Flotilha pronta para partir novamente, por Thiago e Saif. Artigo de Andrea Sceresini

Foto: Instagram/Global Sumud Flotilla

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06 Mai 2026

"Uma nova agressão israelense estaria fora de questão, pelo menos nessa fase operacional inicial. Mas depois? Como os israelenses reagirão se essa nova formação flutuante tentar se aproximar da costa do Oriente Médio? Essas são perguntas que ninguém tem condições de responder", escreve Andrea Sceresini, jornalista italiano, em artigo publicado por Il Manifesto, 05-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

"Thiago nos contou que foi submetido a repetidos interrogatórios que duraram oito horas. Os investigadores o ameaçaram explicitamente, afirmando que ele seria ‘morto’ ou ‘passaria 100 anos na prisão’. Tanto ele quanto Saif estão sendo mantidos em isolamento total. Suas celas são constantemente iluminadas com alta intensidade, 24 horas por dia. Ambos são vendados sempre que precisam sair, mesmo durante as visitas médicas. Além disso, Thiago relatou estar sendo mantido em temperaturas extremamente baixas." De acordo com suas advogadas, Hadeel Abu Salih e Lubna Tuma, da ONG Adalah — que conseguiram se encontrar com eles novamente ontem —, essa é a situação de Thiago Ávila e Saif Abukeshek, os dois porta-vozes da Flotilha Global Sumud, atualmente sob custódia das autoridades israelenses.

Após serem sequestrados em águas internacionais a oeste de Creta, juntamente com outros 179 participantes da missão (incluindo quem escreve), Thiago e Saif foram deportados para a prisão de Shikma, em Ashkelon, onde estão em greve de fome há dias. Ambos teriam sofrido repetidas agressões e maus-tratos e foram acusados – ainda que não formalmente – de pertencerem a uma “organização terrorista” não melhor especificada e de “apoiar o inimigo em tempos de guerra” (uma acusação que, se confirmada, poderia custar caro principalmente para Abukeshek, que, por ter nascido na Cisjordânia, corre o risco de ser condenado à pena de morte pelas novas leis israelenses). 

“Tudo isto representa mais uma violação despudorada do direito internacional e dos direitos humanos – os representantes do movimento vêm repetindo há dias. Após ter sequestrado 181 pessoas em águas internacionais, a 800 milhas de distância de sua própria costa, Israel agora ataca dois de nossos companheiros e o faz, infelizmente, sem que ninguém mova um dedo para impedir esse massacre.”

Ontem foi publicada uma carta curta, mas comovente, nas redes sociais da Flotilha. Ávila a escreveu da prisão para sua filha de dois anos, Teresa: “Por favor, lembre-se do seu pai como a pessoa que cantava para você e tocava violão para fazê-la dormir”, dizia a carta. “E, quando você crescer, sua mãe também lhe dirá que seu pai foi um revolucionário e que, mesmo diante das pessoas mais terríveis do mundo, como Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Itamar Ben-Gvir, permaneceu firme em sua convicção de estar construindo um mundo melhor.”

Mas a flotilha agora precisa de fatos. O ataque israelense de 29 e 30 de abril teria danificado cerca de vinte embarcações, mas deixou pelo menos trinta intactas. É precisamente com essas embarcações que os líderes da Global estão agora contando, sem intenção nenhuma de abandonar sua missão em direção a Gaza: "É claro que devemos partir novamente, e devemos fazê-lo precisamente para dar apoio a Thiago e Saif, além do povo palestino."

O plano, por enquanto, prevê que as embarcações ainda em condições de navegar sigam para a Turquia, onde deveriam chegar nos próximos dias. Outras embarcações locais se juntarão a elas, totalizando cerca de vinte unidades. Depois disso, se as condições permitirem, uma última tentativa deverá ser feita em direção à Faixa. "A viagem de Creta até a costa da Anatólia tem pouco mais de 150 milhas e ocorrerá quase exclusivamente em águas territoriais", dizem eles no quartel-general temporário da flotilha em Heraklion.

Em resumo, uma nova agressão israelense estaria fora de questão, pelo menos nessa fase operacional inicial. Mas depois? Como os israelenses reagirão se essa nova formação flutuante tentar se aproximar da costa do Oriente Médio? Essas são perguntas que ninguém tem condições de responder.

Seis dias após o ataque à Global, no entanto, os contornos da grave operação noturna da qual foi vítima começam a se delinear com mais clareza. De acordo com depoimentos de quem testemunhou os eventos daquela noite de várias posições e ângulos, a marinha israelense teria mobilizado pelo menos quatro fragatas, das quais apenas duas teriam entrado em ação de modo direto, enquanto as outras teriam a tarefa de monitorar, de perto, se tudo estava correndo conforme o planejado.

 

Ao lado desses navios estava o famoso navio-prisão a bordo do qual fomos detidos, 181 de nós. Seria o navio de carga militar Nahshon, "um navio de apoio logístico de 95 metros e 2.500 toneladas, com uma embarcação de desembarque anfíbio acoplada", como descrito em sites especializados. Que tal armada naval pudesse ter operado em liberdade, sem a total cumplicidade das autoridades gregas, obviamente parece pura ficção.

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