É necessário voltar ao começo: Magnifica Humanitas e o reconhecimento histórico da Igreja Católica à luz da teoria crítica

Foto: Alexandra_Koch/Pixabay

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01 Junho 2026

"Em última análise, o posicionamento da Encíclica Magnifica Humanitas representa o reconhecimento de que a missão evangelizadora foi, em muitos momentos, subjugada pelos poderes mundanos, servindo como a infraestrutura ideológica para a espoliação colonial. Ao admitir que a dignidade humana não pode ser justificada pelo desempenho ou utilidade, Leão XIV desafia o paradigma tecnocrático e retoma o humanismo cristão como um contraponto à lógica da mercadoria."

O artigo é de Alisson da Costa Soares, publicado no Medium, 29-05-2026. 

Alisson da Costa Soares é advogado. Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal do Pará. Apaixonado pela cultura popular e pelos estudos críticos do Direito.

Eis o artigo. 

Emicida, em “Intro (É Necessário Voltar ao Começo)” ensina, através de seus versos, que quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo, que ao não se saber para onde ir, se deve voltar para o começo. Dito de outra forma, voltar ao começo é medida que se impõe para que não se perca o rumo.

Oportunamente, não possuo a informação de que o Papa Leão XIV consuma e/ou aprecie as obras de nosso artista brasileiro, contudo, a ideia principiológica da música apresentada dialoga diretamente com o proposto pela Magnifica Humanitas: a clara manifestação de uma “volta ao começo” da Igreja Católica — o pretenso movimento de “retomada”, não trata sobre a Instituição, mas sobre o que pregava Cristo.

Em sua primeira Encíclica, a autoridade máxima da Igreja Católica demonstrou um fiel compromisso que deve nortear a instituição religiosa nos próximos anos: a construção da civilização do amor. Por outro lado, pela primeira vez na história, o Papa reconhece que a Igreja demorou excessivamente para condenar formalmente a escravatura, admitindo que, por dezoito séculos, tolerou essa prática mesmo quando já possuía em sua doutrina o princípio da dignidade humana como imagem de Deus, e chega a pedir perdão em nome da Igreja por essa cumplicidade e cegueira do passado, afirmando tratar-se de uma “ferida na memória cristã”.

Nas palavras do Papa Leão XIV:

“176. Na maturação da sua doutrina, a Igreja foi progressivamente tomando consciência da gravidade destas realidades. É verdade que os acontecimentos do passado não podem ser considerados de forma a-histórica, como se os critérios amadurecidos ao longo do tempo tivessem estado sempre disponíveis. No entanto, não podemos negar ou minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura. Se na Antiguidade e na Idade Média, muitas pessoas e instituições eclesiásticas tinham escravos, durante a modernidade, instigada pelos pedidos dos soberanos, a Sé Apostólica Romana interveio várias vezes para regular e legitimar as modalidades de submeter e, nalguns casos, reduzir à escravatura os “infiéis”. [174] Foi preciso aguardar o século XIX para se encontrar uma condenação formal, absoluta e universal da escravatura, em particular com Leão XIII [175] Isto constitui um claro exemplo do crescimento na compreensão, por parte da Igreja, das verdades perenes da Revelação que ela guarda. Embora não encontremos homogeneidade na questão em si — tendo tolerado durante muito tempo a escravatura e só mais tarde condenando-a de forma absoluta –, há ao longo de toda a história uma continuidade no que respeita à convicção da dignidade de cada ser humano, criado à imagem de Deus, mesmo sem ter conseguido, em dezoito séculos, explicitar oficialmente a total incompatibilidade com a escravatura. Trata-se duma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios. [176] É impossível não sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”

Em princípio, a publicação da Carta Encíclica representa um giro paradigmático na Doutrina Social da Igreja, isto é, não apenas se endereçam os desafios da Inteligência Artificial e inovações tecnológicas, mas, como dito anteriormente, mergulha nas “feridas da memória cristã” para admitir, de forma inédita e contrita, a cumplicidade da Santa Sé na legitimação da escravidão do tráfico transatlântico.

O posicionamento consolida as contribuições da sociologia histórica proposta por Immanuel Wallerstein em seus estudos sobre a colonização da América do Sul e da teoria crítica de Étienne Balibar, pois o reconhecimento da Igreja revela a profunda imbricação entre a instituição eclesial e a gênese do sistema-mundo moderno, no qual o “universalismo europeu” serviu como a retórica de poder necessária para a expansão da economia-mundo capitalista (Wallerstein, 2007).

Para compreender a profundidade desse gesto, é preciso situar a Igreja como uma das arquitetas do sistema-mundo. Wallerstein se propôs a explicar este fenômeno, argumentando que a expansão europeia exigiu uma justificativa moral baseada em “valores universais”, frequentemente incrustados no direito natural e na teologia, para validar a conquista e a exploração de povos “não civilizados”.

A Magnifica Humanitas corrobora essa análise ao admitir que a Sé Apostólica interveio historicamente para regular e legitimar a submissão e escravização de “infiéis”, reconhecendo que exigências políticas e econômicas prevaleceram sobre as exigências da doutrina cristã. Esse processo é evidenciado por Wallerstein (2007), ao trazer à luz as Bulas Papais Romanus Pontifex e Inter Caetera, que regulavam e legitimavam a submissão de povos “infiéis” sob o pretexto da evangelização.

A análise de Wallerstein (2007) sobre o debate do século XVI entre Bartolomé de Las Casas e Sepúlveda oferece uma chave de leitura essencial para esse momento. Enquanto Sepúlveda defendia a submissão dos indígenas por serem “naturalmente bárbaros”, Las Casas argumentava que eles possuíam almas e deveriam ser integrados via evangelização, do embate, resultou-se na integração estratégica dos povos originários para o capital, pois serviram de força de trabalho “etnicizada” e subalterna. Em razão do exposto, em sua Encíclica, Leão XIV reconhece que essa “subsunção formal” da missão eclesial ao comando do capital gerou “estruturas de pecado” que perduraram por séculos — e ainda perduram -, ferindo a dignidade inalienável que a própria Igreja deveria proteger.

A título de curiosidade, estima-se que, no momento do primeiro contato com os europeus, há quase quinhentos anos, o número de línguas indígenas faladas no que hoje se entende por Brasil fosse o dobro das aproximadamente 170 registradas na década de 1980 (Rodrigues, 1986). Essa diversidade representava não apenas variações dialetais, mas visões de mundo únicas, independente das tradições asiáticas e europeias, de conhecimentos perpassados intergeracionalmente via oralidade, constituindo portas de acesso a conhecimentos milenares sobre o meio ambiente e a organização social.

O reconhecimento pontifício de que o racismo é um “fenômeno social total” e estrutural ressoa com as teses de Balibar e Wallerstein sobre a inseparabilidade entre racismo e capitalismo (Balibar; Wallerstein, 2021). Para os autores, o sistema capitalista, ao operar por meio de uma divisão axial do trabalho, utiliza o racismo para justificar desigualdade prática em um mundo que prega a igualdade teórica.

Nessa perspectiva, a Igreja, ao pedir perdão pela sua cegueira histórica, busca desmantelar o que Balibar descreve como a naturalização dos antagonismos sociais, na qual a “raça” é utilizada como um suplemento do nacionalismo para manter as hierarquias estáveis (Balibar; Wallerstein, 2021). Ainda, a Encíclica introduz o conceito de “justiça reparadora”, visando recompor relações destruídas pelo colonialismo e pela discriminação racial, o que se alinha à percepção de que nos encontramos em um “ponto de bifurcação” do sistema-mundo (Balibar; Wallerstein, 2021), exigindo uma escolha entre a desumanização ou a construção de uma “civilização do amor”, conforme proposto pela Encíclica.

Em última análise, o posicionamento da Encíclica Magnifica Humanitas representa o reconhecimento de que a missão evangelizadora foi, em muitos momentos, subjugada pelos poderes mundanos, servindo como a infraestrutura ideológica para a espoliação colonial. Ao admitir que a dignidade humana não pode ser justificada pelo desempenho ou utilidade, Leão XIV desafia o paradigma tecnocrático e retoma o humanismo cristão como um contraponto à lógica da mercadoria.

Esse ato de memória e reconciliação é, portanto, um passo fundamental para que a técnica e a economia sejam reorientadas para o bem comum, rejeitando a construção de novas torres de Babel em favor de uma convivência fraterna e justa na contemporaneidade. Ainda que, se julgue necessária a existência de atos mais incisivos e compensatórios ante o histórico de práticas que lesaram a dignidade da pessoa humana no processo de expansão da lógica colonial/capitalista no sistema-mundo.

Referências

BALIBAR, Étienne; WALLERSTEIN, Immanuel. Raça, nação, classe: as identidades ambíguas. Tradução de Wanda Caldeira Brant. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2021.

LEÃO XIV, Papa. Carta Encíclica Magnifica Humanitas: sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial. Roma: Santa Sé, 15 de maio de 2026.

RODRIGUES, Aryon Dall’lgna. Línguas Brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas. São Paulo: Edições Loyola, 1986.

WALLERSTEIN, Imannuel. O Universalismo Europeu: a retórica do poder. Tradução de Beatriz Medina. São Paulo: Boitempo, 2007.

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