18 Junho 2026
O Equador tornou-se o exemplo sul-americano que melhor ilustra as limitações e os perigos de aplicar uma fórmula importada para enfrentar a escalada da violência. O que em El Salvador, sob o governo de Nayib Bukele, é alardeado como um milagre de mão pesada, no Pacífico equatoriano está naufragando em meio a um banho de sangue sem precedentes. A segurança em território equatoriano parece impossível de ser contida com soluções concebidas para gangues locais.
A informação é de Carolina Mella, publicada por El País, 17-06-2026.
Em janeiro de 2024, apenas algumas semanas após assumir o cargo, Daniel Noboa enfrentou uma crise que abalou o país: rebeliões simultâneas em presídios, carros-bomba em diversas cidades e uma invasão armada de um grupo criminoso a uma emissora de televisão que transmitia ao vivo. Foi então que o presidente equatoriano viu, mais uma vez, a "franquia de Bukele".
Assim como seu homólogo salvadorenho dois anos antes, Noboa encontrou na emergência as condições para justificar medidas excepcionais. Declarou um conflito armado interno pela primeira vez na história do país, entregou o controle das ruas e prisões aos militares e fez do combate ao crime a pedra angular de seu governo. Sua retórica também passou a se assemelhar à de El Salvador: uma batalha contra os inimigos do Estado que deveria ser travada sem piedade.
Os resultados não foram os esperados. Longe de ser contida, a violência continuou a aumentar. O Equador registrou 9.268 homicídios no ano passado, o maior número de sua história. A extorsão se multiplicou, os sequestros se tornaram comuns e, diante da pressão militar nas cidades, as gangues expandiram seu controle para outros territórios.
A pergunta que os analistas fazem é por que a abordagem linha-dura de El Salvador fracassou. "Bukele enfrentou estruturas territoriais de gangues; Noboa enfrenta economias criminosas transnacionais", explica o analista de segurança Daniel Pontón. "Bukele foi mais eficaz na punição de criminosos, mas os níveis de impunidade no Equador são extremamente altos, e o sistema judiciário está sendo usado para eliminar opositores", acrescenta. Aplicar o modelo de segurança de El Salvador no Equador, resume ele, é como administrar ibuprofeno para tratar o câncer.
A influência de Bukele, contudo, continuou a moldar o curso dos acontecimentos. Em novembro de 2025, Noboa inaugurou a prisão de segurança máxima El Encuentro, construída com a assessoria das mesmas equipes que participaram do projeto da CECOT. As imagens oficiais lembravam aquelas divulgadas pelo governo salvadorenho: prisioneiros ajoelhados, com a cabeça raspada e guardados por soldados fortemente armados. "É uma demonstração pública da desumanização das políticas de reabilitação. Prisões transformadas em depósitos de pessoas", afirma Pontón.
A franquia Bukele continua a ganhar seguidores mesmo onde os resultados são escassos. No Chile, Kast não conseguiu conter a insegurança nos seus primeiros meses e já teve de remodelar o seu gabinete. Na Costa Rica, onde Bukele foi convidado a lançar a pedra fundamental de uma réplica da prisão do CECOT, cresce o debate sobre o endurecimento das políticas de segurança, apesar da ausência de um exército e da tradição de devido processo legal. E na Colômbia, Abelardo de la Espriella já começou a moderar a sua principal promessa de resolver o crime e o conflito armado no país em apenas 90 dias.
O modelo que atrai tantas pessoas tem uma história específica. Tudo começou em março de 2022, quando 87 pessoas foram assassinadas em El Salvador em um único fim de semana. Esse massacre, atribuído por investigações jornalísticas ao rompimento de acordos entre o governo e as gangues, desencadeou uma resposta sem precedentes. A Assembleia Legislativa aprovou um estado de emergência que suspendeu as garantias constitucionais e, quatro anos depois, permanece em vigor. Milhares de policiais e militares foram mobilizados em territórios controlados por gangues. Em apenas dois meses, mais de 5 mil prisões foram efetuadas. Oito meses depois, Bukele inaugurou o CECOT: uma prisão projetada para abrigar dezenas de milhares de detentos, que se tornaria o símbolo internacional de sua guerra contra as gangues.
Os resultados foram quase imediatos. A taxa de homicídios caiu de 53 por 100 mil habitantes em 2019, quando Bukele assumiu o cargo, para 1,3 em 2023, segundo o Insight Crime. Nenhum outro país da América Latina havia experimentado uma redução tão drástica em tão pouco tempo.
Mas o outro lado do modelo se desenvolvia em paralelo. Organizações de direitos humanos documentaram milhares de prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados e mortes sob custódia do Estado. Nos últimos quatro anos, cerca de 92 mil pessoas foram presas e permanecem no sistema prisional, mantidas incomunicáveis em cadeias envoltas em absoluto sigilo. Ao mesmo tempo, o governo acumulava poder sobre as instituições sob o argumento de que o combate ao crime exigia a remoção de obstáculos.
A insegurança criou um mercado político regional para líderes que prometem soluções rápidas para problemas complexos. Bukele conseguiu transformar a experiência salvadorenha em uma marca reconhecível. Seus imitadores copiam as prisões, os estados de emergência, os destacamentos militares e a retórica de guerra. Mas o que eles não conseguiram replicar foram os resultados. "O modelo Bukele não é apenas uma estratégia contra gangues", argumenta Daniel Pontón. "Ele também foi um processo de concentração de poder em torno de uma única figura política que eliminou os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio para implementá-lo."
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