Maioria dos casos de violência contra crianças em Porto Alegre ocorre dentro de casa, aponta estudo

Foto: Wikimedia Commons

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24 Junho 2026

Dentro de casa ou nas ruas da cidade, as crianças e os adolescentes de Porto Alegre não estão seguros: dados do boletim "Mapeando as violências", desenvolvido pela prefeitura e publicado em 12 de junho, apontam para um crescimento nos casos de 2024 para 2025, quando 5,3 mil ocorrências foram registradas.

A informação é de Valentina Bressan, publicada por Matinal, 24-06-2026.

Para as crianças de zero a 11 anos, a própria residência é o lugar mais perigoso para se estar: a maior parte dos casos de violência, de 2022 a 2025, aconteceu na casa em que a criança mora. O mapeamento considera que há possível subnotificação de casos. Para a defensora pública Paula Simões de Oliveira, dirigente do Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente (NUDECA), o local de ocorrência é um fator que favorece essa invisibilidade.

"O fato da violência vir de algum familiar próximo dificulta muito que esses casos apareçam, impede que os encaminhamentos possam ser promovidos em razão da ausência de denúncias", explica a defensora.

Os dados também sinalizam que Porto Alegre não é uma cidade acolhedora para os jovens. A via pública é o local onde ocorrem mais casos de violência contra adolescentes — seguida pela residência.

Garotas são maioria entre vítimas de violência em Porto Alegre

O relatório ainda revela que a violência na capital se alinha a tendências registradas em nível nacional, segundo o Atlas da Violência e a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE. Por aqui, meninas e garotas também são maioria entre as vítimas. Na infância, a diferença entre os gêneros é menor — 51,1% de casos ocorrem com meninas, contra 48,8% com meninos. Mas na juventude, esse contraste se aprofunda: as adolescentes são 57,2% das vítimas.

Os números relacionados à violência sexual tornam o cenário ainda mais alarmante: meninas são 74,9% das vítimas de estupro de vulnerável de 2022 a 2025. Entre as adolescentes, o percentual salta para 89,5% dos casos no mesmo período.

Para a psicóloga Fernanda Silva de Almeida, especializada em saúde da família e associada à ONG Themis, os tipos de violências mais frequentes de acordo com o gênero refletem o contexto sociopolítico e cultural.

"Os crimes que atentam contra a integridade física, psicológica e sexual — como lesão corporal, ameaça e estupro — ocorrem predominantemente no ambiente doméstico e atingem majoritariamente meninas. Já os crimes patrimoniais, como roubos a pedestres e de celulares, geralmente praticados em espaços públicos, vitimam sobretudo os meninos", pontua a psicóloga.

Somente em 2026, o Rio Grande do Sul já registrou 41 feminicídios, entre casos confirmados e investigados pela polícia como tal. A defensora pública Paula de Oliveira chama atenção para a persistência da dinâmica de violência de gênero, que se inicia ainda na infância. "Há uma linha de continuidade entre práticas de assédio, humilhação, controle, violência psicológica e sexual vivenciadas por meninas e as formas mais graves de violência de gênero observadas posteriormente, incluindo a violência doméstica e os feminicídios."

Em meio ao crescimento da violência, notificações de risco nas escolas diminuem

O boletim constata que, enquanto os casos de violência cresceram, as notificações de risco nas escolas diminuíram. Segundo o documento, 37 das cerca de cem escolas municipais realizaram notificações relacionadas a situações de possível violência na escola e no entorno, de 2020 a 2025. Na série histórica, o último ano teve o menor número de notificações registradas nas instituições de ensino.

Embora o índice não aponte a ocorrência consumada de violência, mas situações que são encaminhadas à rede de assistência, o achado pode evidenciar uma fragilidade na proteção às crianças e aos jovens.

"A escola pode ser lugar de prevenção, proteção e identificação dessas violências, pelo olhar e escuta qualificada dos profissionais de educação das comunidades. Mas isso implica condições concretas de trabalho, formação permanente, equipes fortalecidas. Quando as condições de trabalho se precarizam, não é apenas o trabalhador que sofre: toda a rede de proteção perde capacidade de agir", completa a psicóloga Fernanda de Almeida.

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