10 Junho 2026
Em julho do ano passado, vários países europeus decretaram alerta vermelho devido a temperaturas abrasadoras. Uma onda de calor precoce e intensa que, na Alemanha, chegou aos 40 graus e obrigou ao fechamento de escolas. O mesmo ocorreu em parte da França, Países Baixos, Espanha, Itália, Croácia, Grécia, Áustria, Suíça e Portugal. O último andar da Torre Eiffel foi fechado aos turistas.
A reportagem é de Iván Restrepo, publicada por La Jornada, 08-06-2026.
Há vários anos, cientistas alertam para o impacto das mudanças climáticas provocadas pelo ser humano nas ondas de calor, secas e outros fenômenos meteorológicos extremos, cada vez mais intensos e frequentes. A Organização das Nações Unidas (ONU) os classificou como um “assassino silencioso”.
Por sua vez, Clare Nullis, porta-voz da Organização Meteorológica Mundial (OMM), afirmou que “é algo com o qual temos que aprender a conviver”.
Samantha Burgess, climatóloga do observatório europeu Copernicus, sustenta que essa onda de calor extrema era incomum por ocorrer muito no início da temporada de verão e que as mudanças climáticas a agravaram. O que ocorreu há quase um ano na Europa lembrou as ondas de calor de 2003 e 2022, responsáveis por 70 mil e 61 mil mortes prematuras, principalmente de pessoas idosas.
Neste ano, foi em maio que parte da Europa registrou temperaturas que bateram recordes de calor. A primavera pareceu mais um pleno verão. O sistema meteorológico da França atribuiu o fenômeno a uma “cúpula de calor”, que produz temperaturas mais de 10°C superiores às habituais para esta época. Porém, em todos os países afetados os especialistas coincidiram em destacar que o colapso climático intensifica os fenômenos meteorológicos extremos no planeta, gerando eventos que causam vítimas fatais e que podem ocorrer em momentos incomuns e em lugares inesperados.
Se na Europa essas variações climáticas desestabilizam a vida de milhões de pessoas, o mesmo ocorre nos Estados Unidos. No final de março passado, uma onda de calor atingiu mais de 60 cidades, do Arizona e a Califórnia até o Texas, Colorado e Nebraska. Em algumas delas, como Las Vegas, El Paso, Denver, Yuma, Amarillo, Albuquerque, Flagstaff, Grand Junction, Needles e Lake Havasu City, as temperaturas chegaram a 39°C, valores muito superiores aos habituais para a época.
As autoridades destacaram que foi um dos episódios mais extensos e precoces da temporada de primavera, atribuindo-o à intensificação de padrões relacionados às mudanças climáticas, fenômeno que o presidente Trump nega categoricamente.
Segundo o órgão científico estadunidense National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), a magnitude e a persistência desse fenômeno não têm precedentes para o mês de março.
No México, por sua vez, persistem os contrastes. Enquanto no noroeste as temperaturas são elevadas, na cidade de Mérida foram registradas, durante uma semana, chuvas torrenciais. Uma delas foi a mais intensa dos últimos 50 anos, para o mês de maio. Houve inundações muito severas, assim como em Campeche e Guadalajara. Também chove intensamente há dias em Veracruz, na Cidade do México e em vários municípios adjacentes. Há inundações, como de costume. Não importa: “Viva a chuva, viva a Copa do Mundo de futebol”, como proclamou a chefe de governo da Cidade do México.
Na próxima quinta-feira, começa a Copa do Mundo, um negócio bilionário de grandes corporações, explorado politicamente por Trump.
E no caso do nosso país, financiado pelas instâncias governamentais.
Tudo indica que será uma das copas mais extremas do ponto de vista climatológico, com alto risco para os jogadores e para os espectadores nos estádios, tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá. Isso se deve às altas temperaturas e à umidade que prevalecerão durante este mês e em julho. As sedes no México terão chuvas muito intensas.
Uma análise do grupo internacional de cientistas World Weather Attribution adverte que o aquecimento global modificou as condições em que são realizados grandes eventos esportivos e que o risco de calor extremo nesta Copa do Mundo duplicou desde o realizado em 1994, quando os Estados Unidos foram sede.
Além disso, alerta para a alta probabilidade de que as partidas sejam disputadas sob níveis de estresse térmico que excedam as recomendações de segurança do sindicato internacional de jogadores de futebol (FIFPRO).
Uma realidade: sem medidas de adaptação mais amplas (como equipar os estádios com ar-condicionado e reduzir as emissões de poluentes), os torneios de futebol e outros esportes no verão vão se tornar cada vez mais arriscados.
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