08 Janeiro 2026
À margem da conferência internacional “A Bíblia e as Mulheres: Exegese, Cultura e Sociedade”, realizada em Nápoles de 4 a 7 de dezembro de 2025, fizemos algumas perguntas à Pastora Letizia Tomassone, professora de “Estudos Feministas e de Gênero” na Faculdade Valdense de Teologia em Roma.
A entrevista com Letizia Tomassone é de Marta D’Auria, publicada por Riforma, a revista semanal das igrejas Batista Evangélica, Metodista e Valdense, 09-01-2025.
Eis a entrevista.
As narrativas bíblicas incluem mulheres de notável autoridade: profetisas, juízas, líderes comunitárias. Essas figuras podem desafiar ou enriquecer a maneira como as igrejas de hoje, e a sociedade em geral, compreendem a liderança feminina?
Nas narrativas bíblicas, as mulheres muitas vezes estão escondidas nas entrelinhas, não têm nome nem voz, ou foram ignoradas pelos comentaristas clássicos. No entanto, seu papel é frequentemente central para o desenvolvimento teológico das cenas. Elas costumam fazer a diferença, com visões divergentes e inovadoras: Às vezes, como a mulher samaritana, elas se tornam mensageiras de Cristo; ou, como a mulher cananeia, elas mudam a maneira como Jesus vê o mundo pagão. Muitas liturgias contemporâneas invocam a voz profética das mulheres, sua ação de compaixão e justiça, sua visão de transformação criativa de conflitos e reconciliação. Em nossas liturgias, nós as retratamos como portadoras da antiga revelação do Deus da Aliança, manifestada através das vidas dos menos privilegiados, marginalizados e tornados invisíveis pela religião patriarcal. Resta saber se as mulheres nas igrejas ainda têm uma perspectiva tão nova e transformadora que sejam capazes de inventar novas maneiras de agir para as comunidades de fé.
Pesquisa histórico-crítica A exegese feminista frequentemente revela papéis muito mais amplos do que aqueles preservados pela tradição. Que tipos de resistência ou dificuldades esse tipo de pesquisa ainda encontra hoje em dia dentro das igrejas ou em outros contextos não acadêmicos?
"A exegese feminista muitas vezes traz à tona conexões entre textos que antes passavam despercebidas e que dão importância às histórias de mulheres e nascimentos. Como quando, em Êxodo 2, a mãe do menino Moisés vê que a criança é bela. Uma lembrança do olhar de Deus sobre a criação: "ele viu que era bela". Uma criança escravizada e destinada à morte por decreto do faraó é declarada "bela" e digna de viver. E a mãe prepara uma arca para ele — o texto usa o mesmo termo usado para a arca de Noé — indicando narrativamente o que as religiões compreendem profundamente sobre a compaixão humana: salvar uma única criatura significa salvar toda a humanidade." Assim, a exegese feminista utiliza as ferramentas da análise histórico-crítica juntamente com a análise interseccional que destaca as assimetrias de poder e as diversas formas de opressão. As diferenças entre os indivíduos, as dinâmicas de libertação que passam por meio de estratégias subterrâneas, invisíveis para aqueles que estão no topo, abrem caminhos contraculturais.
Às vezes, parece que destacar a ação das mulheres em prol da justiça e da paz lança uma sombra sobre a ação masculina. O próprio texto bíblico caminha nessa direção, por exemplo, quando, ao contar a história da juíza Débora, comenta que Deus entregará o inimigo a uma mulher para envergonhar os homens incapazes de conduzir o povo à liberdade. Mas essa visão, que coloca mulheres contra homens, só cria maior conflito e ressentimento. Ao contrário, devemos promover uma cultura de cooperação que aproveite os diferentes recursos que surgem de sujeitos de diferentes gêneros.
A emancipação feminina ainda provoca oposição, até mesmo reações violentas. Do seu ponto de vista, a leitura das Escrituras pela ótica dos estudos de gênero pode oferecer ferramentas para compreender e neutralizar essas dinâmicas de medo e controle?
Nunca deve ser considerado "tendencioso" destacar imagens femininas do divino ou mulheres que realizam ações proféticas e revelam Deus em toda a sua plenitude, indo além de uma visão misógina e restrita ao gênero. Essa forma de pregar a partir das margens questiona todas as imagens dominantes e opressoras do divino e, consequentemente, todas as construções religiosas hierárquicas. Por essa razão, pode ser percebida como uma pregação ameaçadora para aqueles que desfrutam de dividendos patriarcais: benefícios e privilégios materiais e simbólicos que os homens recebem simplesmente por pertencerem ao gênero masculino.
É por isso que o discurso ou a pregação feminista ainda causam desconforto e, positivamente, dão origem a mudanças necessárias de posição. Jesus afirma que veio trazer uma espada, não a paz, certamente referindo-se a uma paz superficial que esconde a miséria e a injustiça humanas. A espada de Jesus, como nos profetas, é o julgamento de Deus sobre as iniquidades e a proposta de uma harmonia que restaura relações justas, derrubando as divisões que criam escravos homens e mulheres, pessoas excluídas e marginalizadas: economias sociais de morte que Deus condena ao oferecer a visão de economias justas da vida.
As igrejas protestantes (e anglicanas) já começaram a valorizar o papel das mulheres nos ministérios e na governança eclesial há anos. Que passos você acha que ainda precisam ser dados para valorizar plenamente as habilidades e os dons das mulheres, e como a pesquisa bíblica pode contribuir para esse processo?
É vantajoso ter mulheres nas mesas de governança da igreja, enriquecendo assim as abordagens à gestão econômica, à dinâmica dos relacionamentos dentro das igrejas e às relações ecumênicas e inter-religiosas. Essa vantagem deve ser ampliada por meio das redes que as mulheres construíram ao longo dos anos, para que não sejam vozes isoladas, mas tragam consigo algumas das percepções desenvolvidas coletivamente nas associações femininas. Além disso, os homens também devem praticar a exegese feminista dos textos bíblicos, não se concentrando em si mesmos e em sua identificação com os personagens masculinos das histórias, que muitas vezes são homens em posições de autoridade: profetas, reis, cantores ou o próprio Jesus. Partir de si mesmos, no caso dos homens, deve envolver um reexame daquele dividendo de privilégios patriarcais que mencionei anteriormente e a aquisição de uma perspectiva diferente, de baixo para cima, que reflita o evangelho do Magnificat e derrube os tronos dos poderosos.
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