22 Mai 2026
Enquanto os drones se tornaram uma ferramenta indispensável na sociedade moderna, a China confirma sua liderança nesse setor. Shenzhen é o coração dessa indústria emergente, representada na 10ª edição de um congresso mundial que tem início nesta quita-feira (21). Mais de 1200 empresas de centenas de países participam apresentando seus produtos.
A reportagem é publicada por RFI, 21-05-2026.
É difícil acreditar que há menos de 50 anos Shenzhen ainda era uma vila de pescadores perto de Hong Kong. A política de abertura sob a presidência de Deng Xiaoping permitiu transformá‑la em uma das primeiras zonas econômicas especiais.
Em um território onde tudo precisava ser construído, a cidade desenvolveu sua própria cadeia de inovação. Durante anos, atraiu capitais e tecnologias do ne hoje é um ator central na competição estratégica entre grandes potências.
Nesta quinta-feira, russos em busca de interceptadores de drones se misturavam a empreendedores atentos às mais recentes tecnologias industriais. Aviões e veículos não tripulados de todos os tamanhos, dispositivos de detecção com antenas e sistemas anti‑interferência dignos de filmes de ficção científica estavam expostos na abertura do Congresso Mundial de Drones.
Supremacia chinesa
A supremacia das empresas chinesas se impõe em novos setores, da agricultura às infraestruturas, passando pelos equipamentos militares. Um desses exemplos é a DJI, criada em Shenzhen em 2006, domina o mercado mundial de drones comerciais com uma participação próxima de 80%. A empresa também representa mais da metade do mercado de softwares de aplicação ligados aos drones. Os drones são um símbolo importante do crescimento de Shenzhen, que se tornou o "Vale do Silício chinês".
Os aparelhos que voam em alta altitude dependem de pequenos ímãs potentes e outros componentes cruciais amplamente disponíveis no ecossistema industrial chinês, sem equivalente em eficiência e variedade em outros lugares.
“Quando você precisa de um componente, tem centenas de opções diferentes (na China)”, declarou um expositor, Javier Balaguer, da empresa espanhola de consultoria e serviços Applus+ Laboratories. “Se você tem acesso direto” a esses produtos, “tudo fica muito mais fácil”, disse à AFP esse especialista em drones.
Uso em guerras
No entanto, a importância que os drones assumiram na guerra na Ucrânia também desperta preocupações. Pequim afirma apoiar o uso civil da tecnologia de drones e ter implementado controles de exportação para evitar a proliferação de armas. No entanto, o duplo uso de tecnologias comerciais e militares cria uma zona cinzenta difícil de controlar além das fronteiras.
A AFP conversou com três ucranianos, um dos quais destacou que a tecnologia de drones se tornou “uma necessidade diária” desde o início da guerra. “A China domina toda a cadeia de suprimentos”, especialmente a “das peças magnéticas difíceis de encontrar na Ucrânia”, afirmou um deles, que preferiu não se identificar.
A tecnologia antidrones em destaque
A AFP encontrou nesta quinta‑feira participantes estrangeiros vindos da União Europeia, do Oriente Médio e do Sudeste Asiático, atraídos pela expertise de Shenzhen em áreas tão diversas quanto manutenção de infraestruturas, vigilância aérea ou monitoramento de corridas automobilísticas.
Os organizadores anunciaram que esperam 150 mil visitantes este ano. Balaguer, da Applus+ Laboratories, disse à AFP que percebeu que a dimensão do evento explodiu nos últimos três anos. Segundo ele, a nova tendência deste ano é a tecnologia antidrones.
A diretora‑geral da empresa chinesa Yinyan General Aviation, Wu Yingjie, explicou que seu trabalho consiste em implantar “contramedidas antidrones” ao longo da fronteira chinesa.
A empresa de Wu está sediada na cidade de Nanning (sudoeste), a menos de 150 quilômetros da fronteira com o Vietnã. As tecnologias de contramedidas são usadas para detecção, reconhecimento e combate a voos não autorizados, acrescentou.
“Foi por causa da guerra na Ucrânia que o mundo descobriu a indústria de contramedidas antidrones”, afirmou.
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