"Eu também fui mantido de cara para o chão por horas. O objetivo deles é nos desumanizar". Entrevista com Giulio Bonistalli

Mascarados agridem e humilham ativistas humanitários sequestrados pelas forças de Gvir (foto extraída de filme do ministro)

Mais Lidos

  • Comando Vermelho usa drones gigantes para transportar até 20 fuzis FAL ou AR-15 entre favelas no Rio

    LER MAIS
  • A encíclica do Papa Leão XIV chega em boa hora: a inteligência artificial levanta questões que só a religião pode responder

    LER MAIS
  • A preocupação aumenta com o surto de Ebola no Congo: "Está fora de controle, tememos que ultrapasse as fronteiras"

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

22 Mai 2026

"É evidente que Israel está subindo a barra; aquelas imagens de Ben-Gvir humilhando nossos companheiros são insuportáveis." A raiva é imensa, assim como a preocupação. Giulio Bonistalli, ativista romano da Flotilha Global Sumud, nas imagens divulgadas ontem pelo governo israelense reviveu o que passou, há pouco menos de um mês, quando seu barco foi interceptado na costa da Grécia. "Agora vamos pensar na libertação dos ativistas", diz o homem que treina jovens na academia comunitária Valerio Verbano, no bairro de Tufello, em Roma. "Depois, teremos que pensar também em nossa própria cumplicidade. Israel sabe que tem impunidade, então persegue os palestinos e aqueles que os apoiam."

A entrevista é de Eleonora Camilli, publicada por La Stampa, 21-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Você foi interceptado pelas forças israelenses na noite entre 29 e 30 de abril último. E levado para o mesmo navio-prisão onde ontem vimos os ativistas com as mãos amarradas e de cara no chão, humilhados pelo ministro israelense Itamar Ben-Gvir. O que sentiu ao ver essas imagens?

Muita indignação e muita raiva. Parece-me claro que o governo israelense está subindo a barra, talvez por estar ciente de que ninguém pensa em impedi-lo. O plano de desumanização dos palestinos e daqueles que os apoiam é um dos elementos da política e da propaganda israelenses. O que me preocupa, no entanto, é que nossos companheiros presos não passarão apenas um dia na prisão como nós, mas ficarão detidos por mais tempo. E nas prisões israelenses, os militares se sentem mais legitimados a usar a violência. No navio-prisão, onde também fiquei detido, sofremos todas as formas de abuso de poder.

Que tipo de abuso de poder?

Tanto físico quanto psicológico. Para começar, assim que subimos a bordo, nos fizeram tirar as roupas, os moletons e os casacos, para nos fazer sentir mais frio. Os colchões em que deveríamos dormir estavam completamente encharcados. Nos mantiveram por horas na mesma posição que pode ser vista no vídeo de Ben-Gvir: de joelhos, com o rosto no chão e as mãos trás das costas. É uma posição de sofrimento físico, mas também psicológico, porque você não consegue entender para onde estão lhe levando e não tem controle nenhum, apenas desorientação. É uma forma de mexer com o sistema nervoso, porque depois de um tempo você não aguenta mais.

E depois?

E depois, o tempo todo, eles tentavam nos desgastar. Por exemplo, sob o pretexto de nos contar, nos faziam entrar e sair da sala. E toda vez batiam, chutavam, cuspiam. E insultos de todos os tipos. Mas, repito, fazem isso porque sabem que gozam de impunidade.

A primeira-ministra Giorgia Meloni classificou o comportamento do ministro Ben-Gvir como "inaceitável", e o Ministério das Relações Exteriores decidiu convocar o embaixador. É uma posição que considera satisfatória?

As palavras de Meloni eram inevitáveis; o que vimos é sem precedentes. Mas também sabemos que o governo italiano, assim como a comunidade europeia, ainda mantém acordos militares e comerciais com Israel. Enquanto tudo isso não for cortado, as violências não cessarão. Portanto, se o nosso governo quiser adotar uma postura realmente firme, precisa romper todos os acordos com Israel. Caso contrário, serão apenas palavras, talvez ditadas apenas por oportunismo político.

Eles acusam vocês dizendo que o objetivo não é levar ajudas.

Isso não é verdade, as ajudas estão lá, paradas nos navios bloqueados por Israel. Além disso, pergunto-me: em vez de nos acusarem, por que a Itália não faz tudo para abrir um corredor humanitário permanente para Gaza?

Leia mais