Por um Congresso amigo do povo. Artigo de Paulo César Carbonari

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

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17 Junho 2026

"Se queremos Eleger um Congresso amigo do povo é porque acreditamos que há, ainda, espaço para a política como afirmação da vida e para a valorização da vida em abundância. Insurgir-se contra as mais diversas formas de nos manter presos à carestia e à mimética é defender que a imaginação é a mais forte de todas as possibilidades da política e, ainda que a realidade tente sabotá-la, é porque insistimos nela que a própria realidade, por mais dura que seja, pode ser atravessada".

O artigo é de Paulo César Carbonari, doutor em filosofia (Unisinos), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), coordenador geral do Projeto Sementes de Proteção Popular de Defensores/as de Direitos Humanos (SMDH/MNDH/Avuar, com apoio da UE).

Eis o artigo.

A política é construção de convivências para promover as condições necessárias para que os diversos se encontrem para realizar em comum. Mas, ela também pode abrir a possibilidades que promovam exatamente o contrário disso, particularmente quando for capturada por quem a faz render-se a interesses privatistas, corporativos.

No primeiro caso teremos a produção de direitos; no segundo, a afirmação de privilégios. No primeiro teremos a valorização da vida comunitária como interdependência e interatividade; no segundo o superindividualismo egoísta ou os identitarismos comunitaristas. No primeiro teremos cuidado e proteção dos bens comuns, no segundo apropriação, expropriação e lucro sem limites. No primeiro teremos políticas de amizade; no segundo, de inimizade... e, na consequência prática, Congresso amigo ou inimigo do povo.

Política é lidar com a possibilidade de convergências e consensos, mas também de divergências e dissensos, até dissidências. Não há política sem diferenças... não pensamos e nem queremos da mesma maneira; nem temos as mesmas perspectivas e projetos. Diferentes projetos estão em disputa. O problema é transformar divergências ou disputas em motivo para eliminar quem não discorda. Fazer isso é acabar com a política ou usar a politica para interesses não-políticos.

Importante observar que a política está inserida num contexto complexo: uma “época algorítmica”. Nela, “territórios emocionais” e “mapas afetivos” substituem territorialidades e mapeamentos físicos e geograficamente endereçados. São produzidos diversos tipos de “distritos”: do medo, da raiva, do ressentimento, da fé, da performance, do moralismo, do militarismo, da conspiração, da adesão, do engajamento, do encantamento... são tantos... alimentados por diferentes dietas com nutrientes e reforços próprios e redesenhados ao sabor da manipulação (des)informativa.

Estes novos territórios vêm de engenharias construídas pela manipulação da atenção, do afeto, da percepção e até do conhecimento. Vão resultar no favorecimento ou desfavorecimento de determinados posicionamentos, gerar persuasão, adesão ou repulsa e produzir prejuízo, ganho ou dano. Longe de disputar argumentos, slogans ou narrativas, o que neles se disputa são estados, vieses, padrões, que deslocam ou alocam, antes mesmo das mensagens... não convencem, mas mobilizam, ativando reações automáticas, comportamentos e práticas em escala industrial, massiva e massificada.

Usa para isso recursos já conhecidos e bastante estudados, mas ainda pouco trabalhados neste novo contexto nos quais se colocam para além dos aspectos cognitivos e epistemológicos, para além de serem justos ou injustos, ainda que sempre mortíferos, pois até mesmo quando sugerem promover vidas, o fazem para algumas, a dos melhores, dos de bem, as que merecem e são “enlutáveis”. As assimetrias já gritantes, tornam-se ainda maiores e mais abissais...

Como esperar confrontos justos entre quem quer disputar projeto, propostas, ideias e quem só quer modular e capturar percepções traduzíveis num voto efêmero (não pode durar mais do que o plim da máquina de votação pois, se lembrar em quem votou no segundo seguinte, já não pode ser)? A “velha” busca pela “formação da vontade popular”, a elaboração de uma “opinião/posição pública”, a “deliberação consciente” e as “escolha consequente”, se vão! Tornam-se obsolescências arcaicas e insustentáveis.

A fraude já não será nos votos comprados, mas pelos votos capturados... será uma “fraude cognitiva”, não só por dissonância, mas também por inviabilização, visto não haver qualquer possibilidade de reconexão entre o que se fez (voto) e as razões que levaram a ele. O que haverá

de ser e de suceder será uma “batalha” de likes e (des)likes, nada mais... que não poderá ter fim, nem mesmo finalidade, pois terá que se manter aberta, desterritorializando e reterritorializando, mapeando e remapeando, freneticamente.

Não haverá tempo para reflexão: nem para flexão, menos ainda para repetir flexão. A linearidade será impiedosa e “nada do que foi será”, nem agora, nem num tempo “que já foi um dia” e menos ainda num tempo que virá. Simplesmente foi. Mecanismos e dispositivos como “viés de confirmação”, “heurística da afetividade”, “heurística da disponibilidade” e “máquina de priming”, são o “da hora”, seja um por vez, todos juntos ou alguns combinados.

O objetivo nunca será convencer e nem mesmo formar maiorias, será desestabilização permanente, interromper toda e qualquer normalidade, romper qualquer possibilidade de coletividade, destituir toda e qualquer institucionalidade, corroer a confiança em pessoas, autoridades e instituições, polarizar tudo, como se as coisas se decidissem sempre e somente no tudo ou nada, no a favor ou contra, no bem ou mal, num binarismo acachapante e estridente que afasta qualquer tom intermediário. E, tudo o que não couber neste modelo será automaticamente “fraude inaceitável”.

Mas, diante de tudo isso vem a proposta da Campanha Eleger um Congresso amigo do povo. Essa é a tarefa proposta pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) e pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH). Está ancorada na máxima constitucional de que o poder não só emana, mas é do povo. É o povo aquele que pode, desde sua potência instituinte, desde sua força insurgente, produzir o novo, sempre, de novo. Propor-se assim exige realizar processos nos quais se possa viver a participação política não apenas como o direito de falar e nem mesmo o direito de ser escutado e de escutar. Trata-se de afirmar o direito a se recusar a deixar que a própria percepção, a própria sensibilidade, a própria vida sejam sequestradas por quem quer que seja, seja quem seja, pessoa, máquina ou algoritmo. Afirmar a política de modo outro. Colocar-se nesta complexidade com dignidade.

Lidar com todas as engenharias manipuladoras exige construir condições para não sucumbir a elas. Mais do que isso, requer fazer frente a “afetividades desviantes”, desinformação alucinante, mentiras deslavadas e enredamentos asfixiantes. E mais ainda do que isso coloca o desafio de gerar lugares outros e processos outros que desloquem as atenções, abram janelas, rompam frestas para fazer a luz entrar, bruxuleante ou ofuscante, em vista de mobilizar afetos regenerativos, raiva justa, atmosferas amorosas, recusas insistentes às frequências alucinantes, algum realismo a tanta fantasmagoria, verdades resistentes.

Não se trata de lamentar o que fizeram conosco ou o que tentam seguir fazendo de nós... o desafio é tomar estas questões, sem hesitar, como aquelas que precisam de respostas que não sejam paralisantes, mas que sejam capazes de mobilizar para novas perspectivas, para novas possibilidades, para novos outros. Se o horizonte que queremos movimentar é excessivamente curto e opaco, não vamos muito longe, por isso vamos agir para “esticá-lo”.

Se queremos Eleger um Congresso amigo do povo é porque acreditamos que há, ainda, espaço para a política como afirmação da vida e para a valorização da vida em abundância. Insurgir-se contra as mais diversas formas de nos manter presos à carestia e à mimética é defender que a imaginação é a mais forte de todas as possibilidades da política e, ainda que a realidade tente sabotá-la, é porque insistimos nela que a própria realidade, por mais dura que seja, pode ser atravessada. Afinal, viver é travessia!

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