Após 2 anos da enchente, 45% das famílias da ocupação RedeMix em São Leopoldo vivem com menos de R$ 1,5 mil

Foto: Lauro Álves | Secom RS

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03 Junho 2026

Um estudo inédito feito em São Leopoldo/RS revelou que 87,4% das famílias moradoras da ocupação RedeMix, no bairro Santos Dumont, sobrevivem com menos de dois salários-mínimos — sendo 45,1% com até R$ 1.500 — e que a insegurança alimentar atinge 1 a cada 4 famílias que vivem no local. Os dados integram o diagnóstico do Instituto ELAborar realizado com 580 moradores de 200 domicílios, revelando um cenário de vulnerabilidade multidimensional que envolve moradia precária, baixa renda, acesso limitado à saúde e fragilidade nos vínculos comunitários.

A reportagem é do Instituto ELAborar, publicada em 01-06-2026.

A comunidade segue em processo de reconstrução após dois anos da catástrofe climática que destruiu ou danificou todas as residências do território. Os traumas persistem e a precariedade das moradias só se agrava, a cada nova chuva. Contudo, 55,6% dos entrevistados revelam que gostariam de permanecer na área, mas com uma regularização do imóvel, e 44,4% querem encontrar uma nova moradia.

Fonte: Instituto Rede ELAbora.

Conduzida pelo Projeto ELAbora Mulheres e Crianças, do Instituto ELAborar, a partir de parcerias institucionais com a Unisinos e o Serviço Jesuíta de Migrantes e Refugiados (SJMR - Brasil), em cooperação com a Secretaria Municipal de Saúde de São Leopoldo, a iniciativa teve ao todo 94 horas de trabalho técnico direto, envolvendo profissionais das áreas de Psicologia, Enfermagem, Serviço Social, Pedagogia e Comunicação.

"Quando um território com dez anos de existência nunca foi formalmente mapeado, isso revela não apenas uma ausência de dados, mas uma invisibilidade estrutural. Tornar essa realidade visível é o primeiro passo para que políticas públicas e ações efetivas possam, de fato, acontecer", afirma Renata Andreoni, fundadora do Instituto ELAborar. "A pergunta que esse diagnóstico levanta é maior do que este território: quantas outras ocupações no Brasil vivem há anos sem qualquer tipo de mapeamento ou visibilidade? Sem dados, essas populações seguem fora das prioridades e, muitas vezes, fora das políticas públicas."

Perfil da população

O levantamento identificou 580 moradores em 200 domicílios, dos quais 40,95% são crianças e adolescentes e 62% vivem no local há mais de 3 anos. 15,5% são imigrantes venezuelanos.

Quanto à renda e ao trabalho: 87,4% das famílias vivem com até R$ 3 mil mensais; 45,1% sobrevivem com até R$ 1.500; 53,5% das mulheres ocupadas estão na informalidade; e 80,3% não concluíram a educação básica.

No campo da saúde e acesso: 26,8% enfrentaram insegurança alimentar recente; 43,7% realizam tratamento para doenças crônicas; e 42,3% já deixaram de buscar atendimento por dificuldade de acesso.

Rede de proteção à mulher é desconhecida

Para a equipe, a questão da violência é um tema sensível. No estudo, apenas 7% das mulheres responderam positivamente à pergunta direta sobre violência doméstica. Quando o questionário abriu espaço para relatos livres, o volume de depoimentos descrevendo diferentes situações de violência vividas chegou a cerca de 21% da amostra. A equipe também identificou que 57,7% das mulheres desconheciam os serviços de apoio disponíveis para casos de violência, lacuna que aponta para a necessidade de ampliar o acesso à rede de proteção.

"Na medicina de família e comunidade, aprendemos que o sofrimento que chega ao consultório raramente é apenas individual. Quando uma mulher não nomeia como violência o que viveu, isso não é negação, é o resultado de anos de invisibilidade institucional e de condições estruturais que naturalizam a desigualdade de gênero. O papel da saúde é criar espaços de escuta que permitam que essa realidade apareça e seja enfrentada", afirma Neoma Mendes de Assis, co-fundadora e vice-presidente do Instituto ELAborar.

"A violência é frequentemente naturalizada e silenciada quando as instituições não viabilizam apoio real. Ela só emerge em espaços de escuta aberta, acolhimento e respaldo institucional. Isso significa que os índices oficiais subestimam significativamente o problema", complementa Rosana Cabral, psicóloga e pedagoga responsável pela equipe da Pedagogia no Projeto.

Crianças e adolescentes: quase metade da população, sem espaços adequados

Com 40,95% da população com até 17 anos, as crianças aparecem como eixo central das análises. O diagnóstico identificou sobrecarga de responsabilidades de cuidado transferidas às crianças, fenômeno diretamente ligado à ausência de equipamentos públicos de apoio à primeira infância e às famílias no território.

A única iniciativa local é o Projeto K'Anjos, que há dois anos atua como Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos para 25 crianças. Desde 2020, também funciona como cozinha solidária, fornecendo em torno de 500 refeições semanais. Embora já tenha uma atuação de quase 6 anos, o Projeto K'Anjos ainda não conta com formalização jurídica. "Eu tenho o sonho de formalizar o K'Anjos para seguir fortalecendo as ações na comunidade e iniciar um trabalho com mães enlutadas. O Projeto K'Anjos nasceu a partir da dor da perda da minha filha, transformei meu luto em luta e agora quero apoiar outras mães na mesma situação", compartilha Andrea Ramos dos Santos, liderança comunitária e idealizadora do Projeto.

Recomendações do estudo

O Diagnóstico e Impacto Ocupação RedeMix propõe três frentes prioritárias de intervenção: apoio técnico no processo de regularização fundiária e melhoria da infraestrutura; ampliação do acesso à saúde e fortalecimento das linhas de cuidado e da rede de proteção; e programas de geração de renda e fortalecimento comunitário.

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