28 Mai 2026
"O olhar sobre as mulheres, muitas vezes condescendente, que ignora elementos importantes e priva as personagens de profundidade e inspiração, deixa poucas expectativas substanciais para o trabalho futuro."
O artigo é de Annette Jantzen, teóloga e membro da Diocese de Aachen na Alemanha, publicado por Publik-Forum, 18-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Annette Jantzen estudou teologia em Bonn, Tübingen, Jerusalém e Estrasburgo, obtendo seu doutorado com uma tese sobre os padres durante a Primeira Guerra Mundial. Até 2024, foi conselheira espiritual para mulheres na Diocese de Aachen. Seu novo livro, Die ignorierten Frauen der Bibel (As mulheres ignoradas da Bíblia, Herder), acaba de ser publicado.
A história de Deus com os seres humanos não se limita aos homens. Mas é assim que aparece na liturgia católica. A autora nos fala sobre as influências sutis com repercussões a longo prazo.
Eis o artigo.
Vocês conhecem o significado de Hulda na Torá? Qual era o nome da esposa de Moisés? Qual foi o papel de Miriam durante a travessia do Mar Vermelho? Quem foi Agar e que experiência de Deus teve no deserto? É fácil preencher essas lacunas consultando as relativas passagens bíblicas. Mas por que essas personagens não nos são tão familiares, apesar de seu papel central? Uma razão fundamental é que suas histórias não são lidas durante a liturgia, ou são lidas apenas de forma extremamente abreviada. Uma análise atenta da ordem das leituras na liturgia católica mostra como as histórias de mulheres na Bíblia são ignoradas ou contadas apenas de forma muito resumida durante a liturgia. Isso tem consequências significativas sobre a consciência dos fiéis: a história da humanidade com Deus se torna uma história de homens quase impecáveis, enquanto a história das mulheres fica em segundo plano.
Um elemento central de quase todas as formas de celebração litúrgica é a leitura dos textos bíblicos. Para a Igreja Católica, os textos bíblicos lidos nas celebrações eucarísticas aos domingos e nos dias da semana estão definidos no calendário litúrgico — diferentemente do calendário evangélico, esse calendário litúrgico, incluindo a escolha das leituras, é válido em todo o mundo. Contudo, muitos fiéis não se dão conta de que, na liturgia católica, não se leem trechos da Bíblia diretamente.
Menos ainda se sabe que o chamado Lecionário, que reúne as leituras selecionadas e é solenemente carregado na entrada da Igreja, não reproduz todo o texto bíblico. O que não é considerado adequado é omitido. O atual calendário litúrgico com as leituras foi elaborado durante o pontificado do Papa Paulo VI e entrou em vigor com a reforma litúrgica de 1969. O objetivo era que os textos essenciais da Bíblia fossem lidos segundo determinados ritmos. No entanto, essa sugestão de completude faz com que importantes tradições bíblicas não estejam presentes na consciência dos católicos, nem mesmo como lacunas.
Toda proposta de não ler determinados textos previstos no calendário litúrgico, por exemplo, por causa de sua misoginia, é interpretada como uma tentativa de censura. Mas a ordem das leituras faz precisamente isso: exclui o que não agrada. Precisamente porque a ordem das leituras influencia muitas pessoas, entre as quais também funcionários e tomadores de decisão, de uma maneira sutil, porém altamente eficaz, as numerosas exclusões, abreviações e omissões constituem um problema central. De fato, o calendário litúrgico não elimina apenas os textos proféticos de difícil compreensão, nem apenas os textos de difícil transmissão, como as genealogias e os textos jurídicos, mas especialmente os textos que contêm violência e aqueles que falam das mulheres. Muitas vezes, as duas coisas coincidem.
A posição da Bíblia em favor das mulheres permanece escondida
Muitas vezes, essa violência diz respeito às mulheres. Ao ignorar em grande parte esses textos, não apenas essa realidade, mas também a posição da Bíblia a favor das mulheres torna-se invisível. Isso resulta particularmente problemático quando se trata de textos em que ainda é narrada a violência contra as mulheres, como no caso de Jefté, que sacrifica a própria filha por causa de um voto precipitado. Ou quando um texto contém afirmações misóginas, como a Carta aos Efésios, que desperta resistência em muitas leitoras: "Esposas, sejam submissas aos seus maridos" (5,22). Os textos femininos do Antigo Testamento são particularmente afetados por essas omissões. Dois terços nunca são lidos e apenas uma parte muito pequena é lida aos domingos.
Da história de Sara com Deus, assim como é descrita na promessa de um filho junto aos carvalhos de Mambre, na leitura dominical permanece apenas o convite de Abraão para providenciar pão. A conversa que Sara tem com os três homens / três anjos / o próprio Deus através da parede da tenda é cortada. O terço restante das histórias de mulheres do Antigo Testamento, que foi incluído no calendário litúrgico, é lido apenas nos dias úteis. E com exceção de Eva, da viúva de Sarepta e de Atalia, que é retratada como uma usurpadora totalmente má, todas as outras são abreviadas. As abreviações tornam os homens figuras mais luminosas, enquanto as mulheres se tornam mais simplificadas e negativas.
Faltam as mães dos filhos de Jacó. E Tamar e Zípora
O vazio é enorme. Faltam quase todas as mulheres que são parte integrante da história do povo: Sara e Rebeca aparecem, sim, mas de forma muito abreviada, enquanto Lia e Raquel, Silpa e Bila, e, portanto, todas as mães dos doze filhos de Jacó, estão ausentes, assim como Tamar, a mãe de Zerá e Perez, Zípora, esposa de Moisés, Asenate, esposa de José, e as parteiras Sifrá e Puá, que frustraram a ordem assassina de Faraó de matar todas as crianças hebreias imediatamente após o nascimento.
Falta Raabe, que contribui decisivamente na conquista da terra, embora Mateus a insira em sua árvore genealógica de Jesus com criatividade teológica. Faltam todas as mulheres combativas: a juíza e profetisa Débora, Jael e a maior parte das histórias de Judite e Ester. Faltam as profetisas Abigail, que reconduz Davi no caminho de Deus, e Hulda, cujo papel como testemunha da autenticidade da Torá é inestimável. Estão ausentes passagens em que as histórias das mulheres transmitem uma crítica ao poder: histórias de violência sexual contra as mulheres, que o texto bíblico condena veementemente. Graças a essas omissões, Davi, assim como Noé, José e Moisés, tornam-se um quase celibatários e solitários.
No que diz respeito àquelas mulheres que ao menos conseguiram entrar no calendário de leitura dos dias de semana, geralmente falta algo fundamental: no caso de Agar, é cortada sua proclamação de Deus, uma das frases-chave da Bíblia Hebraica e o único lugar onde se fala de um ser humano que chama Deus pelo nome: "Tu és o Deus que me vê" (Gênesis 16,13). Falta o papel ativo de Rebeca no namoro, assim como seu conhecimento do oráculo de Deus. Miriam, irmã de Moisés, aparece apenas como punida, não como profetisa que guia o povo através do mar. Das histórias de Judite e Ester, apenas fragmentos absurdamente breves são selecionados. O Livro de Rute, o único livro bíblico narrado inteiramente do ponto de vista feminino, é tão impiedosamente comprimido em duas leituras durante a semana que fica completamente esvaziado: seu protagonista principal agora é Boaz, e a essência mais importante do livro é o nascimento do herdeiro.
Falta de consciência do problema no Vaticano
Nos Evangelhos, a situação é um pouco diferente. Aparentemente, não se pode falar adequadamente sobre Jesus sem falar também das mulheres que o cercavam. Aqui, não há cortes completos, mas as exclusões são feitas de forma mais sutil: por exemplo, omitindo as histórias das mulheres nas versões curtas opcionais. Ou por meio de seleções entre diferentes tradições paralelas, o que acaba por privilegiar precisamente aquelas variantes em que a mulher sempre aparece da pior maneira. Não surpreende, portanto, que nos Atos dos Apóstolos e na Carta aos Romanos, as mulheres sejam omitidas dos seus papéis de pregadoras e líderes.
Na esteira do Sínodo Mundial, o Vaticano foi obrigado a reconsiderar o papel da mulher. Com o relatório final do grupo de estudo sobre as questões relativas à participação das mulheres na Igreja, abre-se agora uma nova perspectiva. O documento representa uma interessante mudança de perspectiva, pois não questiona quais concessões poderiam ser feitas às mulheres, mas sim se a Igreja esteve à altura de suas próprias pretensões sobre essas questões.
O potencial de contradição das figuras femininas é ignorado
Pode-se lamentar que o documento não levante questões importantes. Quando se observa quais figuras femininas bíblicas aparecem como referências no primeiro apêndice do documento, sobra pouco espaço para o otimismo. A recepção das relativas perícopes revela o quanto são estereotipadas as leituras dos textos sobre as mulheres, apesar de um esforço evidente. O potencial de contradição neles contido é mal e mal evidenciado.
A exultação de Sara pela promessa de um filho transforma-se em um sorriso; a corajosa partida de Rebeca de sua terra natal torna-se uma historinha açucarada sobre o "nascimento do amor"; o fato de a preferência por um filho contribuir para o cumprimento de um oráculo de Deus faz com que Rebeca continue sendo uma personagem injusta. No caso de Agar, sua proclamação de Deus é mais uma vez escandalosamente omitida. A dança de Miriam, com a qual lidera a travessia do Mar Vermelho como profetisa, torna-se um evento de cheerleader para os homens heroicos. Débora, que vai à batalha no lugar do indeciso Baraque, vence "graças ao seu general Baraque, leal e obediente" — um mal-entendido que é, no mínimo, dramático. Rute é abertamente diminuída como "fábula bíblica no estilo Cinderela" e "livrinho". Abigail, a mulher dotada de dons proféticos que traz Davi de volta ao caminho desejado por YHWH, torna-se a mulher que quer proteger seu marido.
O olhar masculino domina
As mulheres do Novo Testamento não se saem muito melhor. Maria de Magdala não aparece como apóstola, nem mesmo na variante católica romana, que ainda insere uma sutil desvalorização no elogio ao chamá-la de "apóstola dos apóstolos", o que limita enormemente seu apostolado. A profissão de fé em Cristo de Marta (João 11,27) torna-se uma "cena carregada de emoções". E "Febe, a diaconisa", a primeira pessoa mencionada na lista de saudações da Carta aos Romanos (16,1-2), torna-se uma diaconisa incerta, marcada por um ponto de interrogação. Mas quando a lista de saudações da Carta aos Romanos é lida no sábado da 31ª semana do ano I, a leitura, por segurança, começa apenas no versículo 3.
O olhar sobre as mulheres, muitas vezes condescendente, que ignora elementos importantes e priva as personagens de profundidade e inspiração, deixa poucas expectativas substanciais para o trabalho futuro. O fato de a injustiça e a violência masculina contra as mulheres, bem como a clara tomada de posição das narrativas bíblicas em favor dessas mulheres, permanecerem sem menção não inspira confiança: o olhar masculino permanece incontestado. O documento do Vaticano está longe de representar uma mudança fundamental de perspectiva. De fato, apesar de suas raízes em uma época e uma sociedade altamente patriarcais, a tradição bíblica é muito mais rica do que as atuais interpretações eclesiásticas reconhecem.
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