igreja hoje não é simplesmente como responder à globalização, mas como permanecer um lugar onde a fé ainda possa ser transmitida como um dom vivo de geração em geração. O que está mudando não é apenas onde as pessoas vivem, mas também como elas permanecem conectadas umas às outras através do tempo, da memória e da família. A fé perdura, mas requer formas conscientes de encontro, acompanhamento e vida compartilhada para que permaneça visível através das gerações. A questão, portanto, não é se a fé sobreviverá à globalização. A fé já sobrevive. A questão mais profunda é se a Igreja será capaz de continuar criando o ambiente no qual a fé é acolhida, vivida e transmitida de geração em geração."
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Sobre o tema do "poder", o Consistório está conduzindo a Igreja a ir além do conceito de "guerra justa". Será este um tema de enorme importância e um sinal concreto de uma mudança doutrinal decorrente da leitura dos "sinais dos tempos"? Ainda é cedo para dizer, mas o Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, lançou claramente as bases para o trabalho a ser feito.
No relatório (aqui), que deve ser lido na íntegra, Fernandez sublinha que os critérios para a legítima defesa, segundo o Catecismo da Igreja Católica, são os seguintes: “que o dano causado pelo agressor à nação ou comunidade de nações seja duradouro, grave e certo (não meramente “preventivo”); que todos os outros meios para pôr fim a ele se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes (isto é, que todas as tentativas possíveis tenham sido esgotadas); que existam condições bem fundamentadas para o sucesso; que o recurso às armas não provoque males e desordens mais graves do que o mal a ser eliminado.
O último ponto, observa o cardeal, "implica que existe uma 'proporcionalidade' entre o ataque recebido e a resposta defensiva e seus efeitos. A este respeito, parece que já nos esquecemos do que afirma o Concílio Vaticano II. Na Gaudium et Spes, 80, refere-se, de fato, a uma 'destruição vasta e indiscriminada, que, portanto, ultrapassa em muito os limites da legítima defesa'".
E, acima de tudo, declara-se solenemente o seguinte: "Todo ato de guerra que vise indiscriminadamente a destruição de cidades inteiras ou vastas regiões e seus habitantes é um crime contra Deus e contra a própria humanidade e deve ser condenado com firmeza e sem hesitação. A destruição de cidades inteiras não pode ser considerada uma ação defensiva proporcional. Guerras preventivas invocam unilateralmente possíveis — e não comprovadas — ações preparatórias para agressões externas e, em última análise, meras suposições sobre o que outro país poderia fazer. Isso acaba justificando tudo o que vimos e continuamos a ver em Gaza, no Líbano, na Ucrânia e em outros lugares. Nesses casos, as ações bélicas parecem ser a aplicação de critérios teológicos, não apenas judaicos, não apenas ortodoxos como na Rússia, mas da própria doutrina católica sobre guerra justa e legítima defesa. (...) Portanto, a própria noção de guerra justa deve ser revista e aprimorada. Caso contrário, os critérios clássicos da guerra justa tornam-se hoje inúteis e ineficazes."
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O Papa, que confirmou que convocará um Consistório anual, enfatizou o método utilizado: não o de um "parlamento", mas, segundo ele, "ver cardeais de Igrejas, culturas e origens tão diversas ouvindo uns aos outros e buscando juntos o que melhor serve ao Evangelho foi para mim uma fonte de consolo e esperança". Isso é especialmente verdadeiro em um mundo "marcado pela polarização".
O Papa não quis centrar o encontro em questões internas da Igreja — liturgia, moral sexual, organograma da Cúria Romana — mas sim nos "sofrimentos" do mundo. "Deus deseja a paz para todas as nações e todos os povos", disse Prevost ao encerrar o encontro na noite passada, antes de um jantar com os cardeais: "É por isso que não devemos nos resignar à violência. A violência não terá a última palavra." Entre os temas que emergiram, como resumiu o próprio Leão, estavam "o sofrimento causado pela guerra, pela violência, pela pobreza e pelas muitas injustiças que marcam a vida dos povos", a importância do multilateralismo, o papel da família, o desespero dos jovens, "às vezes ao extremo desespero de tirar a própria vida".
A visão ética da Igreja — e esta parece ser a sua maior inovação — está se ampliando, e, sem mencioná-la explicitamente, a ideia de uma “bioética global”, cara ao Papa Francisco, ganha terreno. Essa é a esperança expressa, no contexto do Consistório, pelo próprio Lavoisier Fernandes quando observa que, no campo da ética, “não se trata de abandonar a ética sexual, mas de restabelecer a devida proporção. Uma visão moral cristã abrangente engloba como as sociedades tratam os pobres, os vulneráveis e os excluídos. Engloba como o poder é exercido, como a riqueza é distribuída e como a compaixão é expressa na prática. Engloba tanto a conduta pessoal quanto a responsabilidade pública. Quando uma área domina todas as outras, algo se perde.”
A linguagem moral se torna restrita, a percepção pública se distorce e a própria tradição se enfraquece, deixando de refletir sua profundidade. O cristianismo nunca teve a intenção de funcionar como uma estrutura moral de tema único. Ele foi concebido como uma descrição abrangente da vida humana: pessoal, social e espiritual, consideradas em conjunto. E quando isso é esquecido, o resultado não é uma voz moral mais forte, mas sim mais fraca.
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