Trump se coloca no centro da política global, mas assim prejudica a todos. Artigo de Mario Giro

Donald Trump | Foto: Daniel Torok/Flickr

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06 Mai 2026

"Trump prejudica a todos, até mesmo seus amigos, sem fortalecer seu país. Por sua vez, a China assume a postura da única superpotência razoável que ainda acredita em uma certa ordem internacional. Pode não ser totalmente verdade, mas parece muito mais convincente", escreve Mario Giro, professor de Relações Internacionais na Universidade para Estrangeiros de Perúgia, na Itália, em artigo publicado por Domani, 04-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Donald Trump vai retirar as tropas estadunidenses da Itália e da Alemanha ou não? Ele vai insistir nas tarifas ou só ameaçar? Ele negociará com o Irã ou retomará a guerra? Vai ocupar Cuba ou não?

Seria bom poder evitar responder a essas perguntas, evitando seguir o magnata em suas decisões erráticas. Seria bom poder se limitar a observar o Estado profundo estadunidense, o Departamento de Estado ou o Pentágono, os altos escalões militares ou diplomáticos, os analistas ou aqueles que implementam as decisões. Pena não ser possível. Apesar das análises mais brilhantes, o governo estadunidense jamais poderá prescindir da direção política (com todos os seus defeitos), expressão da Casa Branca e do Congresso. Sempre temos que nos ater a isso, e há várias razões para tal. Em primeiro lugar, o fato de que, sem diretrizes da Casa Branca, ninguém jamais toma iniciativas de caráter militar ou geoestratégico. Isso nunca aconteceu e nunca acontecerá, nem mesmo em condições difíceis como às que estamos assistindo agora, a menos que se pretenda um golpe de Estado.

Militares versus Executivo

Durante a Guerra da Coreia, o General Douglas MacArthur, herói da Segunda Guerra Mundial e comandante das forças da ONU e dos EUA, queria atacar a China comunista, cujas tropas haviam empurrado os Aliados para uma faixa de terra ao redor de Pusan. Ele propôs o lançamento da bomba atômica e pediu autonomia de decisão em seu uso. MacArthur pensou que poderia facilmente convencer o Presidente Harry Truman, que já havia dado essa ordem contra o Japão. Mas o presidente só queria uma guerra limitada e se opôs a tal ponto que MacArthur o criticou publicamente, criando uma perigosa cisão nas instituições estadunidenses. Ele acabou sendo destituído, apesar de ser o oficial mais amado e condecorado do Exército dos EUA e de ter muitos apoiadores dentro do governo e no país.

Durante a Guerra do Vietnã, algo semelhante, embora menos disruptivo, ocorreu entre o presidente Lyndon Johnson e o general William Westmoreland. Além de ter negada a autorização para o uso de armas nucleares táticas (Operação "Mandíbula Fraturada"), Westmoreland entrou em conflito com o presidente sobre o aumento do número de tropas e foi chamado de volta aos Estados Unidos, onde se tornou chefe de estado maior, numa espécie de promoção para afastá-lo de uma posição chave sem demiti-lo. A história da estratégia bélica estadunidense oferece outros exemplos de conflito entre militares e executivo, como os mais recentes entre Barack Obama e o general Stanley McChrystal, ou entre o próprio Trump e o general James Mattis, apelidado de "Cachorro Louco". Em ambos os casos, os oficiais renunciaram e o assunto foi encerrado.

Em segundo lugar, a Casa Branca possui um sistema de funcionamento que não admite interferências: no final, todas as decisões pertencem ao presidente, exceto aquelas que exigem aprovação do Congresso. O Estado profundo (civil e militar) e os ministérios (incluindo o Pentágono) têm muita influência, mas poderes executivos limitados. Eles podem burocraticamente retardar decisões que não lhe agradam, mas certamente não podem executar estratégias inovadoras sozinhos.

Em terceiro lugar, qualquer tentativa de desestabilizar a situação seria sufocada na raiz pela pressão dos pares: a liderança militar e civil dos EUA é complexa e exige interação, troca e avaliações contínuas. Nenhum lado pode fazer qualquer coisa sem prestar contas a muitos outros.

Trump versus todos

É impossível não prestar atenção no que acontece dentro do Salão Oval e nos discursos intermináveis de Trump. É isso que ele quer: fazer com que sua imprevisibilidade nos pareça caótica. Mas o presidente estadunidense está desfazendo toda uma história de doutrina estratégica dos EUA; está arruinando a relação privilegiada de inteligência com os Cinco Olhos (Echelon); está ameaçando retirar tropas da Europa; está minando a coesão da Otan e do Ocidente; está tolerando as provocações e a desestabilização russas.

Pior ainda, Trump está misturando seus interesses privados com as decisões de governo, misturando geopolítica e ganhos comerciais. Isso prejudica a credibilidade dos Estados Unidos, que cada vez mais se parece como uma espécie de estado pária em que não se pode confiar.

Trump prejudica a todos, até mesmo seus amigos, sem fortalecer seu país. Por sua vez, a China assume a postura da única superpotência razoável que ainda acredita em uma certa ordem internacional. Pode não ser totalmente verdade, mas parece muito mais convincente.

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