13 Junho 2026
"Na Espanha, o Papa mostrou como pretende convocar os líderes mundiais a priorizarem a justiça e a paz como parte essencial de suas vocações. Precisamos apoiar esse chamado com oração e ação", escreve Thomas Reese, jesuíta, analista do Religion News Service, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 12-06-2026.
Eis o artigo.
Durante seus discursos a líderes políticos e diplomáticos na Espanha, o Papa Leão XIV expôs a teologia política que, segundo ele, deveria guiar não apenas a Igreja, mas também políticos e diplomatas.
Ele apresentou sua visão em dois discursos: um no sábado (6 de junho), na presença do Rei Felipe VI, para líderes cívicos e diplomáticos; o outro na segunda-feira, ao Parlamento espanhol.
A igreja deseja estar a serviço da humanidade, explicou Leão. Ela "caminha ao lado da humanidade, compartilha suas esperanças e suas feridas, escuta as perguntas de cada época e permite ser desafiada por tudo o que diz respeito à vida dos homens e mulheres contemporâneos".
Àqueles que temem a interferência da Igreja na política, o Papa afirmou: "É um serviço que não se caracteriza pela imposição".
Ele repetiu o que disse em sua recente encíclica, Magnifica Humanitas: "Quando a Igreja aborda qualquer assunto relacionado à vida pública, ela o faz respeitando a missão própria das instituições e a legítima responsabilidade daqueles que receberam o mandato para legislar."
A Igreja, disse ele, reconhece "a autonomia das realidades terrenas" e "a distinção entre a comunidade eclesial e a comunidade política".
Para os Estados Unidos, isso significa que ele afirma a separação entre Igreja e Estado e rejeita o nacionalismo cristão.
Em vez disso, o que a igreja oferece é "uma reflexão que nasce do desejo de servir ao bem comum e de recordar o que torna a convivência humana verdadeiramente humana".
Ao Congresso dos Deputados da Espanha, Leão reafirmou o papel dos legislativos, onde "as diferenças são ouvidas, resolvidas e, quando possível, transformadas em decisões conjuntas". Em palavras que poderiam ter sido dirigidas ao Congresso dos EUA, ele disse: "Toda tarefa legislativa, em última análise, confronta uma questão decisiva: Que concepção da pessoa humana inspira as leis e que tipo de sociedade essas leis constroem?"
Os seres humanos são "mais do que apenas uma engrenagem na ordem social, econômica ou política", acrescentou ele. Eles são "abertos à verdade, dotados de liberdade e movidos por uma sede de eternidade que nenhuma realidade temporal pode saciar".
Leão lembrou que filósofos e teólogos espanhóis "introduziram no discernimento histórico a questão do valor irredutível de cada ser humano e dos limites morais do poder". Mas admitiu que "a sociedade e a própria Igreja nem sempre corresponderam a essas ideias encontradas em sua própria tradição cristã".
Nessa tradição, "a autoridade sempre implica responsabilidade" e "todo ser humano deve ser reconhecido como sujeito de direitos e deveres". Essa aspiração, disse ele, "continua a ressoar hoje: que a dignidade, a justiça e o bem comum sejam a medida das relações sociais, tanto em nível nacional quanto internacional".
"O nosso discernimento", afirmou ele, "deve concentrar-se no lugar da pessoa humana na nossa tomada de decisões e em como a dignidade do trabalho, a solidariedade, a política social e o bem comum estão a ser abordados hoje de novas maneiras."
Leão acredita que as leis devem ser "uma salvaguarda para todos e uma garantia contra a imposição de interesses e agendas particulares".
"Pode uma comunidade que relega às sombras o nascituro, o idoso, o doente, aqueles que sofrem em silêncio ou aqueles que dependem inteiramente dos cuidados de outros ser considerada plenamente justa?", perguntou ele, refletindo sobre a aplicação de uma ética de vida consistente ao lidar com uma ampla gama de questões.
A defesa da vida humana não é uma questão partidária nem um interesse religioso, mas sim um objetivo da civilização, acrescentou ele.
Leão também falou sobre "o drama trágico da migração", que divide a Espanha e os Estados Unidos. Ele está claramente preocupado com os migrantes, que "são forçados, por circunstâncias muitas vezes dramáticas, a deixar suas comunidades". Ele afirmou que lhes devem ser oferecidos "caminhos seguros e legais, uma acolhida respeitosa e oportunidades reais de integração".
Ao mesmo tempo, para abordar as causas da migração, ele afirmou que precisamos "promover o direito de permanecer na própria terra, trabalhando para garantir que ninguém tenha que deixar seu lar devido à falta de paz, segurança ou condições de vida dignas, incluindo desigualdades econômicas e os efeitos da crise climática".
O Papa acredita que "o mundo atravessa uma profunda crise espiritual e cultural, que se manifesta em múltiplas formas de violência, polarização e desconfiança mútua". E, lamentavelmente, queixou-se, "a tentação de ganhar popularidade atiçando as chamas da polarização parece ter aumentado em vez de diminuído".
O que é necessário, disse ele, é "um discurso público que respeite aqueles que pensam diferente, instituições dedicadas a promover o diálogo, uma memória histórica que busque a verdade e a reconciliação, e uma vida social capaz de sustentar a amizade cívica e o respeito mútuo em meio à discordância".
Ele também expressou preocupação com o rearme da Europa e de outras partes do mundo. "A verdadeira segurança", afirmou, "provém da justiça, do diálogo paciente, do respeito pelo direito internacional e de uma política capaz de colocar a vida dos povos acima dos interesses que lucram com a guerra."
Ele apelou à comunidade internacional para que "redescubra o valor indispensável do diálogo como um caminho paciente rumo a acordos justos e duradouros, fundamentados no respeito aos tratados, na transparência da ação diplomática e na sincera vontade de priorizar a paz em detrimento do uso da força".
Leão reconheceu que a mensagem de paz dentro das nações e entre as nações "infelizmente soa ingênua para alguns e confrontativa para outros", mas acredita que ela é "bem recebida por aqueles que não se fecham em ideologias preconcebidas, mas estão abertos à verdade".
O governo espanhol tem estado em desacordo com a política externa da administração Trump, incluindo a guerra no Irã. É, portanto, significativo que o Papa tenha agradecido à Espanha por "sua fiel adesão ao direito internacional e ao multilateralismo".
A mensagem do Papa é que a tradição cristã tem muito a oferecer ao mundo da política nacional e internacional. Ele afirmou "que a lei deve servir ao bem, que a justiça impõe limites à força, que o poder exige legitimidade, que os pobres pertencem plenamente à comunidade, que o estrangeiro deve ser acolhido de acordo com a sua dignidade e que a vida humana nunca pode ser tratada como uma mercadoria".
Na Espanha, o Papa Leão XIV mostrou como pretende convocar os líderes mundiais a priorizarem a justiça e a paz como parte essencial de suas vocações. Precisamos apoiar esse chamado com oração e ação.
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