Chegou a hora de adotar uma postura linha-dura? Segurança, poder e democracia na América Latina

Foto: Emiliano Bar/Unplash

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24 Junho 2026

"Mais de cinquenta anos após o início da Guerra contra as Drogas, as redes criminosas continuam se adaptando e se regenerando. Sem instituições mais sólidas, medidas anticorrupção, alternativas econômicas e cooperação regional, a militarização corre o risco de combater os sintomas sem resolver as causas."

O artigo é de Sahasranshu Dash, investigador associado no Centro Internacional de Ética Aplicada e Assuntos Públicos (ICAEPA) em Sheffield, Reino Unido, publicado por El Salto, 24-06-2026.

Eis o artigo. 

Em grande parte da América Latina, a insegurança se converteu em uma das principais questões políticas da década. Poucas eleições recentes ilustram melhor essa transformação do que a da Colômbia. O triunfo de Abelardo de la Espriella, um candidato alheio à política tradicional que construiu sua campanha em torno de uma agenda de segurança de linha dura, refletiu o crescente peso eleitoral da insegurança e o desgaste de abordagens mais conciliadoras frente aos grupos armados.

A recente crise na Bolívia também ilustra a complexidade dessa nova era. Enquanto o governo do presidente Rodrigo Paz enfrenta meses de bloqueios e protestos vinculados a setores afins ao ex-presidente Evo Morales, as autoridades acusaram setores militantes ligados a produtores de coca da região do Chapare de tentar desestabilizar o país e utilizaram o termo "narco-terrorismo" para descrever alguns setores da oposição. O governo implantou forças de segurança para restabelecer a ordem e se aproximou de Washington em matéria de cooperação antidrogas, revertendo a relação mais confrontadora com os Estados Unidos que caracterizou a presidência de Morales. Morales e seus seguidores rejeitam as acusações e sustentam que os rótulos criminais estão sendo usados para deslegitimar a oposição política e justificar a repressão.

A controvérsia reflete um dilema regional: diante da expansão do crime organizado, os governos recorrem cada vez mais a medidas extraordinárias, enquanto seus críticos advertem que os discursos de segurança podem se estender a opositores, movimentos sociais e comunidades marginalizadas, colocando à prova o equilíbrio entre ordem pública e instituições democráticas.

A magnitude da crise explica a importância política que a segurança adquiriu. América Latina e o Caribe concentram aproximadamente 8% da população mundial, mas representam cerca de um terço dos homicídios globais. As redes criminosas evoluíram além do narcotráfico para se envolver em extorsão, mineração ilegal, tráfico de pessoas, tráfico de migrantes e captura de espaços políticos, convertendo a insegurança em um desafio de governabilidade regional. Segundo pesquisas do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o crime e a violência custam à América Latina aproximadamente 3,4% de seu PIB anual, equivalente a cerca de 192 bilhões de dólares. Esses custos incluem homicídios, polícia, tribunais, prisões e segurança privada. Só as empresas destinam cerca de 1,6% do PIB regional a se proteger de atividades criminosas, enquanto a carga total equivale aproximadamente a 78% do gasto regional em educação e ao dobro do gasto governamental em assistência social.

A violência se converteu em uma crise de desenvolvimento: desestimula o investimento, impulsiona a migração e enfraquece as instituições. O Fundo Monetário Internacional estima que reduzir os homicídios à média mundial aumentaria o crescimento econômico anual da região em 0,5 pontos percentuais.

Uma região em busca de segurança

É neste contexto que deve ser entendida a ascensão dos movimentos centrados na segurança. Mais além dos conflitos culturais ou do desgaste da esquerda, a insegurança cotidiana oferece talvez a explicação mais sólida do crescente apoio cidadão a políticas mais duras.

O exemplo mais influente é o presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Quando Bukele chegou ao poder em 2019, El Salvador se encontrava entre os países mais violentos do mundo, com taxas de homicídio que alcançavam aproximadamente 51 assassinatos por cada 100 mil habitantes. Depois que seu governo lançou em 2022 uma ampla ofensiva contra as gangues, que incluiu detenções massivas, maior participação das forças armadas e um prolongado regime de exceção, as taxas reportadas de homicídio despencaram. Mais de 70 mil pessoas foram detidas durante o operativo e a extorsão diminuiu significativamente em muitas comunidades que anteriormente estavam sob o controle das gangues. Os níveis de aprovação de Bukele, que com frequência superaram os 80%, refletem até que ponto muitos salvadorenhos consideram a transformação da segurança uma conquista histórica.

O atrativo do chamado "modelo Bukele" se estendeu por toda a América Latina. Desde a Argentina até o Equador, numerosos políticos prometeram penas mais severas, maior presença das forças de segurança e uma confrontação mais agressiva contra o crime organizado, refletindo a frustração cidadã diante da insegurança persistente. No entanto, o sucesso dessas políticas reacendeu um profundo debate democrático. Organizações de direitos humanos denunciaram detenções arbitrárias, restrições ao devido processo e um enfraquecimento dos contrapesos institucionais. Enquanto seus defensores consideram essas medidas necessárias para enfrentar uma violência extraordinária, seus detratores advertem sobre os riscos de concentrar poder no Executivo.

A experiência salvadorenha também levanta dúvidas sobre se o "modelo Bukele" pode ser aplicado em outros países. O panorama criminal de El Salvador estava dominado por um número relativamente reduzido de gangues poderosas que operavam dentro de um território compacto, enquanto países maiores como Brasil, México e Colômbia enfrentam ecossistemas criminais muito mais complexos, com grupos fragmentados, redes internacionais de tráfico, corrupção e disputas territoriais. O caso salvadorenho demonstra que os governos podem modificar radicalmente as condições de segurança, mas não necessariamente oferece uma fórmula universal.

O fundamental é que o giro em direção a políticas de segurança mais duras já não está limitado à direita política. A política de "mão dura" cruzou fronteiras ideológicas porque a insegurança se converteu em uma realidade cotidiana para milhões de cidadãos. No Brasil, governos de distintos matizes políticos enfrentaram pressões para ampliar a resposta estatal frente às organizações criminosas, enquanto no México, Andrés Manuel López Obrador chegou ao poder prometendo se afastar das estratégias militarizadas anteriores, mas terminou dependendo amplamente das forças armadas para tarefas de segurança pública. Inclusive os governos progressistas centrados na desigualdade e no investimento social enfrentam demandas para oferecer resultados imediatos contra o crime organizado. A crise criou assim um novo eixo político: o debate gira cada vez mais em torno de quanta força o Estado deve exercer na busca da ordem.

Da Guerra contra as Drogas a uma nova Doutrina Monroe

O debate regional sobre segurança entrou agora em uma fase geopolítica. Sob a presidência de Donald Trump, especialmente durante seu segundo mandato, Washington adotou uma abordagem mais militarizada em relação ao crime organizado na América Latina, argumentando que os principais cartéis devem ser tratados como ameaças de segurança comparáveis a organizações terroristas.

Para seus defensores, isso representa uma adaptação necessária a uma nova era de crime transnacional; para seus críticos, lembra antigas doutrinas hemisféricas de segurança nas quais Washington assumia um papel privilegiado para definir as ameaças regionais. A Doutrina Monroe de 1823, resumida na ideia de que a América Latina constituía uma esfera de influência estadunidense, serviu durante décadas para justificar intervenções políticas e militares na região. Nesse sentido, a chamada "Doutrina Donroe" de Trump — uma reinterpretação da Doutrina Monroe centrada em operações contra cartéis — substitui a linguagem anticomunista da Guerra Fria pelo vocabulário contemporâneo do "narco-terrorismo". Para alguns observadores, isso evoca inclusive os anos da Operação Condor, a coordenação repressiva de várias ditaduras sul-americanas apoiadas por Washington que deixou dezenas de milhares de mortos e desaparecidos. A pergunta é se as ameaças criminais estão se convertendo em uma nova justificativa para ampliar a influência estadunidense na América Latina.

A criação da Coalizão Anticartéis das Américas, apresentada como o "Escudo das Américas", representa a expressão mais clara desse enfoque, ao reunir vários governos conservadores do hemisfério em torno do intercâmbio de inteligência, da cooperação militar e de operações coordenadas contra redes criminosas. A administração Trump sustenta que os cartéis possuem os recursos, o armamento e a influência territorial de organizações armadas e requerem, portanto, uma resposta militar. Os relatórios sobre uma autorização ao Pentágono para agir contra objetivos de cartéis no exterior intensificaram o debate sobre o futuro da política estadunidense na região. Seus partidários argumentam que as ferramentas tradicionais fracassaram diante de organizações transnacionais que desafiam a autoridade estatal, exploram a fragilidade institucional e controlam territórios que muitos governos são incapazes de recuperar sem apoio militar.

Os opositores a essa estratégia, por sua vez, argumentam que a escalada militar corre o risco de repetir os fracassos do passado enquanto amplia o papel de Washington nos assuntos regionais. Também apontam a aplicação desigual da agenda antidrogas estadunidense: em dezembro de 2025, Trump concedeu um indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que havia sido condenado em um tribunal estadunidense por delitos relacionados ao narcotráfico, enquanto semanas depois forças estadunidenses realizaram uma operação em Caracas que terminou com a captura e transferência aos Estados Unidos do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, sob acusações de narco-terrorismo. Para muitos observadores, o contraste demonstra como a linguagem da guerra contra as drogas se entrelaçou com questões mais amplas de soberania, alinhamentos políticos e poder hemisférico.

Mais de cinquenta anos após o início da Guerra contra as Drogas, as redes criminosas continuam se adaptando e se regenerando. Sem instituições mais sólidas, medidas anticorrupção, alternativas econômicas e cooperação regional, a militarização corre o risco de combater os sintomas sem resolver as causas.

As implicações geopolíticas são igualmente significativas. Brasil, México e Colômbia — as três economias maiores da América Latina — permaneceram fora da coalizão, refletindo preocupações sobre a soberania e sobre o papel de Washington na definição da política de segurança hemisférica. Seus governos têm favorecido geralmente a cooperação regional, o intercâmbio de inteligência, as investigações financeiras e o fortalecimento institucional em detrimento de uma ampliação do papel militar de potências externas.

O México, em particular, ilustra a tensão entre soberania nacional e captura criminal. Os Estados Unidos argumentaram cada vez mais que cartéis como o Cartel de Sinaloa representam uma ameaça transnacional de segurança que requer uma cooperação mais profunda, enquanto as autoridades mexicanas rejeitaram medidas percebidas como uma violação da soberania nacional. Ao mesmo tempo, as acusações de vínculos entre funcionários públicos e organizações criminosas abriram uma preocupação distinta: que o maior desafio à autoridade do Estado possa provir da influência do crime organizado dentro das próprias instituições.

O panorama político da América Latina está sendo transformado por uma realidade que transcende as divisões ideológicas tradicionais: a expansão do crime violento e das redes criminosas organizadas. A insegurança se converteu em uma força política central ao se situar na interseção entre crime, governabilidade e soberania. O desafio será construir Estados capazes de derrotar o crime organizado sem sacrificar a democracia, a prestação de contas nem a soberania nacional.

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